A Hora e a Vez do Negacionismo


No início da pandemia, denominamos de “negacionista” quem recusava-se a admitir os fatos sobre o coronavírus. Mas os acusadores agora comportam-se como os acusados – e a verdade continua difícil de confessar.


I. 

Eu sempre fui um repositório de segredos – meus, claro, mas principalmente dos outros. Desde muito jovem o fenômeno parecia se repetir nos meus relacionamentos – pessoas com muitos segredos, ou com segredos particularmente chocantes, os confessavam a mim torrencialmente. Intimidades, segredos de família, crimes. Uma amiga de 13 anos estava dormindo com o pai casado de outra amiga. Outra conhecida, de 15 anos e de uma família absurdamente rica, me mostrou as caixas e caixas de lança-perfume que ela havia comprado para revender durante o carnaval. Ninguém mais do nosso círculo jamais soube da iniciativa empreendedora dela e como ela evoluiu com os anos. Cinco ou seis amigos (e ex-namorados) saíram do armário pela primeira vez em suas vidas – para mim. Maçons e outros tantos grupos secretos, tentativas de suicídio, a verdade sobre o dinheiro da família – por favor, estou falando só para você. Eu tinha 14 anos a primeira vez que uma jovem me confessou que iria fazer um aborto, e eu soube de muitos outros, muitas vezes eu como a única confidente. Um professor de colégio enquanto me ajudava a resolver um exercício de português em sua sala contou-me que tinha uma amante, caiu em prantos e depois me deu um beijo leve nos lábios. Às vezes o segredo era compartilhado por um grupo – jogos de asfixia, bulimia coletiva – mas o segredo não se dá com tanta exposição; ao contrário do fogo, o ar rouba-lhe força; é o sufoco que o mantém. Quando os segredos viraram moeda de troca durante a minha primeira incursão na “política” (no Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP), eu sabia de tantas mentiras dos meus colegas de partido que implodi. 

Por que essas pessoas eram atraídas a mim e eu a elas? Primeiramente, acho que porque nada me chocava, eu era um recipiente oco: recebia essas confissões sem quase nenhum julgamento. Porque, principalmente, minha intuição sobre mim mesma sempre foi de que eu sou irremediavelmente pecadora: crueldades desnecessárias, manipulações, pequenos furtos, meu corpo pichado com colas para provas que eu jamais precisaria usar. Ainda, eu que nasci com uma daquelas intuições aguçadas para saber quando alguém está mentindo, notei mesmo que todos nós mentimos na maioria das vezes por motivo nenhum, sem possibilidade nenhuma de ganho. Mentiras apenas nos escapam, como água vazando de copo rachado. 

Assim, muito cedo eu entendi que as minhas poucas qualidades seriam mesmo, e inevitavelmente, trançadas com alguma imoralidade qualquer. Eu sabia isso sobre mim e sabia isso sobre todo mundo também. Todos nós falhos, fracos, irracionais. Diga o que quiser sobre religião, mas nisso eles acertaram em cheio. Acertaram, também, quando apontaram para a necessidade de perdão.   

II. 

Há alguns meses eu fui visitar uma grande amiga, Letícia, que eu não via mais ou menos desde o início da pandemia. Nos conhecemos há 16 anos, fomos vizinhas do mesmo condomínio na adolescência e a nossa amizade se formou sob um ritual: nos encontrávamos, geralmente à noite, frente a um poste de luz específico na Avenida Perimetral do nosso condomínio, que havíamos concordado (após algumas brigas) ser o ponto mediano da distância entre nossas casas. Nós então caminhávamos em circum-ambulação pelas fronteiras muradas do nosso complexo residencial tão brasileiro quanto o samba, fumando cigarros de menta, bebendo alguma coisa que uma de nós havia roubado dos nossos pais e no fim nos lambuzando de um creme de cheiro de limão para disfarçar o fedor do tabaco. De fato, eu que já há muito parei de fumar, ainda hoje não me permitiria conversar com a minha amiga sem também segurar um pito incandescente, a luz e o calor amarelando meus dedos e iluminando o belo rosto pálido dela. Para mim, Letícia e cigarro vão juntos, e com eles, o melhor que sempre houve entre nós, uma conversa sem fim, deliciosa, livre, um dos maiores prazeres que eu já tive.

Foi sempre só a ela que eu confessava o lado negro do meu coração: minha arrogância, minha inveja quando um conhecido nosso publicou um bom romance e milhares de outros segredos, os meus atos imorais, as rejeições, os fracassos. Isso porque ela se entende como eu me entendo: como alguém absolutamente falha, fundamentalmente derrotada (nós duas abandonamos muitas faculdades e muitos empregos) e só com ela ser uma perdedora é uma medalha de honra, uma culminação da nossa preferência por uma vida erguida torta e sem fundação, mas por nós mesmas.

Visitei, então, a nova casa dela, a primeira que ela alugou sem os pais. Novamente em um condomínio, um bem perto da onde nós crescemos, mas dessa vez bem menor e desses contemporâneos com as casas conjugadas todas iguais. Agradou-me enormemente vê-la como ela sempre foi a mim: completamente desarrumada, um maço de cigarro nas mãos, desculpando-se pela sujeira da casa, pelo atraso. Hesitamos se deveríamos nos abraçar, mesmo as duas vacinadas, mas no fim eu me joguei contra o corpo dela, morta de solidão pela distância, pela quarentena, pela maternidade, sedenta, finalmente, pela minha melhor amiga.

Eu também estava ávida por outra coisa, a coisa que me fez dirigir uma hora e deixar minha filha e marido sozinhos num domingo ensolarado, que era falar e falar ao vivo com alguém que me conhece, alguém a quem nenhuma justificativa ou prelúdio seria jamais necessário.

Começamos falando sobre a minha filha, que ela mal pôde conhecer ainda, e sobre os muitos empregos e compromissos dela, sobre a insônia e a infelicidade. Tudo corria bem, ainda que com um pouco menos irreverente do que o nosso normal. Estamos desacostumados a conversar, eu pensei, e de fato minha língua parecia pesada, minhas ideias embaralhadas.

E então o que é agora, infelizmente, inevitável começou a acontecer: o assunto da pandemia começou a penetrar tudo o que queríamos dizer. Não era mais possível falar sobre nada sem também falar do vírus.

Tanto eu e ela levamos a ameaça da pandemia a sério antes do que a maioria das pessoas ao nosso redor: eu andei com minha máscara N95 na rua já em fevereiro, quando ainda nos diziam para não usar máscaras (lembram dessa?) e comprei online enormes quantidades de comidas enlatadas e remédios, tentando antecipar as necessidades da minha filha pequena, escrevendo até uma carta a ela, de despedida, caso eu viesse a falecer sozinha em algum leito. Letícia imediatamente levou seus dois pais idosos para o sítio da família e os guardou lá, sacrificando todo o seu tempo para cuidar e proteger (e impedir as saídas) dos dois.

Meu ‘Plano Corona’, fevereiro de 2020.

Eu e Letícia sempre fomos fundamentalmente alinhadas politicamente. Na nossa pequena cidade do interior do Vale do Paraíba, conservadora e arcaica, eu e ela sempre fomos o que hoje se chamaria de progressistas. Mas quando o covid começou a se disseminar na nossa conversa, meu estômago se contraiu. Será que para ela, minha melhor amiga, eu poderia dizer o que realmente penso? Não que eu pense nada absurdo, como vacina causa AIDS, ou que é só uma gripezinha, ou qualquer outra idiotice do Bozo, mas eu também há algum tempo percebi que o debate sobre a pandemia no Brasil nunca evoluiu para além do que sabíamos em fevereiro ou março de 2020, quando o pesadelo começou. Como eu morei muitos anos nos EUA, me formei lá, tive uma filha lá, acabo também consumindo mais notícias, e as vezes mais cultura, americanas do que brasileiras. E por lá, virologistas e jornalistas sérios falam, há meses, ainda que também sob uma censura pesada das redes sociais, coisas que simplesmente não chegaram, ou não são aprovadas, nas discussões aqui. Alguns exemplos:

  • As máscaras de pano que nos fizeram usar não nos colocaram em perigo ao dar um senso de segurança desproporcional ao seu desempenho?
  • Qual o custo benefício de forçar crianças a usarem máscaras quando elas não são capazes de fazer o uso correto?
  • Para quê passaporte de vacina se a enorme maioria dos brasileiros quer se vacinar? ou, para quê passaporte de vacina se aparentemente vacinados também transmitem o vírus?

Nenhuma dessas perguntas são aceitáveis entre nós. Em grande parte porque fazer essas perguntas imediatamente nos associa ao mal cheiro do bolsonarismo. O pânico que assola a mim e a todos que se opõe a essa figura odiosa, nós temos que admitir, tem contaminado também a nossa capacidade de conversar.

Frase revelando meu status vacinal, minha conformidade com os protocolos sanitários. Você a precisa ler para continuar o texto? Algumas ideias que me parecem dignas de debate eu me censuro de levantar. Até aquela tarde com a minha grande amiga, quando as fiz, e agora as levanto aqui, em público, com um certo nó no peito covarde: qual a justificativa para não quebrarem a patente das vacinas e isso não é um mal muito maior, proporcionalmente, do que culpar e humilhar quem não quer se vacinar? Porque é tabu discutir as reações adversas da vacina em jovens e crianças? Porque jornalistas sérios, íntegros, ainda chamam ivermectina de remédio de gado, quando todo mundo sabe que é um remédio usado em humanas há anos, ainda que sem comprovação contra o covid 19?

Por seis horas eu e Letícia falamos só sobre esse assunto, quase nenhum acordo. Aliás, nós que sempre fomos semelhantes, agora habitávamos dois mundos separados; quando eu mencionei que vários virologistas sérios hoje acham mais provável que o vírus tenha vindo do laboratório, ela ficou incrédula. Ela nunca, nunca havia lido nenhum artigo que aceitasse nem discutir essa possibilidade. Mas porque ela é minha amiga, e me conhece, e me ama, ela não me chamou de fascista por simplesmente ousar levantar a hipótese. E porque eu sou sua amiga, e a conheço, e a amo, eu não a chamei de anti-ciência quando ela inflou absurdamente os riscos de se contaminar pelo toque em produtos de supermercado. Por seis horas nós falamos, sem chegar em lugar algum. Quão pouco nós parecíamos saber sobre o assunto que domina as nossas vidas e nossos pensamentos há anos. Quão incapazes nos sentimos para analisar estatísticas, para fazer uma conta de custo-benefício, para, enfim, “seguir a ciência”.

O que nos ficou claro foi uma relação de proporção inversa entre o que nós acreditávamos saber (e a certeza com a que nós nos apegávamos a essas crenças); e sobre o que nós realmente conseguíamos debater com propriedade. Nós, por fim, concordamos que temos muitos motivos para desconfiar de praticamente todas instituições que nos regem. E que conversar, nos pareceu, foi um pouco assustador.

O cheiro do cigarro e uma certa agonia pairavam no ar. Eu me peguei repetindo toda hora, eu te amo, eu te amo, e suprimindo algumas perguntas que ainda me incomodavam, tentando não causar nenhum dano permanente à nossa relação. Eu falei, não é estranho que nós duas não estamos dando risadas hoje? Sim, sim, ela disse, acho que é o isolamento ou as redes sociais que nos fritaram os cérebros. E eu me colei à essas justificativas como quem reza um terço em silêncio, porque qualquer ruptura permanente no nosso ritual de conversar seria devastador.

A minha querida Letícia finalmente fez a única pergunta razoável da tarde: “Lu, meu deus, então em que podemos acreditar?”

III.

A pandemia nos entocou: o isolamento, claro, é solo fértil para a vida secreta. A reunião de zoom sem calças, as horas demasiadas mergulhados em séries, as garrafas de vinho, as redes sociais abertas em abas durante o trabalho. Suficientemente inocentes, as coisas típicas que confessamos online para angariar um ou outro like. Mas também brotaram outros segredos, desta vez não compartilhados online e sim os sussurrados que voam a mim: quem comprou caixas e caixas de máscaras online, mesmo quando o consenso era de preservá-las aos profissionais de saúde; quem acumulou alimentos e rolos de papel higiênico, mesmo quando o esvaziamentos das prateleiras em supermercados causava preocupação; a corrida pelo álcool em gel, a corrida pela informação de qual farmácia receberia entrega e em qual horário; quem conseguiu um médico para fazer receitas de testes e de remédios. No primeiro Natal de 2020, quando a recomendação era clara de manter-nos isolados das nossas famílias, alguns amigos abastados me contavam sobre como conseguiram achar (e pagar) pelos escassos testes laboratoriais. E também tramas mais elaboradas quando hospitais começaram a lotar, pois toda história de internação vinha com uma outra paralela: quem conseguiu leito porque conhecia o administrador do hospital, quem pagou médico particular e exclusivo para acompanhar uma internação, quem conseguiu um coquetel de remédios recomendado nos EUA mas não no Brasil. A pandemia parecia mesmo uma corrida de recursos, de vagas, de tratamentos experimentais, de informação. Quaisquer nossas preferências políticas, quaisquer nossas opiniões expressadas publicamente, a verdade é que todos nós entramos em uma competição secreta e silenciosa, não contra o vírus, mas contra um ao outro. Todos nós, agentes solitários e secretos, com protocolos e coquetéis formados por nossos próprios viés e preconceitos, certos da nossa própria moralidade, incertos de todo o resto. 

A chegada da vacina foi a reta final da maratona, os últimos 100m quando é insuportável ver adversários à sua frente e não impulsionar-se adiante. As primeiras semanas foram de burburinho, de vizinhos que não me olhavam nos olhos se eu perguntava se já tinham tomado vacina, até de tios quietos nos grupos de conversa. Quem sabia qual postinho seria abastecido durante a noite, quem sabia qual idade seria chamada na manhã seguinte, soprava a informação só para alguns. E quem os culpa? Filas gigantes brotavam em segundos, como bambu que rebenta aos céus, as senhas e doses eram esgotadas ainda mais rapidamente. Quando o boato chegou a mim que um pequeno postinho de Tremembé, São Paulo, possuía doses ainda não anunciadas, foi para a Letícia que eu liguei agoniada. Ela pulou no carro e dirigiu o pai por horas só para chegar e descobrir que a vacinação já havia acabado pelo dia, mas não antes sem fazer amizade com uma assistente de enfermagem que a passou um novo segredo, uma nova data, novas instruções sobre o momento ideal da madrugada para entrar na fila, quais papéis levar, quais frases usar para garantir a sua vez.

E mesmo com a promessa da vacina de reduzir complicações sérias e mortes nós não estávamos satisfeitos. Quem ousou ter uma opinião sobre sua preferência de vacina era um “sommelier”, mesmo quando outros países suspendiam ou deixavam de recomendar certas vacinas a certos grupos. Alguém me contou, com repulsa, que teve que “educar” sua empregada sobre o perigo dela se recusar a tomar a “vacina Dória”; momentos depois contou-me rindo da destreza de seu filho que conseguiu seguir um caminhão com doses da Pfizer até um postinho em São Paulo. Se esperávamos um espírito comunal que nos unisse durante um combate a uma pandemia sem precedentes, a verdade é nós mesmos optamos pelo seu oposto, pela politização e demonização uns dos outros. Nosso legado vai ser esse: que o discurso moralizante serviu para os outros, e o jeitinho Brasileiro para os seus. 

 IV. 

Foi assim:

Um governo obsceno avesso ao trabalho, uma esteira de matadouro de ministros da saúde, corrupção militar na compra de vacinas, vídeos amadores de deputados abrindo caixões – o confronto com um defunto a síntese perfeita de suas filosofias anti-vida. Esses vilões foram óbvios, monstruosos. O antídoto, liderado no Brasil principalmente pela grande imprensa, assumiu um lema que de início pareceu razoável: frente a ignorância pronunciada da figura odiosa que nos lidera, pareceu justificado assumir um discurso moralista que julgava os infiéis, os anti-ciência. A nossa vontade, o nosso dever moral, parecia ser de convencer e de combater quem negava a realidade das mortes diárias. Em grande parte, o discurso funcionou. A maioria de nós seguiu as regras porque, afinal, elas foram-nos apresentadas como um dever cívico: máscaras, isolamento e, finalmente, vacinas. Dava uma enorme aflição ver os apoiadores do Bolsonaro fazendo suas carreatas de jeeps bregas, mas no geral, na vida normal, a enorme maioria das pessoas parecia seguir os mesmos pronunciamentos, sempre apresentados como “consenso científico”.

Mas de supostamente justificado o discurso fez-se justiceiro. As grandes oligarquias que regem a vida online decidiram-se capazes de julgar em tempo real informações sobre políticas de saúde pública e, quem diria, mostraram-se mais incapazes que nossos governantes burocratas. Youtube e Twitter começaram a expurgar não só bots ou nazistas, mas cientistas absolutamente credenciados para falar vírus e vacinas. Não importava a credibilidade deles, nem a credibilidade dos dados que eles citavam, mesmo se fossem de órgãos governamentais. Qualquer comentário contrário à ortodoxia do momento poderia ser consagrado como “desinformação”. Máscaras de pano não são muito eficazes contra o vírus? Sabemos disso há mais de ano. Mas até 2 meses atrás, mencionar a frase no Youtube te ganharia uma ameaça de suspensão. Este era o teatro do absurdo: a ortodoxia mudava da noite para o dia e nossa obrigação era recitar novas regras mesmo se elas fossem opostas ao que pregamos ontem. Não use máscara, você está roubando dos profissionais de saúde! Use máscara, você é um vetor de doença que quer matar seus avós! Faça suas próprias máscaras com camisetas velhas! Seu idiota, obviamente essa máscára de pano não protege nada! Ivermectina é só um remédio de gado (mas também é um remédio usado em humanos bilhões de vezes e há anos!) Fique em casa! Mas vá para protestos senão você é fascista! 

E muitas delas nunca fizeram sentido. Investigar a verdadeira origem do vírus é racista? O que foi essa proclamação, recitada por quase toda a mídia mundial aparentemente da noite para o dia, se não uma manipulação dos nossos melhores impulsos e, pior, um ataque à nossa razão? E ainda, fique em casa e viva da rede capilar de entrega de comida, de supermercado, de compras online, como um sacrifício individual pelo bem comum? Mas não existem centenas, milhares de trabalhadores fazendo as entregas, enchendo os carrinhos, empacotando nossas compras? Cozinhando, plantando e produzindo? Os porteiros, as faxineiras, os garis, as babás, os motoristas de transporte público, todos eles arriscando-se pelas ruas para que a classe média e alta pudesse postar-se, em segurança, em suas pequenas reuniões, em seus pequenos apartamentos, postando, claro, em suas pequenas contas em redes sociais seus (longos) discursos sobre sacrifício e moralidade. “#FiqueEmCasa” uma conhecida postou, no mesmo dia em que me atirava mensagens curtas e velozes explicando como forjou um credenciamento de profissional de saúde que não lhe cabia para pular a fila da vacina.  

V.

Mas nós nos convencemos que estávamos do lado justo, afinal os opositores eram de uma facção política tão… idiota. O primeiro erro foi esse, não necessariamente vilanizar a doença (afinal, vírus pode possuir vilanismo?), mas quem assumiu-se cético, contrário e denominá-los “anti-ciência”. Ossificamos os piores atributos ignorantes e autoritários que, em outro cenário, talvez conseguíssemos identificar e combater. Pense neste tweet, que viralizou:  

Uma constante – e um enorme, enorme alívio – desta pandemia foi o quão seguras as crianças estavam naturalmente contra morte ou complicações sérias deste vírus. A ameaça às vidas dos nossos filhos que o tweet parece implicar é completamente histérica e injustificável. A asserção nega dados estatísticos, nega o “consenso científico”, nega, aliás, o fato básico de que submetemos nossos filhos diariamente a riscos enormes quando os transportamos em um carro, por exemplo. Empregamos esse tipo de cálculo risco-benefício a todo o momento em nossas vidas e nunca ele é tão explícito e levado tão a sério quando pais precisam tomar decisões sobre a saúde de seus filhos. Pais correm para o pediatra e para o hospital quando seus filhos adoecem, tomam decisões baseados nas recomendações, mas o que é sempre claro para qualquer pai ou mãe é que absolutamente ninguém sentirá maior peso que nós pelas escolhas que tomamos por eles.

Ainda, o que a asserção acima fundamentalmente está dizendo é que questionar a indústria farmacêutica e seus produtos é um ato tão imoral que um pai mereceria mesmo que seu filho morresse. A indústria farmacêutica? Vocês estão loucos?

Ainda tenho pesadelos de quando minha filha, com pouco mais de um ano, teve uma pequena queda, de centímetros e bateu a testa. Nós havíamos nos mudado dos EUA de volta ao Brasil há poucas semanas e ainda não havíamos achado um pediatra por aqui. Então eu liguei para a enfermeira pediátrica da Califórnia que nos havia acompanhado desde o parto e a relatei o acidente e as reações da minha filha. Ela me assegurou e recitou o protocolo americano para aquele tipo de batida: vocês conseguiram a acalmar em menos de 10 minutos? Sim. Ela vomitou? Não. Ok, mantenha-a em observação em casa, mas provavelmente tudo estará bem. 

Algumas horas depois, um hematoma roxo se formando na testa perfeita do meu bebê, eu delirei – literalmente, delirei – que ela havia vomitado. “Cadê o vômito?” meu marido preocupado perguntava, checando o lençol do berço onde eu dizia ter visto e não encontrando nada. Eu sinto o cheiro!, eu gritava, porque eu realmente sentia, do mesmo jeito que eu sinto cheiro de fogo queimando dez vezes por dia desde que tive um acidente com um fogão a gás. Assim eu nos convenci a ir a um hospital. 

A médica que nos atendeu não conseguiu fazer nenhum exame na nossa filha, que gritava loucamente. Mas ouvindo meu relato sobre um vômito recomendou uma tomografia. Depois de quase 10 horas de internação, nenhum exame feito e nenhuma outra avaliação médica, nossa filha estava completamente normal, tirando a enorme agonia de que não nos deixaram dar a ela comida ou mamar durante toda a espera. Meu marido finalmente ousou questionar uma enfermeira sobre a possibilidade de desistirmos da tomografia. Tudo bem, ela disse, mas nosso procedimento é notificar o conselho tutelar. 

Finalmente, no fim da noite, chegou a nossa vez para o exame. O médico anestesista, um homem gentil e pai de três meninos os quais ele me mostrou em dezenas de fotos no seu celular, sedou minha filha, que rolou os olhos para cima até perder a consciência. Eu urrei. “Não acredito que não te deixaram dar mamar” ele me disse, “Que exagero”. “Não sei porque te fizeram esperar por mim: dava para ter feito esse exame com ela cochilando.” 

O resultado da tomografia – que também só nos deram na manhã seguinte, após nos fazerem passar a noite no hospital, só eu e minha bebê apesar das tentativas do meu marido de se esconder no banheiro do quarto – foi completamente normal. A única consequência que ela teve foi um trauma enorme de médicos, que perdura até hoje, dois anos depois. Cada consulta pediátrica, cada vacina, e ela regride por um ou dois meses, se recusa a sair de casa, entra em pânico quando vê qualquer trabalhador de touca e máscara.  

VI.

É importante entendermos que convencer-nos a duvidar da nossa própria razão é agora uma estratégia política usada indiscriminadamente por toda grande mídia. É uma tática propositalmente cruel para manipular como nos sentimos e é particularmente fácil de usar quando o tema é saúde. Ou doença. 

Curioso como falamos pouco sobre doença ainda que estejamos em ameaça constante de seu ataque ubíquo e inarredável. Assumir a injustiça aleatória da doença viral poderia fazer-nos culpar a nós mesmos – procurando por algo que nós fizemos ou não para causar a infecção, ou para merecer a complicação da internação, o que seria insuportável para a maioria de nós. A vilania da pandemia desafiou um alvo certeiro. Por um lado, a pandemia, como acontece com a maioria das doenças, absolutamente teve causas humanas. Laboratório ou consumo, ambas hipóteses envolvem humanos. A globalização e circulação de pessoas produziram as condições para a rápida disseminação do vírus. O vírus também atingiu comunidades mais pobres e mais populosas com maior gravidade. Ele refletiu várias falhas de vários sistemas de saúde pública, nacionais e internacionais, e informações inadequadas sobre sua proliferação e risco levaram a mais mortes.

Por outro lado, doenças nascem mesmo nos corpos mais saudáveis e protegidos, ou são convidadas por nossos vícios e fragilidades, ou nos invadem sem qualquer justiça ou lógica. Pensaria-se, então, que o tema fosse discutido e considerado por nós com o mesmo afinco com que consideramos o amor, a vingança, a guerra. Mas muito rapidamente um doente percebe que seu primeiro mal vai ser enfrentar sua pena completamente só. 

No fim, acho que essa solidão que nos assusta mais do que tudo. Parte do motivo que muitos se apegam a essa “luta justa” virtual é que a realidade é tão contraditória que nos dá vertigem. Cientistas são heróis por criarem essa vacina em tempo recorde? Sim! Mas é provável que cientistas também tenham alterado e acidentalmente disseminado o vírus. Isolar um doente em casa pareceu a recomendação mais correta? Sim. Mas também descobrimos que a transmissão doméstica é o principal local onde a maioria das pessoas está se contaminando com covid. Nós deveríamos tomar a vacina? Eu acho que sim, para diminuir o risco de internação e morte, mas também é justo admitir que as vacinas não previnem transmissão para outros e é sóbrio considerar que todos nós, mesmo vacinados, ainda provavelmente teremos infecções leves.

Se todas essas contradições são possíveis, se enfim são conhecidas por nós, por que então o discurso moralizante, constante, a obsessão disseminada em manter-nos em um estado de pânico mesmo frente a boas notícias? Um incentivo monetário é óbvio aqui: a grande imprensa, sempre em risco de perder sua audiência, finalmente teve em mãos um assunto que nos cativou. É por isso que jornalistas sérios, muitos que ninguém jamais acusaria de “negacionismo” ou bolsonarismo, continuam eles mesmos disseminando informações incorretas sobre o perigo do aumento do número de casos de infecção sem o contexto essencial de que mortes continuam estáveis ou diminuindo, não só percentualmente como em números absolutos. As vacinas funcionam, mas agora temos o vírus do pânico para manter uma audiência. É uma estratégia velha, provada, que nos infecta contra a nossa vontade e que transmitimos a outros.

VII. 

Mas, de novo, quem nos culpa?

Nós todos fomos os acusadores frente a fogueira das bruxas, os dedo-duro, os filisteus, os informantes. Nós julgamos e condenamos não só quem se comportou errado – até porque todos nós nos comportamos errado em algum momento – mas principalmente quem ousou questionar qualquer aspecto da ortodoxia, mesmo quando o questionamento era rigorosamente científico. “Acredite na ciência” é um slogan ilógico, paradoxal. Pouco importa que a prática científica jamais convidaria para tal submissão, que o próprio método científico é um longo processo anarquista de questionamento da autoridade desta ou aquela ideia que pode ter sustentado o mundo como uma coluna grega sólida e perfeita, e mesmo assim pode vir a ser destruída por uma nova hipótese, uma nova descoberta, uma ideia vulcânica que reinventa como pensamos, construímos, vivemos. Ciência não é um destino, mas uma estrada, um processo de hipóteses e provas frágeis que só se sustenta por ataque constante às suas próprias premissas. 

Talvez o moralismo mascare outro impulso disseminado na nossa sociedade, o do niilismo. Se a vida não faz sentido, que importa restringir nossa existência a avatares sedados, monitorados, gamificados? O que me alivia é ver que a enorme maioria dos brasileiros tomou a vacina e voltou a viver, ainda que um pouco secretamente, ou com menos exibição online. Isso não é um mal.  

Se eu puder dissuadi-los de só uma ideia, é esta: parem de achar que tudo o que vocês fazem é um ato político que “vai influenciar outras pessoas”. Ninguém está nem aí para o que você faz. Nem pregar desinformação você consegue se ninguém te ouve. Minha dica: mantenha alguns segredos para si. Essa é a história que você vai contar: na pandemia, você seguiu as regras e também às vezes não; você tomou precauções vitais e também às vezes as ignorou para ver um parente, um amigo, para deixar seu filho brincar com uma criança num parquinho; você se convenceu e depois mudou de ideia, você re-calculou os custos a todo momento, você negou dados e inflou riscos, você se arrependeu. Eu não nos culpo.


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