O ano de 2021 foi péssimo para Julian Assange, mas não para por aí. Foi um ano ruim para jornalistas em todo o mundo, um ano ruim para a liberdade de imprensa e um ano ruim para a transparência e responsabilização de governos.

Em uma amarga e irônica reviravolta, o tribunal de Londres basicamente abriu o caminho para a acusação de Assange no Dia dos Direitos Humanos — de todos os dias, tinha que ser exclusivamente esse. E como é irônico que tenha acontecido no dia em que dois jornalistas foram homenageados com o Prêmio Nobel da Paz em Oslo. Por último, mas não menos importante, coincidiu com o segundo dia da Cúpula sobre Democracia organizada pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.

Pouco antes da cúpula, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, enfatizou o “papel indispensável” da mídia quando se trata de informar o público e responsabilizar os governos. “Os Estados Unidos continuarão a apoiar o trabalho corajoso e necessário de jornalistas em todo o mundo”, disse. Como essa afirmação pode ser reconciliada com a perseguição ao fundador do WikiLeaks e prisão de até 175 anos de prisão por espionagem e por publicar documentos secretos sobre as guerras no Iraque e no Afeganistão, ninguém sabe.

Estamos fartos de saber. Esses documentos provaram por A mais B que os EUA cometeram crimes de guerra. No entanto, até agora, ninguém foi responsabilizado. E em vez disso, uma vingança foi desencadeada contra o mensageiro a quem o mundo deve essas revelações.

Pinochet em uma vila, Assange na prisão

A equipe de defesa de Assange já entrou com apelação do veredito e o caso irá se prolongar até meados de fevereiro de 2022. Mas Assange não deveria ter que suportar os procedimentos posteriores sentado em uma cela de prisão. Ele deve ser libertado imediatamente e colocado em prisão domiciliar. Em outros casos, o sistema jurídico britânico fez exatamente isso. O exemplo mais proeminente é o caso do ex-ditador chileno Augusto Pinochet — homem responsável pelas execuções de milhares de oponentes do regime ditatorial. Quando a Espanha exigiu sua extradição no final da década de 1990, ele foi autorizado a passar os 16 meses do processo desfrutando do conforto de uma vila pelos arredores do sul de Londres — até ser libertado.

Ouvimos constantemente como as democracias ocidentais estão competindo com os sistemas autocráticos. Se Biden realmente se preocupa com liberdade de imprensa, ele deve se esforçar para ser melhor que alguns ditadores pelo mundo. Os EUA devem acabar com sua perseguição a Assange. É uma mancha em democracias pelo mundo.