Dentro do #FacebookPapers


Entrevistamos Laís Martins, jornalista no Núcleo jornalismo, para falarmos sobre o #FacebookPapers.


Em novembro, o Núcleo Jornalismo começou a publicar reportagens com base nos documentos do ‘Facebook Papers’, uma série de documentos internos vazados pela denunciante Frances Haugen, ex-gerente de produtos da equipe de integridade cívica e cientista de dados na empresa. 

As denúncias conduzidas tanto pelo Núcleo, quanto pela imprensa internacional, abrangem uma diversa gama de tópicos, as principais sendo: a revelação de que a empresa tinha consciência do impacto negativo do Instagram na saúde mental de adolescentes, e o impacto das plataformas da empresa na disseminação de informações falsas e na promoção de postagens que provocam raiva. 

Para ressaltarmos a importância dos arquivos e da equipe por trás do trabalho investigativo, entrevistei a Laís Martins, jornalista no Núcleo Jornalismo que está participando de quase todas as histórias publicadas pelo site.

Segundo Martins, a equipe do Núcleo já estava acompanhando as investigações e reportagens desde o início, mas somente após a criação do consórcio internacional que o grupo notou a necessidade de analisar os documentos em busca de algo sobre o Brasil, pois, notaram o potencial do arquivo. Além disso, a forma de atuação do consórcio — na minha opinião, uma ótica de concorrência e não de colaboração — também os motivou a procurarem os arquivos. 

“Se nós só dependêssemos da cobertura dos Estados Unidos e dos veículos europeus, não veríamos uma cobertura específica do Brasil. Ou uma cobertura que olhasse para o Brasil de forma atenciosa, e pessoalmente sou contra porque o Brasil é o quinto maior mercado do mundo”, diz Martins.

A equipe tentou o acesso aos documentos através de contato com dois repórteres de um site da imprensa internacional que havia afirmado querer abrir os documentos, em uma tentativa de democratização. No fim, o método certeiro foi estabelecer contato direto com a assessoria legal de Haugen. Além disso, há um marco importante para a imprensa nacional e independente: o Núcleo foi o primeiro veículo brasileiro a ter acesso aos documentos. 

Mas o Sérgio Spagnuolo, editor do site, escreveu uma auto-crítica em sua editoria criticando a cobertura do veículo sobre os documentos. Em suma, todos os veículos da grande imprensa, assim como o Núcleo, estavam focados em conduzir sua própria análise e não manter necessariamente uma comunicação para colaboração.  “Se o nosso objetivo é informar a audiência, faz sentido colaborar”, diz Martins. Após isso, o Núcleo tomou a iniciativa e formou um próprio consórcio brasileiro para investigação e análise dos documentos. 

Sobre o processo de análise, além de citar a estrutura da empresa, ao menos antes dos vazamentos, que funciona em uma ‘colmeia’, onde diversas equipes se comunicam entre si para chegar a uma decisão final, Martins diz ser extremamente importante lembrar haver um recorte de tempo nos documentos. 

“Eu não sei o que aconteceu antes internamente, nem o que aconteceu depois. Tudo ali que foi discutido o Facebook realmente aplicou?”. Ela também ressalta que fez questão de deixar essa percepção clara em todas as reportagens que escreveu. “Eu fiz questão de colocar em todas as matérias que a partir do documento, nós não sabemos se o Facebook agiu sobre as recomendações”. 

“Não podemos cair na tentação de cravar uma coisa muito grande sobre os documentos que tem um recorte de tempo”. 

Mas, porque isso importa para o usuário comum, principalmente aos jovens? Martins reconhece e ressalta a diferença na percepção entre os jornalistas com acesso aos documentos, e os leitores, que leem o conteúdo editado. “Eu acho que temos três principais coisas para entendermos a importância do arquivo”.

“O primeiro é que o Facebook sabia que certas emoções engajavam mais, predominantemente emoções negativas”. Segundo Martins, a plataforma não só sabia do engajamento do conteúdo negativo em si, mas do engajamento e a concentração de público com os atores que produzem tal categoria de publicação. “Em 2018, o Facebook descobriu que 3% dos usuários brasileiros produziram um terço do total do conteúdo político na rede.”

Pequenos elementos da interface do usuário tinham um impacto na disseminação desse conteúdo. E segundo Martins, a partir do momento que sabemos disso, é o papel da imprensa saber se eles agiram sobre tal problema.

O último ponto é algo mais geral, diz Martins, e reflete sobre os usuários. “Como usuários também temos responsabilidade, porque somos dinheiro para o Facebook. Tempo de uso na plataforma, like, engajamento, é dinheiro. A partir do momento em que o Facebook monetiza em cima do nosso comportamento, em todas as suas plataformas, nós ganhamos um certo poder de alavanca”. E ao contrário do que muitos podem pensar, essa fala não é um sinal de ingenuidade, mas de consciência. “Eu não quero ser ingênua e dizer que eu, sozinha, vou resolver os problemas do Facebook Papers. Mas a ação individual importa muito”.

Muitos usuários acreditam que não possuem responsabilidade por suas ações por estarem sendo condicionados, através de mudanças na plataforma ou um algoritmo perverso, a fazerem-nas. Essa não é a realidade. Por mais que as redes tenham problemas, não é como se isso fosse escondido do público. Afinal, a maior parte dos usuários tem noção do que essas plataformas fazem por debaixo dos planos, sobretudo o Facebook. Usando essa rede como exemplo fictício, podemos comparar a quantidade de usuários que reclamam sobre a rede, e quantos realmente leram reportagens sobre o Facebook Papers?

Quantos usuários sabem o ‘senso-comum’ do que engloba os problemas da plataforma, e quantos se deram ao trabalho de ir, de fato, ler reportagens? Esse desinteresse também não indica, talvez, um problema por parte dos usuários?

O trabalho do Núcleo

A estreia do site no consórcio foi em cinco de novembro, em reportagem que detalha o fato de que usuários do Facebook no Brasil, Índia, Egito, Turquia e Filipinas estariam mais suscetíveis a danos provocados por conteúdos de incitação à violência e discurso de ódio, comparados a usuários do primeiro mundo. Além disso, a investigação descobriu que a empresa colocava o Brasil como segundo lugar em um ranking de ‘prioridades’ para este ano.

Outra peça, extremamente importante, abordou um estudo interno da empresa publicado ano passado, onde se mostrou que a percepção de alcance de imagens de exploração infantil e de violência gráfica no Brasil é maior em comparação com outros aplicativos.

Isso, segundo a reportagem, é problemático porque “Pode indicar problemas na forma como os algoritmos da empresa funcionam”. Comparado com outros aplicativos, a rede social se saí pior do que a maioria no Brasil. Segundo o Núcleo, uma nota do slide diz: “Alcance de violência gráfica no WhatsApp é também maior do que apps parecidos no Brasil”.

Já outra reportagem, e possivelmente a mais importante, relata como o Facebook sabia que poucos ajustes melhorariam o uso do aplicativo e poderiam impedir desinformação e conteúdo tóxico. A reportagem detalha como em setembro do ano passado, um funcionário organizou um dossiê propondo a alteração na interface da plataforma para reduzir a distribuição de conteúdos de ‘baixa integridade’ —  o site afirma não ser exatamente claro o que seria qualificado como ‘conteúdo de baixa integridade’ pela empresa a partir dos documentos, mas a noção geral pode ser compreendida como desinformação, discurso de ódio, conteúdo enganoso, etc.

“Era uma mudança simples, que eu e você, como usuárias do Facebook não saberíamos, mas eles sabiam que se retirassem esse botão isso iria diminuir, e muito, a disseminação do conteúdo nocivo.”, diz Martins. 

Para o funcionário, recursos que encorajam engajamento na plataforma, como botões de curtir ou compartilhar, intensificavam essa categoria de conteúdo. Por isso, o documento discute os botões de engajamento, como o de compartilhar. Segundo o Núcleo, “Um dos riscos identificados é de que o botão encoraja compartilhamento de conteúdos de baixa integridade. A solução proposta é a de não exibir esse botão ao final de vídeos”.

Uma pequena mudança como esta poderia garantir que a plataforma não contribuísse para a amplificação de conteúdo, e aumento do público de usuários que produzem desinformação. Além disso, como apontado pelo site, isso “contribuiria para cumprir duas metas do ‘pilar de integridade’ da empresa”. 

E agora?

O material do Facebook Papers é o maior vazamento interno da empresa em toda a história, e como diz Martins, “será provavelmente o maior arquivo envolvendo o Facebook, pelo menos em alguns anos”. Ela supõe que a empresa provavelmente fechou a sua estrutura em colmeia após as reportagens, de forma a evitar futuros vazamentos. Mas e agora?

Os vazamentos não só mostraram o potencial destrutivo da empresa e suas redes — como seus efeitos em adolescentes, ou o que a falta de ação moderadora pode resultar — mas, de certa forma, a empresa em si. Sua estrutura, sua quantidade de pesquisas, análises. Para Martins, o que mais a surpreendeu foi justamente isso: a qualidade e a quantidade de pesquisas internas que a empresa possuía.

Quantas vezes nós, como imprensa, já ouvimos a resposta do Facebook, ‘nós não temos esse dado’?

A partir dos vazamentos, é possível que reguladores, como legisladores ou organizações internacionais, não aceitem mais respostas vagas ou omissas. Agora, autoridades sabem que, bem, eles sabem. Eles têm informações e dados, às vezes até extremamente específicos, sobre praticamente tudo que envolve a plataforma — interna e externamente — e até concorrentes como o TikTok.

“Quando você observa os documentos, você sabe que eles tinham esses dados. Acho uma pena, porque poderia ser um regime de governança da internet tão colaborativa se o Facebook abrisse essas pesquisas para jornalistas, legisladores.”, diz Martins. “O jeito que eles agiram sentou em cima dessas pesquisas, que poderiam responder vários questionamentos que pesquisadores da área estão agindo por fora para pesquisar”.

Em outubro, Haugen foi convidada ao Congresso dos Estados Unidos para uma audiência pública em um subcomitê do Senado de proteção ao consumidor. Durante o testemunho, afirmou que a liderança da empresa sabe como mudar e deixar suas redes mais seguras, mas “não realizará as mudanças necessárias porque colocam seus lucros astronômicos antes das pessoas”, concluindo ser necessária a ação de congressistas para resolver a crise causada pela empresa.

A cientista de dados também afirmou em seu testemunho que “ninguém fora do Facebook sabe o que acontece dentro do Facebook”, concluindo que a empresa intencionalmente oculta informações vitais para o público e governos ao redor do mundo.

Para Martins, chegamos a um ponto de ‘não retorno’. “Não podemos agora, sabendo de tudo que o Facebook fez, não agir em cima. Precisamos cobrar a transparência que veio do Facebook dos vazamentos, de outras plataformas”. E isso significa que quem possui autoridade, deve agir com tal autoridade. Legisladores, organizações internacionais e políticos, em geral, devem se aprofundar sobre as redes sociais além da questão de engajamento.

“Há um desconhecimento por parte das pessoas que fazem política de como as redes sociais funcionam, o que impede que haja um regime colaborativo na internet”, diz Martins. Com essa fala, chegamos a um dos principais problemas com o Facebook Papers: a falta de esclarecimento por parte da empresa, somada ao desconhecimento geral de legisladores ocidentais sobre o tema, com certas exceções na Europa, coloca usuários em risco.

Se quem tem a autoridade para regulamentar e responsabilizar essas empresas não sabe como fazê-lo, qual é o valor da sua autoridade? Se quem possuí não só o poder, mas a responsabilidade e a obrigação, de proteger cidadãos de práticas predatórias, abusivas e até ilegais por parte de empresas, não fizer isso, quem deve fazer? “É preciso que nossos legisladores, e eu digo mundialmente, corram atrás, porque o Facebook sabe muito mais que nós.”, diz Martins.

A regulação não só é necessária para proteger usuários, mas até legisladores de serem manipulados. Foi revelado que, após Haugen ter vindo a público com sua identidade, a Meta se esforçou para evitar que uma oposição bipartidária surgisse entre políticos norte-americanos. Parte da equipe chegou a telefonar para republicanos e alegar que a denunciante era uma ‘ativista democrata’ que queria impulsionar o apoio público ao presidente Joe Biden.

É crucial que a sociedade civil se atente ao Facebook Papers o mais rápido possível, porque tudo indica que a situação provavelmente irá se agravar. A resposta infantil da empresa após os vazamentos, optando por seguir a linha de difamação da denunciante e não a de assumir responsabilidade, mostra que ao menos por ora, as autoridades na corporação não pretendem corrigir os pontos críticos em suas redes.

Ano que vem o país passará por eleições presidenciais, em meio a uma das piores crises políticas da história moderna brasileira. As falhas das plataformas muito provavelmente serão exploradas como ferramentas eleitorais contra eleitores — sendo usadas para espalhar conteúdo enganoso, desinformações e difamações. Compreender e compartilhar o conteúdo dos vazamentos pode resultar em uma ‘proteção’ para eleitores não caírem em tais armadilhas.

Já para a imprensa, sobretudo a independente, é necessário não só reconhecer, como apreciar, o trabalho de Laís Martins e toda a equipe do Núcleo Jornalismo. É um marco para a mídia brasileira — normalmente concentrada em grandes empresas de poucas famílias — ter uma mídia independente atuando em uma investigação internacional tão crucial para os tempos atuais.


conheça o trabalho de Laís Martins clicando aqui.
leia as reportagens do Núcleo Jornalismo sobre o #FacebookPapers clicando aqui.



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