Nascido no Rio de Janeiro em 1962, Chico Otávio se consolidou como um dos jornalistas investigativos mais importantes do Brasil. Uma das figuras responsáveis pela criação da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Chico auxiliou a esclarecer os casos de corrupção envolvendo o ex-governador Sérgio Cabral, como também os crimes do ex-deputado Eduardo Cunha, que processou o jornalista mais de uma vez por conta das investigações feitas por ele. 

Chico Otávio venceu o Prêmio Esso sete vezes, atuando como repórter do jornal O Globo desde 1997, com foco nas investigações jornalísticas. O livro mais recente dele, Mataram Marielle, escrito em parceria com a jornalista Vera Araújo, concorreu como finalista do Prêmio Jabuti deste ano na categoria de Biografia, Documentário e Reportagem. Além de trabalhar como jornalista e escritor, Chico dá aulas de jornalismo na PUC-Rio.

Segundo ele, as informações mais valiosas tendem a ser as mais difíceis de se obter. Um dos maiores desafios do jornalista investigativo é o de “chegar à informação inédita, de superar a barreira do conhecimento”, afirma. Em 2021, a enorme colaboração jornalística envolvendo os Pandora Papers, somadas às investigações acerca dos esquemas de corrupção durante a pandemia de covid-19, trouxeram à superfície a potência do jornalismo investigativo. Sobre tal tema, Chico Otávio tem muito a dizer.

Qual o cenário geral do jornalismo investigativo no Brasil contemporâneo?

Têm pontos positivos e pontos negativos. Os pontos negativos são, evidentemente, esse cenário de intolerância, que não é uma exclusividade do jornalismo investigativo. É uma situação que todos nós jornalistas estamos vivendo — de xingamentos, de perseguições e de ataques pessoais —, especialmente as nossas colegas jornalistas em ambientes misóginos. Não é nenhuma novidade essa situação.

Muitas vezes colegas nossos vão à justiça em busca de reparação, então nós éramos sempre o réu, e agora estamos virando autores desses processos de indenização por danos morais.

Outro ponto negativo que eu também considero é a própria crise econômica. O jornalismo já vinha em uma situação crítica, com as redações tradicionais enfrentando o encolhimento dos investimentos em publicidade. Os jornais tiveram que reduzir suas equipes, e a gente acompanha até hoje esses processos sistemáticos de cortes, de demissões e de reduções de quadro em redações.

E quais seriam os pontos positivos?

Para mim, é a própria revolução tecnológica, pelo que ela trouxe de pluralidade e de multiplicação dos atores desse universo jornalístico. Hoje você pode ser um jornalista investigativo tendo seu próprio blog ou empresa individual. Conheço experiências exitosas, como a do Lúcio de Castro com a Agência Sportlight, e desde o Intercept que deu o furo da Vaza-Jato até o Antagonista.

O jornalismo investigativo interessa a quem?

À sociedade e à democracia. Acredito que nossos melhores esforços no jornalismo investigativo têm a ver com o gerenciamento público, os ministros, os secretários de Estado, o presidente da República, entre outros. Nós exercemos um esforço muito grande. A CPI da Covid é um exemplo disso, nós temos um trabalho parlamentar, mas em paralelo todo o esforço do jornalismo de ir além e de tentar repercutir por meio de sua própria linha de investigação. Para mim, quem ganha é a sociedade, os cofres públicos e a democracia. 

Existe, então, relação entre o jornalismo investigativo e o bom funcionamento da democracia?

Perfeitamente, (o jornalismo investigativo) é um pilar. Tanto é que nós temos no Artigo 5.º da Constituição o sigilo da fonte, sendo uma cláusula pétrea para o livre exercício do jornalismo investigativo no Brasil. Porque você tem direito a buscar informações guardadas a sete chaves, normalmente as melhores e as mais importantes, preservando a fonte que te passou o dado. Então eu faço uma associação direta entre uma coisa e outra.

Como você enxerga a relevância do jornalismo investigativo e da colaboração jornalística para a exposição de ações antiéticas e/ou ilegais dos que detém o poder político e econômico?

Olha, eu acredito que reportagens dentro desse perfil têm feito história no Brasil. Por exemplo, as pessoas falam muito que ‘a Lava-Jato mostrou o Ministério Público atuando ao lado de um grupo político contra um outro’. Eu só quero lembrar, e é importante fazer esse destaque aqui, que esse mesmo Ministério Público Federal, que agora é criticado, é o mesmo que nos governos anteriores, da Dilma e do Lula, fez uma força-tarefa chamada Justiça de Transição: um amplo, profundo e histórico trabalho sobre os crimes da ditadura militar, investigando os torturadores e os agentes da repressão.

E o jornalismo investigativo teve papel fundamental nesse processo, atuando em colaboração tanto para a Justiça de Transição como para a Comissão Nacional da Verdade. Essa parceria teve uma relevância histórica, e acho que é a melhor resposta que eu posso dar à pergunta que vocês fizeram.

Falta reconhecimento em relação ao trabalho do jornalista investigativo no Brasil?

Acredito que não. A sociedade sabe reconhecer… é que nós vivemos nesse ambiente de intolerância em que as paixões ficam muito exacerbadas. Então, quando um jornalista publica matérias sobre os crimes da ditadura militar, ele ‘toma pau’ dos conservadores; quando mostra os desmandos da Petrobras, ‘toma pau’ dos esquerdistas. É duro ouvir tudo isso, mas é um bom sinal. Um sinal de saúde, porque nós não temos lado na história. É a melhor situação.

Há alguma crítica acerca do jornalismo investigativo brasileiro?

O problema que estou vendo com a disseminação do jornalismo independente é a partidarização e a adjetivação. Hoje muita gente se diz jornalista investigativo sem sair de casa… tudo bem, entendo: estamos vivendo em uma pandemia, mas uma coisa é investigar profundamente, cavar informação, conquistar a fonte, analisar documentos, destrinchar as coisas, perder um tempo enorme… dá dor de cabeça.

Outra coisa é você chegar e tacar um monte de adjetivos sobre um tema qualquer. E aí dizer que é jornalismo investigativo, o que me preocupa bastante, porque ficou tudo muito embolado, muito embaralhado. Acho que a sociedade vai acabar fazendo essa triagem; é um processo natural. Espero que sobreviva lá na frente aqueles (veículos midiáticos) que tiverem mais credibilidade.

Agora, não vai ser um processo rápido nem fácil: a triagem natural ainda vai demorar um certo tempo. O que digo a meus alunos é para evitarem o jornalismo ideológico, apaixonado. Acho isenção difícil, utópica, mas é um dever, uma missão do repórter buscar sempre essa utopia.

Qual a perspectiva que uma pessoa interessada em ingressar no jornalismo investigativo encontra?

Vai encontrar, primeiro, um desafio: o de chegar à informação inédita, de superar a barreira do conhecimento, de alcançar um ponto que nenhum outro colega alcançou. Esse que é o desafio: fazer história. No final, lá na frente, olhar pro cenário e ver que a matéria deu uma contribuição importante para a ética, para a sociedade, para a democracia. Então, é preciso que os olhos brilhem, que se tenha vontade, intenção… disposição para vencer as barreiras, porque não é fácil. É difícil.

Ninguém na área pública está disposto a te entregar uma informação de mão beijada de uma coisa delicada, seja uma denúncia por fraude fiscal, administrativa, seja um caso ligado à área penal. Essas informações geralmente são sigilosas, guardadas com um cuidado incrível. É papel do jornalista superar essa barreira. O recado que dou é: abracem a causa, com disposição, porque lá na frente é esse trabalho que vai fazer toda a diferença na carreira do jornalista.

Quais profissionais do jornalismo investigativo brasileiro você destaca?

Difícil dizer assim, sabe? Eu conheço vários colegas que lidam com esse tipo de jornalismo, fico com medo de destacar nome porque isso vai gerar uma ciumeira danada. Eu prefiro fazer uma homenagem ao mais veterano de todos: ao José Hamilton Ribeiro, uma referência no meu trabalho. Trabalha, por incrível que pareça, no Globo Rural, e tem uma história incrível na profissão. Então, em nome de todos os jornalistas investigativos, eu rendo aqui minha homenagem a José Hamilton Ribeiro.

Em que outros episódios (seja no âmbito político, esportivo, cultural) ocorreram atuações tão determinantes por parte dos jornalistas investigativos?

Quero destacar aqui, com louvor, o papel do jornalista investigativo durante a pandemia do coronavírus. Para mim, um trabalho decisivo foi mostrar as fraudes, a corrupção nas ações de enfrentamento da crise sanitária: seja na compra de respiradores, seja de outros equipamentos de proteção individual, seja na construção de hospitais, Brasil afora.

O jornalista investigativo exerceu um papel fundamental na proteção do recurso público em uma situação crítica, gravíssima. E não só isso, também deu transparência aos números, mostrou situações de crise, de mortes. Então, para mim, acho que é o exemplo mais bacana do Brasil contemporâneo dum papel central do jornalismo investigativo na condução do processo social… derrubou um governador no Rio de Janeiro.

Em um contexto social de reivindicação do direito à privacidade, quais os limites éticos de práticas como microfones e câmeras escondidas?

Bom, primeiro gostaria de dizer que a justiça não tem uma posição consolidada sobre essa questão. Existe o eterno confronto entre dois direitos garantidos na Constituição, no mesmo Artigo 5.º, sendo: os direitos à informação e à privacidade. Muitas vezes eles entram em conflito em ações ajuizadas na justiça brasileira, e os juízes, desembargadores e ministros tomam as decisões caso a caso, ponderando a situação de cada um. Então não existe uma posição definitiva: ora a balança pende para o lado do direito à privacidade, ora pende para o direito à informação.

Agora, eu sempre vou optar pelo jornalismo transparente, aquele em que você chega e é totalmente franco com a fonte. Eu não gosto de omitir, eu não gosto de enganar, eu não gosto de esconder, de camuflar microfone, acho que isso desqualifica um pouco o trabalho. Porém, em certos casos, eu acho que são recursos que os jornalistas consideram válidos, então respeito. Mas eu prefiro trabalhar com transparência.


entrevista realizada por Danilo Akel e João Marcello Santos.


Agradeço de novo ao Chico Otávio, que autorizou a publicação da entrevista realizada inicialmente para uma disciplina de Jornalismo na PUC-Rio. Conversamos por Zoom no dia 29 de outubro de 2021.