Pouco se fala sobre quando pediram para “eliminar” Julian Assange — mesmo que os EUA tenham de violar o direito internacional, certo? Enquanto outros, de Daniel Ellsberg ao próprio Assange, pensam que ele está, segundo Ellsberg, “em perigo”. Não tenhamos dúvidas de que Assange está em perigo, especialmente agora após completar 1000 dias na prisão de segurança máxima de Belmarsh. Pensar o contrário é um erro que reflete um mal-entendido colossal sobre a natureza do WikiLeaks e a subcultura da qual surgiu.

O WikiLeaks não é a criação única de um gênio solitário; é o produto de décadas de trabalho colaborativo de pessoas engajadas em causas políticas na aplicação de hacking de computadores, em particular, ao princípio de que a acumulação de informações é prejudicial para a sociedade. Clusters do hacktivismo acreditam no clássico lema que Stewart Brand disse em 1984, “a informação quer ser livre”. Hoje há um amplo espectro de pessoas engajadas nessa causa, de modo que, se Assange fosse ‘eliminado’ hoje, o WikiLeaks sem dúvida continuaria, e mesmo que o WikiLeaks fosse de alguma forma eliminado, novas plataformas iriam surgir para substituí-lo.

Dito isso, é importante compreender que o hacktivismo foi estendido à ação política contra todos os tipos de estruturas de poder. Um dos primeiros exemplos é o Hong Kong Blondes — um grupo que interrompeu redes de computadores na China na década de 90 para que as pessoas pudessem ter acesso a sites bloqueados. O Hong Kong Blondes, no que lhe concerne, foram auxiliados por um grupo de hackers baseado no Texas chamado Culto da Vaca Morta (Cult of The Dead Cow — cDc), que os ajudou com tecnologia de criptografia avançada. Em 2006, o cDc posteriormente empreendeu uma campanha de relações-públicas contra o Google (chamando-o Goolag) quando o Google cedeu às demandas da censura chinesa. Seu slogan: “Goolag: Exportando censura, uma pesquisa de cada vez.”

Exemplos de hacktivismo por outros grupos incluem usuários do site turbulento, transgressivo e escatológico 4Chan, onde a maioria do movimento Anonymous costumava frequentar. A época foi marcante no movimento após receberem atenção mundial depois da tentativa de censura pela Igreja de Cientologia. O contra-ataque foi simples: usando uma série de ataques de negação de serviço contra seus sites.

O Anonymous também agiu contra o governo iraniano durante as eleições de 2009, quando estabeleceu um site que compartilhava informações de dentro do IP das redes do Irã e aconselhou ativistas iranianos sobre como criptografar e transmitir comunicações com segurança. Outro exemplo notável é um grupo de hackers portugueses chamado Urban Ka0s, que protestou contra o tratamento dado pelo governo indonésio a Timor-Leste, hackeando sites do governo indonésio na década de noventa e postando páginas alternativas que protestavam contra as políticas do governo. A bússola política desses grupos hacktivistas nunca apontou a verdadeira direita ou a verdadeira esquerda — pelo menos por nossa maneira típica de mapear o cenário político. 

Eles foram consistentemente unificados em sua adesão aos princípios básicos do hacker, conforme descritos por Levy e The Mentor na década de 1980: as informações não devem ser acumuladas por monopólios de poder político — elas precisam ser colocadas nas mãos do público em geral. Esse princípio é seguido até o ponto de ameaçar se tornar uma “consistência tola” — como nos vazamentos de documentos do WikiLeaks, que atraiu a repreensão de cinco organizações de direitos humanos, incluindo a Anistia Internacional, porque, segundo eles, fontes civis não eram adequadamente protegidos. 

A mídia tradicional, os governos e suas organizações de segurança simplesmente não conseguem se desvencilhar da ideia de que deve haver um único cérebro por trás de uma operação como o WikiLeaks. Embora esse modelo funcione muito bem em dramas de ficção, ele não rastreia o que realmente está acontecendo. Esta não é uma operação de um homem ou mesmo de um grupo. É uma rede de milhares motivada por uma cultura e ética hacktivistas compartilhadas. E com ou sem Assange, isso não vai embora.



mais em ativismo:

Sabiá

Somos uma publicação digital e independente lançada em 15 de julho de 2020 por um grupo de jovens brasileiros que querem democratizar o acesso à informação no Brasil. Nossa redação funciona remotamente e sem financiamento ou fins lucrativos, com mais de 40 integrantes e colaboradores.