Riqueza, fama e glória: qual o preço a pagar?

A Coreia do Sul têm se mostrado um país de reputação exemplar e com alta taxa de desenvolvimento. A partir de 1970, começou a se desenvolver e aumentou seu PIB em 9,1% ao ano entre os anos 1980 e 1993.

São a 4.ª potência econômica asiática e 14.ª potência econômica mundial, são donos de empresas como a Samsung, Hyndai, LG, Kia, SK, dentre muitas outras e sua indústria de entretenimento vem crescendo estrondosamente com o K-pop, doramas, reality shows e produtos relacionados a estes, seu poder econômico é tão grande que são chamados de “Tigres Asiáticos” — aliás, de acordo com o horóscopo coreano estamos no ano do tigre, Feliz Ano do Tigre!

Com todo esse poderio, riqueza e fama, a Coreia do Sul também se torna campeã em um assunto bem desagradável e que se tornou problema de saúde pública. Um comunicado do Ministério da Saúde e Bem-Estar coreano no ano passado revelou que o país tem a maior taxa de suicídio entre os países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Todo o sistema de trabalho e estudo pode ser um dos responsáveis pelo decaimento da qualidade da saúde mental da população. Desde pequenos, coreanos são pressionados para possuírem uma carreira promissora. A jornada de estudo de um estudante coreano muitas vezes ultrapassa catorze horas por dia, de maneira integral, ou seja, o dia inteiro na escola regular e a noite participando de cursinhos ou estudando por conta própria para os vestibulares — além disso, muitos optam também pelos cursos de idiomas, principalmente de inglês, sem contar os deveres de casa passados pelos professores da escola regular.

Todo esse esforço é somado e evidenciado quando suas notas são entregues, sua colocação em relação à escola é divulgada para todos verem e se ele não possuir uma boa colocação além de escutarem reclamações dos pais, são postos de castigos, isso se não levarem umas bofetadas. Esse grande investimento é proposto e seguido à risca para que os jovens possam entrar nas SKY, as melhores e mais concorridas faculdades da Coreia do Sul, localizadas ma capital, Seul: Universidade Nacional de Seul, Universidade da Coreia e Universidade Yonsei, sendo a primeira pública e as demais privadas.

Muitos doramas retratam personagens que seguem esse padrão de estudos, como Sky Castle e Replay 1988, ou Answer me 1988, são dramas que se passam em épocas diferentes, mas que mostram a dureza e rigidez do sistema de estudo coreano.

Em Sky Castle, são famílias ricas que cobram incessantemente notas boas de seus filhos e recorrem até medidas extremas e absurdas para que essa rotina de estudos não seja interrompida. Já em Replay 1988, é mostrado que esse regime é bastante velho existindo já nessa época, exibindo sutilmente a rotina de um grupo de amigos e um pouco da sua juventude, dentre os aspectos da vida deles, mostra-os indo para as salas de estudos, salas essas sendo habitadas frequentemente a noite, já que durante o dia eles frequentam as escolas regulares.

Outro aspecto que pode ser considerado ameaçador seria o estrito padrão de beleza coreano, muitos sofrem bullying na escola e, devido a isso, são excluídas no trabalho ou até são “rejeitadas” pelos familiares por não se encaixarem no padrão imposto pela sociedade coreana. É necessário ressaltar que como todo padrão de beleza posto por qualquer país o padrão da Coreia é absurdo: pele clara a ponto de ser pálida, rosto fino e pequeno, magreza extrema, olhos grandes com a chamada pálpebra dupla, lábios pequenos, medidas e características padronizadas que leva muitas pessoas a fazerem cirurgias para “reformar” principalmente o rosto.

Para os coreanos, a aparência é um dos fatores principais para se conseguir emprego — muitas vezes até mais importância que qualquer outra coisa. Essa realidade pode ser conferida no drama True Beauty onde a personagem Im Ju Gyeong sofre bullying em sua antiga escola por ser “feia”.

Com isso, podemos adentrar no mundo do K-pop e entretenimento, já que este se torna um fator crucial para as pessoas que almejam serem idols ou ídolos, muitos trainees passam por cirurgias estéticas, rotinas de skincare que embranquecem o rosto e até dietas malucas para alcançarem o padrão imposto. Um dos casos que mais chocou os fãs foi quando a integrante japonesa Momo, do grupo Twice, revelou que passou sete dias sem comer direito, apenas cubos de gelo, e se exercitando para perder sete kg antes de debutar, essa meta foi exigida pela empresa JYP, caso contrário ela seria penalizada.

Nem todos conseguem sobreviver e aguentar toda essa pressão. Em 2017, o integrante do grupo SHINee, Jonghyun, sofria de depressão e se suicidou, deixando uma carta explicando seus sentimentos e o quanto estava abalado emocionalmente. Jonghyun sofria ataques de críticos que questionavam incessantemente seu talento e aparência física — sendo desprezado por não fazer parte do padrão de beleza anteriormente mencionado.

Dois anos depois, Sulli, atriz e ex-integrante do grupo f(x), também se suicidou. Ela se considerava feminista publicamente — o que ainda é considerado um tópico controverso no país, devido ao conservadorismo — e sofria com vários comentários maldosos. Ela também foi muito criticada por namorar o rapper Choiza, catorze anos mais velho que ela, e boatos de que havia engravidado e abortado durante o relacionamento, além de ter protagonizado cenas de sexo explícito no filme Real, com o ator Kim Soohyun. Desde o momento que decidiu sair do f(x), sua agência SM declarou que seria devido seu cansaço mental e físico por causa dos comentários maldosos destinada à idol.

Em Seul, a ponte Mapo se tornou sinônimo de tristeza e morte — foram relatados 108 suicídios nesses últimos cinco anos. Visando diminuir, combater e tocar os cidadãos que pensam em praticar tal ação, a Seguro Samsung transformou ela em “Ponte da Vida”, a iniciativa se propôs a espalhar pela ponte frases inspiradoras pensadas por psicólogos a ativistas da causa e sensores que acendem a medida onde indivíduos passam pela ponte. Essa ação diminuiu 85% dos suicídios e se mostrou muito significativa. A ponte e suas mensagens motivacionais foram exibidas no dorama W — Dois Mundos, quando o personagem Kang Cheol pensa em se suicidar.

É lamentável que um país tão desenvolvido, cheio de riqueza e incentivo à cultura ainda cultive bastidores tristes e desumanos não sabendo lidar com questões de saúde mental e psicológica. Criar cidadãos robotizados e preparados para o mercado apenas de modo econômico não o fortalecendo em suas questões sentimentais e pessoais é um erro que diversos países, não só a Coreia do Sul, comete.

Nossa sociedade, incluindo a coreana, é feita de seres humanos que são mais que carne e osso — são sentimentos e sensações. Cuidar da nossa “cabeça” é cuidar do combustível principal para o nosso sucesso individual e coletivo. Porém, é muito bom saber que empresas e artistas se sensibilizem com a causa e tente mudar essa realidade da sociedade coreana. Que neste novo ano essa questão seja mais desenvolvida e trabalhada.


mais da Coreia:



TEM UMA PAUTA?
ESTAMOS AQUI!

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser anônimo, tá?


Em destaque

RECENTES

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos, que busca usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança no futuro das novas gerações.