Por trás dos vazamentos do Comitê Nacional do Partido Democrata em 2016

Em 2012, o cientista político Martin Gilens juntou cinco décadas de pesquisas de opinião pública e registros legislativos. Segundo ele, foi observado um padrão distinto: se você fosse pobre, ou mesmo de classe média, o que você pensa não tem praticamente nenhum impacto nas políticas que o governo promulga. Se você for rico, entretanto, já é outra história. “Se os ricos forem a favor, é muito mais provável que a política se transforme em lei”, escreveu ele. Alguns dos quase 20.000 emails do Comitê Nacional Democrata (DNC) divulgados pelo WikiLeaks em meados de julho de 2016 podem ajudar a explicar o porquê.

Além de expor que os — supostamente — democratas moderados do partido se esforçaram para minar a chapa de Bernie Sanders, concorrente de Clinton, os e-mails mostram um partido democrata onde a prática de pagar pelo acesso de doações de ‘caixa 2’ era bem-vinda. Isso ilustra uma cultura generalizada de contribuição financeira para ‘jogar’ no Partido Democrata, onde doadores ricos recebiam o acesso sem precedentes a funcionários do partido e legisladores com que os cidadãos comuns só podem sonhar, todos na esperança de que isso desbloqueie o acesso a seus fundos partidários.

Em alguns dos vários e-mails, funcionários do partido discutiam casualmente o uso de registros do FEC (Comissão Eleitoral Federal) “para pesquisar doadores existentes do DNC”. “É uma forma de avaliar quais dos nossos doadores têm maior capacidade de doação e nos dá perspectivas de atender a uma solicitação”, escreveu o gerente financeiro Matt Johnson.

Parte dessa confusão envolveu a venda de “pacotes de convenção” especiais para grandes doadores que prometiam regalias cada vez mais robustas. Quanto mais dinheiro eles doavam, mais recebiam.

À medida que os partidos dependem cada vez mais de doadores ricos para financiar praticamente tudo, desde suas campanhas eleitorais até as convenções de nomeação nos EUA, aqueles com os maiores talões de cheques acabam por ter mais visibilidade política e influência midiática. Não é surpreendente, então, que para muitos nos EUA, o Partido Democrata pareça fora da realidade não apenas com suas raízes, mas com sua história de defesa dos trabalhadores.

E a Rússia?

Manter a história nos noticiários sobre a interferência da Rússia nas eleições de 2016 e sem evidências é ver serem baseados apenas em artigos sobre pesquisas, opiniões de celebridades e sobre todos os escândalos tangencialmente relacionados, suas investigações e obstruções.

A maior parte do conteúdo dos artigos que iniciam com referência à “influência russa nas eleições” é sobre funcionários da Casa Branca tendo algum categoria de conexão com o governo russo, ou empresas russas, ou apenas russos. É como se uma investigação de alegações de armas de destruição em massa no Iraque se concentrasse nos crimes de guerra patrocinados pela Blackwater ou se a foto de Saddam Hussein e Donald Rumsfeld apertando as mãos foi tirada por um iraquiano.

A certeza que os liberais norte-americanos possuem de que a Rússia interferiu nas eleições dos EUA em 2016 — e em um conluio eleitoral entre Trump e a Rússia — é construída inteiramente sobre a maneira como a elite política diz em canais ‘oficiais’ que isso de fato aconteceu, replicando essa afirmação até que seu público presuma que deve haver alguma evidência sólida. Não há. São os mesmos que precisam de suporte midiático para apontar afirmações infundadas em um tom de voz confiante e tentando conectá-las a fatores inócuos, como empresários fazendo negócios com uma nação recém-capitalista nos anos 90.

No entanto, os vazamentos de DNC têm enormes e escancaradas lacunas no enredo na narrativa oficial do establishment midiático — tanto nos EUA como aqui no Brasil — sobre como foram publicados pelo WikiLeaks. 

As alegações sobre hackers foram o que desencadeou o jogo de culpa anti-Rússia (macartismo) que vivemos até hoje, mas os democratas sabiam que nunca poderiam varrer os problemas por debaixo do tapete simplesmente dizendo “os russos nos custaram a eleição dizendo a verdade ao povo americano!”. A elite política precisava de um novo jogo, que era onde toda a conversa sobre “notícias falsas” — o termo ‘fake news’ propagado por Hillary Clinton — e “propaganda russa” entrava.



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