No Brasil, é comum ouvir o discurso de que muitos cidadãos acordam 4 horas da manhã para trabalhar, pegam 4 ônibus para chegar ao trabalho e só voltam para casa de noite.

Em sua maioria, são pessoas que possuem famílias e além do trabalho externo, chegam em casa e ainda são soterradas por diversos afazeres domésticos, vindo a não ter momentos de lazer ou descanso, ficando o cansaço acumulado por 3 turnos seguidos (manhã, tarde e noite).

Aponta-se, ainda, que as mulheres normalmente são as mais prejudicadas, pois ainda existe a ideia de que o trabalho doméstico e o cuidado com os filhos e maridos é exclusivo da mulher. Segundo a Woman In The Workplace, muitas mulheres buscaram considerar reduzir suas jornadas ou retirarem-se definitivamente do mercado de trabalho durante a pandemia. 

Neste sentido, a busca em plataformas digitais do nome que se da ao esgotamento ocasionado pelo trabalho excessivo, conhecido por burnout, cresceu 122%, vindo as pessoas a quererem saber mais sobre sintomas decorrentes desse mal e suas causas. 

No Brasil, a jornada de trabalho limite é de 44 horas semanais, sendo um direito dos trabalhadores, por norma, receberem horas extras ou registrar banco de horas nos casos em que essas horas limites forem extrapoladas. 

Sabe-se, ainda, que muitos indivíduos trabalham dobrado por conta dos baixos salários, muitas vezes se dividindo em dois ou três empregos para conseguir sustentar minimamente a família. Em um país que o salário mínimo é de 1.210,44 reais, um botijão de gás custa em média 108 reais e a cesta básica em aproximadamente 700 reais, fica praticamente impossível equilibrar os gastos e o salário que se recebe. 

Frente a isso, observa-se um crescimento no tempo total de trabalho, diminuindo, assim, a possibilidade de lazer. Ainda, mesmo nos casos em que existe tempo para o lazer, não sobra dinheiro. 

No ano de 2021, o valor por hora trabalhada era de R$5,00 reais. Assim, segundo a Organização Para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil fica em segundo lugar no ranking dos menores salários mínimos da América do Sul e do mundo. 

Brasil ocupa o segundo pior lugar no ranking e o pior da América Latina. Gráfico: Revista O Sabiá

Com a perpetuação da carga horária e a romantização da produção em massa — bem como, o aumento do home office, onde ambiente de trabalho muitas vezes confunde-se com ambiente de descanso — cerca de 70% dos entrevistados pela Associação Brasileira do Sono afirmou dormir em média 6,23 horas diárias.

Além de aumentar sintomas como cansaço e fadiga, a falta de sono também pode diminuir a imunidade e aumentar os riscos de desenvolver pressão alta.Não só isso, com a baixa nas horas de descanso, o aumento dos problemas relacionados à saúde mental disparou. 

A partir deste ano, o burnout passa definitivamente a ser um fenômeno ligado ao trabalho. A Organização Mundial da Saúde destaca que o burnout é “uma síndrome resultante de um estresse crônico no trabalho que não foi administrado com êxito”, vindo a ser caracterizada pela:

  • Sensação de esgotamento;
  • Cinismo ou sentimentos negativos relacionados a seu trabalho;
  • Eficácia profissional reduzida.

Desta forma, vale a reflexão sobre a produção massificada derivada desse sistema em que vivemos, onde falar que está cansado é muitas vezes um sinônimo de preguiça ou ingratidão, vindo acompanhado do discurso: “mas fulano tem 3 empregos e ta super bem” ou “nossa, mas você tem sorte em estar trabalhando”A comparação torna-se uma arma onde aquele que não supera a exaustão sem reclamar é menos merecedor que aquele que aguenta jornadas excessivas de trabalho. 

Definitivamente, o brasileiro empregado tem sorte, mas isso apenas demonstra a fragilidade do sistema. Ter emprego não deveria ser considerado um luxo, mas sim algo mínimo, uma vez que o trabalho é vetor constitucional. 

De uma vez por todas, é necessário entender que seres humanos precisam de descanso, lazer, saúde, alimentação adequada. Que não almoçar durante o seu horário de trabalho ou pegar 5 ônibus para voltar para casa não é nada “bonito” e digno de exaltação, situações minimamente tristes onde os brasileiros são colocados para terem um mínimo existencial. 

Observa-se que há uma sustentação de que trabalhar com o que você gosta é menos cansativo, sendo uma afirmação totalmente equivocada, a qual visa novamente romantizar o trabalho. Muitas pessoas escolhem trabalhar com seus hobbies e acabam sem nenhuma motivação, pois aquilo se torna tão exaustivo, cheio de cobranças e comparações, que não há mais alegria em desenvolver a atividade.

Ainda, identifica-se que a meritocracia muitas vezes é base diante da romantização de jornadas excessivas, onde um merece trabalhar mais que o outro, diante da sua posição social. 

A meritocracia jamais poderia ser um justificativo na romantização do trabalho exaustivo, ou para qualquer coisa, ante o fato de que esta demonstra-se uma falácia capitalista. Com isso, busca-se uma reflexão: descanso e lazer são sinônimos de ingratidão?


Referências: SALÁRIO MINIMO DO BRASIL É MENOR QUE O DA BOLÍVIA E PARAGUAI. 2021; BUSCAS PELO TERMO BURNOUT NA INTERNET TEM AUMENTO DE 122 DURANTE A PANDEMIA;  ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO SONO. REVISTA DO SONO. ED 27. ; WOMAN IN WORKPLACE. 2021.