Meu aniversário sempre foi o meu dia favorito. Quando fiz 11 anos e mudei para uma escola nova, maior e diferente, ganhei tantos presentes, que me fizeram sentir a pessoa mais importante do mundo. Entre eles tinha um elefante de bolinhas de isopor.

Eu tinha recém decidido que elefante era meu animal favorito – só pra imitar minha prima mais velha – e eu, obviamente, tinha contado pra todo mundo sobre o meu amor por eles. Pelo favoritismo exposto por mim mesma, ganhei todas as coisas possíveis com tema de elefante, mas o melhor de todos sempre foi o elefante de bolinhas de isopor.

Engoli a vontade precoce de amadurecer e decidi dar um nome pra ele: Fante. Dormia todas as noites abraçada com ele, levei para viagens da escola, contei sobre o meu primeiro beijo, em como foi lindo, delicado e romântico como todos os filmes falavam.

Foi com ele que chorei minha primeira decepção amorosa, minha reprovação do segundo ano do ensino médio, minhas brigas infinitas com meu irmão que sempre jurei que seriam para sempre… E Fante sempre esteve ali, inteiro, do meu lado, perfeito e amigo como sempre foi.

Conforme o tempo foi passando, as bolinhas de isopor que o preenchiam foram murchando e murchando cada vez mais, fazendo ele ficar mais molenga e com uma leve sensação de envelhecer junto a mim. Mesmo velho e mais sujo a cada dia que passava, eu nunca cogitei me livrar dele. Nos anos que o meu Fante passou ao meu lado eu sobrevivi a muitas dores e delícias. Admito que, querendo ou não, foram mais dores nessa caminhada. E ele sempre esteve ali intacto, pronto pra me consolar e abraçar enquanto adormecia.

Há dois anos te conheci, a forma mais inesperada e intensa que foi formada pra se conhecer alguém. Eu fiquei encantada a cada passo que caminhávamos juntos, e dividia com ele tudo que acontecia. Abraçava forte, com todo amor que explodia meu coração enquanto pensava em você.

Te adoeci no final, não por maldade, não propositalmente, mas acredito que pela intensidade que nos sempre foi presente e nunca soubemos lidar.

No dia que te vi entrando no carro direto para o hospital e chorei na calçada desesperada, cheguei em casa e olhei pro Fante.

Pela primeira vez em quase uma década, ele não tava mais perfeito, faltava um olho que no dia anterior estava ali.

Hoje no silêncio e raiva que há entre nós dois e aqueles que nos cercavam, olho pra ele e percebo que naquela terça feira quando voltei pra casa, chorando carregada pelo meu pai, meu fiel escudeiro já me dizia que eu tinha perdido uma parte de mim. E que era pra sempre.

Sabiá

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