Uma ave bailarina


Ao passo que os fogos se afirmavam no firmamento, uma ave dançava um balé sem direção definitiva. De repente, sem nenhum passo atípico, tal animal fugiu sob meus olhos. Assim, feito uma ave bailarina rasgando caminhos improvisados entre explosões coloridas, o ano se anunciava independente, livre dos desígnios de domínio dos Sapiens.


Dia 31 de dezembro de 2021. Sob uma chuva insistente, parti em direção à praia de Copacabana. Em falta de uma camisa branca, como convém vestir para oferecer uma outra chance à paz, vesti uma amarela. No meio do caminho, visualizei algumas figuras vestidas todas de preto. Quanta coragem.

Daqui a anos, talvez décadas, pretendo ser tão corajoso quanto os Homens de Preto perambulando pelas viradas. Quem sabe ser um deles. Lembrei-me dos versos cantados pela voz cansada de Johnny Cash justificando o uso constante das vestimentas pretas: “E eu me visto pelos milhares que morreram / Acreditando que o Senhor estava ao lado deles / Eu visto pelas outras centenas de milhares que morreram / Acreditando que todos nós estávamos ao lado delas”. Vesti-me de amarelo para escapar do preto.

Posicionado mascarado na areia, em uma clareira quase vazia no meio da multidão, ouvia as músicas selecionadas pelo DJ MAM. Pouco antes do horário aguardado, tocou Apesar de você, escrito por Chico Buarque durante os anos sombrios da ditadura civil-militar imposta em 1964. Como uma peça artística poderosíssima, a música adquire cada vez mais potência durante a marcha amnésica da História. Que a voz de Chico na canção — convicta, jovial, na fronteira entre o deboche e a vingança — energize outra vez o coração dos brasileiros, confiantes no florescimento do jardim, no raiar do dia. Que o grito contido junto do samba no escuro ecoem como raios em uma manhã barulhenta, luminosa, inundada de vida.

A chuva recuou misteriosamente. Meia-noite. 2022. Os fogos, após um ano ausentes, pareceram-me um atestado improvável de sobrevivência coletiva. Como se os humanos, cientes da condição precária em que vivem, sentissem-se no dever de afirmar aos deuses silenciosos as capacidades espetaculares da espécie. Uma profusão enebriante de cores intensas, de sons altíssimos, de explosões pacíficas. Erámos sobreviventes de uma pandemia somada a um desgoverno. Estávamos vivos.

Ao passo que os fogos se afirmavam no firmamento, uma ave dançava um balé sem direção definitiva. De repente, sem nenhum movimento atípico, o animal fugiu da captura dos olhos. Assim, feito uma ave bailarina rasgando caminhos improvisados entre explosões coloridas, o ano se anunciava independente, livre dos desígnios de domínio dos Sapiens. Logo abaixo, na areia, uma mulher era fotografada ou gravada uma infinitude de vezes por um homem, espetacularizando o que já era concebido feito espetáculo. Entre o céu e o chão, a tela.

Retornei mais ou menos uma hora depois dos fogos. Assim como se retirou sem solicitar, a chuva retornou a despencar fina. As águas novas de janeiro, de um ano novo, brotando sobre as flores mortas há séculos pelo asfalto cinza. Distraído pelo retorno, esqueci-me de atentar para o destino dos Homens de Preto.

Entrando na garagem do prédio sedento por deitar despreocupado na cama, tênis carregados de areia, vi uma família de negros largados sob a marquise. Que, enquanto sociedade, coloquemo-nos a construir um país justo para todos. Após 200 anos, o grito de independência ainda se manifesta feito um murmúrio estrangeiro para milhões de tupiniquins.


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