Sérgio Moro: as repetições da história como tragédia e farsa

A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. Não poderia começar um texto tratando sobre a candidatura de Sérgio Moro com uma frase melhor do que a citada por Marx no livro “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, onde analisa o momento em que Luís Bonaparte, sobrinho de Napoleão e então presidente da república francesa, dá um autogolpe e se instaura como Imperador dos franceses, repetindo os passos trilhados pelo tio. Se o Imperador, Napoleão I, foi a tragédia, Luís, que se tornou Napoleão III, foi a farsa. Não é difícil traçar paralelos com o ex-juiz Sérgio Moro.

Falar sobre a trajetória repleta de fraudes cometidas por Sérgio Moro enquanto juiz chega a ser repetitivo, o tema já foi tratado de diferentes formas milhares de vezes e começou há muitos anos. No início, a adesão era pequena e os defensores de sua parcialidade se tratavam de uma minoria absoluta. Com o tempo, todo incompetente mostra as caras de uma forma ou de outra. Se a atuação política já era clara nas eleições de 2018, o processo de tornar-se ministro de Bolsonaro escancarou para quem ainda duvidava. Ainda nem chegamos a Vaza-Jato.

Se sua trajetória como juiz já é conhecida e contestada em materiais produzidos por pessoas com muito mais conhecimento sobre o tema do que eu, falar sobre o Ministério da Justiça e Segurança Pública, pasta ocupada por Moro entre 1 de janeiro de 2019 e 24 de abril de 2020 pode ser mais esclarecedor sobre quem ele é e quais as contradições entre sua ação oficial na política e o que promete em sua corrida na disputa presidencial.

Muitos abraçaram a candidatura de Jair Bolsonaro pelo discurso anti-corrupção, e por um descontentamento — que pode até ser justo — com a realidade do país, atribuindo a culpa aos governos do Partido dos Trabalhadores (PT), mantendo um tom crítico e cético a Bolsonaro quando se tratavam das pautas mais extremistas do ex-deputado federal que defendeu historicamente ditadura, tortura e milicias. Não foi o caso de Sérgio Moro.

Em 16 de fevereiro de 2020, Rosângela Wolff Moro, esposa de Sérgio, defendeu em entrevista para o jornal Estadão a campanha de abstinência sexual como forma de combate a gravidez entre os mais jovens, elogiou a ministra Damares Alves, uma das mais extremistas do governo, e confirmou que Bolsonaro não havia realizado ‘loteamentos políticos’ e ‘toma lá dá cá’. Em meio a um cenário onde a imagem do governo já estava desgastada e Moro era visto como o nome de maior prestígio em pesquisas de opinião, Rosângela afirmou que não via o governo de maneira separada, Moro e Bolsonaro eram uma coisa só.

Concordo com Rosângela quanto a última afirmação. É difícil encontrar diferenças entre Jair e Sérgio que vão além do discurso. Quando no governo, até o momento em que Moro viu que não tinha nada a ganhar com o cargo — e sabia que salvar a pele do filho de Jair fazendo mudanças diretas no comando da Polícia Federal destruiria o pouco da credibilidade que ainda lhe restava — Moro se mostrava muito à vontade. Saiu porque não valia mais a pena para seu projeto pessoal.

Nos primeiros meses, já colecionava polêmicas, como sua defesa de Onyx Lorenzoni, réu confesso no crime de caixa dois, antes defendido como o pior tipo de corrupção pelo ex-juiz. As acusações envolvendo os crimes de rachadinha já haviam começado e Queiroz era figura mais do que conhecida por todos os brasileiros. Os 89 mil reais geravam dividendos na conta de Michele. Quanto a isso, Sérgio não demonstrou a mesma avidez contra a corrupção propagandeada pela imprensa quando o chamava Super Moro.

Com Moro no ministério, Bolsonaro já havia evocado a memória da ditadura militar para constranger o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, que teve o pai assassinado pelo regime, atacado a primeira-dama francesa Brigitte Macron infantilmente e torpe. O secretário da cultura nazista Roberto Alvim, admirador de Joseph Goebbels, havia entrado e saído do governo. O avião da Força Aérea Brasileira (FAB) com cocaína foi preso em Sevilha e o óleo inundava as praias do nordeste. A Amazônia? Em chamas. Nenhum posicionamento do super ministro da justiça e segurança pública.

No mais assustador dos casos, Sérgio Moro se envolveu diretamente: as acusações do porteiro do condomínio de Bolsonaro na Barra da Tijuca, que ligavam diretamente a família do presidente ao assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL). O porteiro foi intimado e sofreu pressão do governo, com responsabilidade direta de Moro. Nesse meio tempo, os filhos do presidente brincavam de invocar o Ato Institucional número 5, e atacar o Supremo Tribunal Federal (STF).

Quando deixou o governo, a pandemia de Covid-19 já estava começando e o projeto de sabotagem as medidas de combate a ela também: poucos dias antes, Luiz Henrique Mandetta fora demitido e a defesa da cloroquina já era programa oficial. Nenhum pronunciamento de Moro. Nem se tratando do combate à Covid-19, nem na reunião ministerial divulgada, quando Ricardo Salles sugeriu ser o momento ideal para se “passar a boiada” nas legislações ambientais e expandir o desmatamento e o garimpo ilegal, projeto que vem avançando desde o início do governo. Hoje, em campanha, Moro fala sobre a defesa ao meio-ambiente, ao mesmo tempo, em que busca o apoio do agro.

Sérgio Moro, quando não foi cúmplice, foi omisso. Esteve ao lado de Bolsonaro em todos os momentos e se aliou sem nenhum constrangimento aos projetos mais torpes da república. Em quase um ano e meio como ministro, seu principal projeto, a Lei Anti-Crime — que pelo nome, virou piada nas redes sociais, que caçoavam sobre como o crime acabaria, agora que havia sido proibido por Moro —, trazia diversos afrouxamentos de regras contra abuso de autoridade e criavam o ‘excludente de ilicitude’, uma licença para matar dada aos policiais, utilizando-se do argumento de que a pena pode ser revogada em caso do ‘excesso’ decorrente de ‘escusável medo, surpresa ou violenta emoção’, mais vago, impossível. Moro também pensou que uma boa medida para combater a criminalidade era pintar “Diga não a facção” nas paredes dos presídios.

Ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, e atual presidente da República, Jair Bolsonaro, em evento sobre o Pacote Anti-crime. Fotografia por Pedro Ladeira para Folhapress.

É importante frisar que o que levou a saída de Moro não foi mero senso ético brotado em sua cabeça de maneira tardia. Bolsonaro fez como faz frequentemente com seus subordinados e levou Sérgio Moro a sequentes humilhações públicas, tornando sua permanência insustentável — poucos tem o sangue de barata de Paulo Guedes e Mário Frias, ainda mais se tratando de um indivíduo com um ego visivelmente inflado. Em sua saída, Moro tentou derrubar o governo, levantando diversas acusações e mostrando mais uma vez que tinha dificuldade de compreender, após décadas como juiz, o que era uma prova concreta, mesmo com os indícios de crimes cometidos por Bolsonaro sendo mais que claros. Moro saiu porque não poderia mais ficar, porque a cada dia sua reputação ia pelos ares e a cada queda de braço que travava na política, saia derrotado e mais fraco, de Ministro mais admirado, se tornou pária, não servia mais nem como peça publicitária, ou como preferem chamar, fiador, sua real função desde o início.

A campanha presidencial 

Após um período muito lucrativo nos Estados Unidos, trabalhando na recuperação de empresas que prejudicou diretamente durante sua atuação como juiz, Moro se filiou ao Podemos e apareceu como um pré-candidato à disputa presidencial, com uma roupagem de defesa da justiça e contra os extremos — bastante contraditório pela trajetória que teve até aqui —, atacando tanto Bolsonaro como Lula, para o delírio da grande mídia.

Moro é mais um defensor do bastante conhecido — e vazio — discurso da responsabilidade fiscal, falou sobre acabar com a pobreza, mas não explicou como e prometeu mudar o famoso ‘tudo que está aí’. Ao que podemos ver, para Moro a política se resume a um suposto combate a corrupção, que resolveria automaticamente todos os outros problemas no país devido à abundância de recursos gerada.  Em seu discurso de filiação, declarou que “sonhava que o sistema político iria se corrigir após a Lava Jato, que a corrupção seria coisa do passado e que o interesse da população seria colocado em primeiro lugar. Isso não aconteceu”.

As semelhanças com Bolsonaro são incríveis, Moro até mesmo encontrou seu posto Ipiranga: Affonso Celso Pastore, economista que presidiu o Banco Central entre 1983 e 1985, quando o país ainda vivia sob uma ditadura militar e fez críticas ao programa de auxílio emergencial. Segundo ele, foi mais abrangente do que o necessário — talvez ele pense que nem todo mundo precisa comer. O perfil de ex-funcionário de uma ditadura se encaixa no que foi Paulo Guedes, que trabalhou no Chile de Pinochet após se formar em Chicago.

Moro justificou sua entrada no governo por ter  “esperança de dias melhores” e se ver no dever de “ajudar” o país, mas saiu por não ter encontrado apoio. “Quando vi meu trabalho boicotado e quando foi quebrada a promessa de que o governo combateria a corrupção, sem proteger quem quer que seja, continuar como ministro seria apenas uma farsa. Nunca renunciarei aos meus princípios e ao compromisso com o povo brasileiro. Nenhum cargo vale a sua alma”. Moro não explicou por que demorou tanto, já que a falta de interesse no combate à corrupção sempre foi evidente em Bolsonaro e seu governo.

Em todas suas aparições desde o evento de filiação abordou a necessidade de melhorar a educação, novamente sem explicar como, explicitou a necessidade de uma maior equiparação entre a educação pública e privada. No fim, nada foi explicado, nenhum assunto foi tratado com profundidade, nem em seu discurso de filiação, nem em suas entrevistas, nem em suas publicações nas redes sociais. Moro se torna piada sempre que tenta abordar algo relacionado a projetos de país, afinal, cai em contradição com frequência incrível, a mesma frequência com que comete atos falhos.

Sérgio Moro e o atual presidente da República, Jair Bolsonaro.

Sendo justo, não deve ser muito fácil fazer qualquer defesa de um país melhor sendo referenciado por sua atuação ao lado de Bolsonaro. Mas não podemos esquecer: foi escolha de Moro atuar politicamente, assim como foi escolha de Moro aceitar um cargo no governo, e é escolha de Moro continuar essa trajetória buscando o cargo de presidente da república.

Não consigo ver grandes perspectivas para o ex-juiz, pífio ao comunicar-se, não apresenta propostas e possui uma ampla rejeição, ocupando os corações de um pequeno setor da classe média do sul e sudeste, em especial da mídia. As elites econômicas devem embarcar ao lado de Moro, já que Bolsonaro se mostrou danoso a seus projetos pessoais com sua postura beligerante no cenário internacional. Moro vem para ser o Bolsonaro 2.0, um pouco mais polido e retraído, uma nova embalagem de um mesmo conteúdo.

Se os deuses estiverem me ouvindo, que tenham piedade de nós.



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