Vale da morte

Duzentos e setenta. É o número de mortos em consequência do rompimento da barragem de Brumadinho, Minas Gerais, já oito ainda estão desaparecidos. Imagens e vídeos do desastre mostram estruturas sendo levadas pela lama, pessoas sendo soterradas e blocos de solo colapsando. Tudo isso faz parte de um novo vídeo divulgado pela EterSec, coletivo hacktivista e membro do movimento global Anonymous, que tenta relembrar a importância do evento para o país, e encontrar culpados.

A tragédia de Brumadinho aconteceu somente quatro anos após o desastre de Mariana, e ambas tiveram o envolvimento da Vale. O desastre começou a instigar a imprensa brasileira a produzir reportagens e investigações sobre danos ambientais, além de prestarem mais atenção nos procedimentos judiciais envolvendo tais desastres — onde, em sua maioria, as empresas saem impunes ou pagam uma porcentagem minúscula do valor total acordado em tribunal.

Em um levantamento feito pela imprensa em parceria com órgãos estatais, foi constatado que após o desastre de Mariana foi aplicada uma multa de mais de 780 milhões de reais as três companhias envolvidas, e só 3% do valor foi pago.

A barragem se rompeu ao meio-dia do dia 26 de outubro, formando ondas enormes de lama, chegando a alcançar a velocidade de até oitenta quilômetros por hora. Haviam sirenes de segurança para caso algum desastre ocorresse, mas a proximidade entre a barragem e as áreas da Mina, como refeitório e a área administrativa, impossibilitou que os funcionários se salvassem. O risco de rompimento de uma nova barragem interrompeu a busca por sobreviventes no dia seguinte. Por volta das cinco da madrugada, sirenes alertaram o risco e mais de vinte mil moradores da cidade foram evacuados.

No início desta semana, o coletivo hackitivista EterSec, parte do movimento global Anonymous, invadiu o site da prefeitura de Brumadinho. A ação, ao que tudo indica, faz parte de uma tentativa de reativar o interesse público sobre a tragédia. “Algumas pessoas consideram este como o maior acidente de trabalho da história do Brasil. Nós não concordamos. Não se tratou de um acidente.”, afirmou o grupo através de nota no site invadido.

As causas por trás do desastre só foram descobertas e divulgadas pelo Ministério Público este ano, em outubro, e o processo de produção foi acompanhado por peritos da Polícia Federal e consultores técnicos independentes. Um relatório final constatou que a ruptura se deu em razão do fenômeno da liquefação, provocado por uma perfuração feita a partir da área superior até a base da represa, onde os rejeitos estavam armazenadas. Essa operação foi iniciada cinco dias antes da tragédia e estava em andamento no dia da ruptura.

O caminho de destruição percorrido pelos resíduos tóxicos da mina. Fotografia por Vinicius Mendonça, para o IBAMA.

Um perito da Polícia Federal afirmou que a perfuração estava ocorrendo no ponto mais crítico da barragem. Antes de iniciar a perfuração que provocou a liquefação, a Vale contratou uma empresa terceirizada para realizar a etapa inicial do processo — o nome da empresa em questão ainda não foi revelado pelas autoridades.

Quinze dias antes do rompimento, o Sr. Fábio Schvartsman, presdiente da Vale à época, recebeu um e-mail denunciando as péssimas condições da empresa e alertando para a tragédia iminente. Estas denúncias foram ignoradas.

EterSec

No entanto, os dados desse primeiro processo não foram analisados pela Vale, que autorizou então para a segunda etapa — sim, sem verificar os dados de diagnóstico da empresa contratada justamente para tal.

Antes mesmo da divulgação do relatório pelo Ministério Público, um acordo entre o governo de Minas Gerais e a mineradora foi firmado. Ambas as partes — em ‘entendimento’ — determinaram o aporte de 37,7 bilhões de reais em recursos durante um prazo de dez anos, voltados em ações às áreas e aos moradores dos municípios afetados pelas consequências do desastre. O valor original exigido pelo governo mineiro era de 55 bilhões de reais.

Há algo a ser pontuado, como afirmou a EterSec: “Diversos órgãos internacionais denunciaram, por exemplo, o acordo feito sem a presença das famílias atingidas, às portas fechadas, sem nenhum qualquer de transparência”. Familiares de vítimas do desastre afirmaram publicamente estarem decepcionadas com o acordo que foi firmado. A razão principal é a citada pela EterSec, familiares não foram ouvidos, e o Estado focou somente em conter o impacto socioeconômico e ambiental da forma mais simples possível.

Cerca de 9 bilhões da quantia total se destinaram para um programa de assistência social aos atingidos, como assistência psicológica aos sobreviventes, mas, simultaneamente, outros 4 bilhões foram destinados a projetos de transportes que nem envolvem a cidade de Brumadinho, como a ampliação do metrô da capital do Estado, Belo Horizonte.

Em declarações públicas, familiares e sobreviventes se queixaram de que isso representava uma campanha pessoal do governador mineiro, com o dinheiro do acordo.

Para muitos, o valor do acordo com o Estado e as ações individuais não chegam nem a ser um prejuízo financeiro importante para a empresa. A Vale pode ter perdido o posto de empresa mais lucrativa da América Latina este ano, mas ainda em setembro, era avaliada na bolsa de valores em mais de 565 bilhões de reais. As ações da empresa continuam em alta, e, na verdade, como também pontuou a EterSec, voltaram a ter alta poucos dias após o desastre.

Punições financeiras para casos como este somente reforçam a ideia de que se você tem os meios financeiros, você jamais será punido. Quando a punição somente é feita através do capital, ela somente existe para a classe trabalhadora. As famílias de vítimas, sobreviventes do desastre e a população local afetada passará seu terceiro natal sem qualquer punição efetiva.

Visão área do desastre. Fotografia por Douglas Magno para AFP/Getty.

Acordos foram fechados, inclusive em benefício de famílias. A empresa alega que já fechou mais de três mil acordos, boa parte deles acordos trabalhistas. Mas, assim como dito por familiares, parte do valor de acordo será enviado para o Estado de minas e regiões que nem foram afetadas pelos impactos ambientais e socioeconômicos do rompimento da barragem.

Nenhum dos responsáveis, diretores e técnicos que deveriam avaliar os riscos, e optaram por ignorá-los em prol do lucro, foram presos. Se a sociedade civil cobra prisão de indivíduos que furtam comida em mercados para sobrevivência, não há nada mais lógico, e digno, a cobrança de que os responsáveis pelo maior acidente de trabalho do país, e um dos maiores desastres ecológicos do mundo.



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