O metaverso já deu errado

O metaverso já está entre nós. Estamos vivenciando o início de uma sociedade integrada com o virtual, mas as relações de poder e suas consequências desastrosas continuam as mesmas de quando tudo era só papel.

Segundo a própria definição encontrada na internet, Metaverso é a terminologia utilizada para indicar um tipo de mundo virtual que tenta replicar a realidade através de dispositivos digitais. É um espaço coletivo e virtual compartilhado, constituído pela soma de “realidade virtual”, “realidade aumentada” e “Internet”. Há poucas décadas, esse mundo constituído pela soma desses fatores seria até pensada, com livros como Jogador N°1 e a popular trilogia Matrix, entretanto nada mais que isso, ficção.

Acontece que, através da tecnologia, as duas últimas décadas fomentaram mudanças sociais cada vez mais palpáveis em nossas breves vidas — mudanças essas sem precedentes e opção de retorno. Com isso em pauta, não seria exagero dizer que habitamos em um universo tão distópico quanto nossos antecedentes previram.

Interações humanas (ou desumanas)

Segundo dados do IBGE em 2018, entre os dez sites mais acessados do país, cinco deles são considerados redes sociais, além de possuírem uma enorme quantidade de cadastros brasileiros. Isso reflete a adesão dessas novas formas de conexões em território tupiniquim. Mesmo na ausência de dados, fica fácil perceber quantas tendências e memes surgem diretamente das redes e rompem a fronteira tela/realidade de maneira considerável, ecoando em assuntos rotineiros á nossa volta, como, por exemplo, em uma conversa de padaria. Essa barreira entre tela e vida real que, por incrível que pareça, sempre foi um grande desafio de ser rompida, se torna facilmente volátil com a presença das redes.

Fora toda revolução social em termos de se relacionar com outras pessoas que a internet nos proporciona, há um lado sombrio dessa moeda, o lado que o filósofo Thomas Hobbes acreditava ser essencialmente de todo ser humano, o mau.

Vamos utilizar o Facebook como exemplo. A rede social mais popular da década passada, que existe há mais de 15 anos e possui atualmente cerca de 2,8 bi usuários ativos, simplesmente se mostra incapaz de resolver os estigmas ocasionados pela própria rede social. Não é como se fosse algo surpreendente quando a chuva de desinformação sobre a Covid-19 e suas vacinas começaram a se espalhar ao redor do mundo através do Facebook: a desinformação sempre existiu e impulsionou a empresa, e talvez eles nem se importem mais em disfarçar isso. Andrew Bosworth, vice-presidente de realidade virtual e aumentada do Facebook e futuro diretor de tecnologia da Meta afirmou em entrevista que toda desinformação em relação à pandemia e suas consequências políticas seriam problemas da sociedade como um todo, e não seriam ampliados por plataformas como o Facebook.

É curioso notarmos que quando convém, a empresa claramente se distancia da realidade e afirma que a maior rede social do mundo não está preparada para problemas da sociedade. Vale lembrar que essa mesma empresa que lava as mãos para os problemas da sociedade, esteve na mira de investigações por proporcionar indiretamente o maior vazamento de dados de usuários já visto, utilizados para propagandas eleitorais pró-Trump, que afetou possivelmente os rumos da eleição naquela ocasião. “As pessoas querem essa informação”, disse Bosworth. “Não acredito que a resposta seja negar a essas pessoas as informações que elas procuram e fazer cumprir minha vontade sobre elas. Em algum ponto, o ônus é, e deve ser, em qualquer democracia significativa, sobre o indivíduo.” Onde estava essa democracia em 2016, Bosworth?

Relações de trabalho escravo

As relações de trabalho também se alteraram intensamente nessa última década. Soa normal uma busca por emprego ser feita em casa, jogado em um sofá. Ou mesmo reuniões importantes serem feitas de maneira totalmente virtual. É prático. É útil. É inovador.

Essa total integração entre o ofício e a internet, trouxe muitas novidades que hoje não imaginamos viver sem — quem nunca ‘pediu um Ifood’ na hora do aperto? O aplicativo, que facilita a busca lanchonetes para seus usuários, integra cliente, entregador e restaurante, além de gerar emprego para milhares de “autônomos”, pode ser visto como uma novidade na lógica liberal contemporânea, entretanto, não há nada de novo na exploração da força de trabalho.

A startup brasileira de entrega de comida viu seu lucro subir de maneira avassaladora no ano passado, principalmente pela pandemia em que o país se encontrava e consequentemente a quarentena, fazendo do Ifood a plataforma ideal para o momento.

Mesmo com números exorbitantes, o Ifood não universaliza direitos mínimos de trabalho para seus funcionários. Como é uma plataforma de integração entre restaurante e entregador, a empresa parece não se ver responsável por mais de 160 mil operários que estampam nas costas uma mochila com a logo da empresa.

Sem seguro da motocicleta, sem plano de saúde, sem nem mesmo um capacete. Nada é fornecido além das notificações de entrega que reluzem no celular. O seguro de seus bens, assim como da própria vida, é exclusivamente responsabilidade do entregador. A própria lei da selva.

O looping das grandes revoluções

Não se engane, eu realmente acho possível que o metaverso seja funcional. É de conhecimento geral que tal empreendimento só seria capaz de ser viabilizado com a cooperação de diferentes empresas para formar um “universo” coeso dentro de uma realidade virtual. Até certo ponto, isso parece bem possível de ser feito, uma vez que o lucro é a resposta central. Além do que, em uma sociedade prestes a ruir a qualquer momento igual à nossa, cada vez mais formas de entretenimento imersivo são necessárias, basicamente nos oferecendo uma fuga da realidade que essas próprias companhias ajudaram a criar.

O meu ponto aqui não é a utilidade do metaverso, e sim sua moralidade. A ideia é ousada e precipitada, mas soa como uma criança que não aprendeu a andar e já quer ler. É necessário resolver estigmas básicos que não superamos há anos de internet, para dar o próximo passo de uma revolução da forma como lidamos com a mesma. Mas solucionar nem sempre leva ao caminho da mais-valia, e é aí que caímos no erro, e continuaremos nele, enquanto o acúmulo de capital for a prioridade do mundo, revoluções como o metaverso vão ser apenas um looping infinito de relações de poder e luta pela sobrevivência dos nossos.



TEM UMA PAUTA?
ESTAMOS AQUI!

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser anônimo, tá?


Em destaque

RECENTES

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos, que busca usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança no futuro das novas gerações.