Em 1846, uma colaboração épica de cinco jornais diários em Nova York se uniram para criar a Associated Press, a AP. Na época, seu objetivo era dividir o custo da cobertura da Guerra dos Estados Unidos e o México, entre 1846 e 1848. Desde então, tornou-se uma das colaborações mais duradouras e produtivas do jornalismo até em dias atuais. Como?

O conceito por trás da colaboração jornalística sempre foi gerar uma soma ou qualidade de conteúdo maior do que um indivíduo ou organização poderia fazer por conta própria. Isso com certeza não mudou. O que mudou ao longo dos anos, com a inovação das tecnologias de informação e do fluxo de hardnews por 24 horas seguidas, foram os traços que tornam uma colaboração bem-sucedida.

Em nova pesquisa do Tow Center for Digital Journalism, de Carlos Martínez de la Serna, a análise se concentra nas últimas três décadas na ‘natureza mutante’ da cooperação jornalística na era digital, descobrindo que não apenas o DNA atual das colaborações mais eficazes parece muito diferente do passado, mas um de seus principais subprodutos é a criação de uma infraestrutura digital de acesso aberto para informações – que a pesquisa chama de um novo “patrimônio do jornalismo”.

Colaboração facilitada pela Internet significa que, com organizações de notícias tradicionais, especialistas em TI, designers de software, arquitetos de banco de dados públicos, instituições de pesquisa e ativistas cidadãos cooperam — às vezes sem acordos ou agendas formais — para criar ferramentas e recursos de informação que estabelecem as condições para como as notícias são produzidas e divulgadas. Isso inclui, de acordo com a pesquisa, uma gama de tecnologias. Desde a introdução do e-mail, o lançamento do servidor da web Apache e do sistema operacional Linux de código aberto na década de 1990, até desenvolvimentos mais modernos como o Slack, todo esse aspecto pôde compor uma nova produção de informação, e agora, vistos como “componentes centrais da nova infraestrutura para o jornalismo”.

Colaboração descentralizada

O que o WikiLeaks fez de diferente quando entrou em cena em meados de 2006 foi combinar uma cultura de participação aberta e descentralizada semelhante com a de veículos de notícias tradicionais. Os parceiros da mídia do ‘establishment’ não apenas poderiam ajudar a filtrar o enorme banco de dados de documentos, mas também poderiam disseminar as informações por toda a parte. “A grande mídia ofereceu ao WikiLeaks um caminho importante para levar um assunto importante ao público, um efeito amplificado pela publicação orquestrada de reportagens por jornais tradicionais (Cablegate, 2009-2011)”, diz a pesquisa.

O WikiLeaks publicou “vários vazamentos de importância crítica para a compreensão dos eventos atuais e da diplomacia internacional — começando com a publicação de um vídeo que vazou no ataque aéreo de 2007 em Bagdá nos Estados Unidos e seguido pelos Registros da Guerra do Afeganistão (Afeghan WarLogs) e pelos Registros da Guerra do Iraque (Iraq WarLogs)“. Mas foi “a publicação coordenada de telegramas dos EUA em colaboração com cinco organizações de mídia tradicionais nos Estados Unidos e na Europa, e mais tarde com muitas outras ao redor do mundo”, que teve maior influência na criação do cenário para colaboração com impacto global.

As colaborações jornalísticas mais bem-sucedidas hoje, ao que parece, freqüentemente dependem e se baseiam em recursos compartilhados que são independentes de propriedade – sejam eles bancos de dados públicos, tecnologia de código aberto ou comunidades em rede. 

Segundo Hackett (1998), o jornalismo deve desempenhar um papel vital na defesa da democracia, facilitando o discurso público por meio da “promoção da transparência e responsabilidade de governos, empresas e órgãos públicos”. Não é à toa que o co-fundador do WikiLeaks e preso político mais cobiçado do mundo, Julian Assange, foi premiado com o Australian Walkley Awards em 2011 pelo trabalho colaborativo — ‘Most Outstanding Contribution to Journalism’. Como seu editor-chefe, Assange encorajou com sucesso o público global por meio de sua postura corajosa, determinada e independente em relação à liberdade de expressão e transparência.

Inicialmente,  Julian Assange vem afirmando durante anos que havia iniciado o WikiLeaks para jornalistas que estavam exaustos de se autocensurar — que tinham material de fonte primária, mas não podiam publicar devido a restrições legais ou de participação editorial.  Ao contrário da mídia tradicional, o WikiLeaks apresentou sua capacidade de minar as relações de poder entre os governos, a mídia e o público, facilitando a troca de materiais potencialmente sensíveis e previamente censurados.

Em sua batalha declarada pela liberdade de expressão, o WikiLeaks é descrito como “um provedor de jornalismo na Internet”, indicando o surgimento de uma “era de transparência” progressiva (Wahl-Jorgenson, 2014). Considerando que o WikiLeaks funciona tanto como fonte quanto como distribuidor, o surgimento do quarto poder em rede pode ser visto, em certa medida, como uma contribuição para as antigas instituições de mídias.