A encruzilhada do ciberativismo e o WikiLeaks

No dia 28 de novembro de 2010, cinco grandes jornais, incluindo The New York Times e The Guardian, publicaram simultaneamente os primeiros 220 dos 251.287 telegramas diplomáticos confidenciais dos EUA coletados pelo WikiLeaks. Muitas coisas mudaram desde então, incluindo nossa percepção do ciberativismo e de seu papel no jogo do ciber poder.

Aos olhos dos ciberativistas, o WikiLeaks era mais que apenas um  sistema de ‘dropbox’ online que acumulava documentos confidenciais vazados. Assim que a organização ficou sob pressão após a publicação dos telegramas dos EUA, e empresas como PayPal, Amazon e MasterCard começaram a retirar seus serviços, o WikiLeaks tornou-se o fetiche da liberdade de expressão na Internet e a mola propulsora de uma cruzada cibernética.

As pressões financeiras sobre o WikiLeaks estimularam a mobilização de centenas de pessoas não diretamente ligadas ao grupo central da organização. Essas pessoas forneceram suporte técnico à infraestrutura do WikiLeaks; passaram a espelhar o site — processo de cópia exata de um site, executando um servidor diferente — quando foi tirado do ar, contribuindo para a disseminação do conteúdo que a organização recebia; e mobilizados em apoio à organização, por exemplo, atacando — ou seja, derrubando, desfigurando, tornando temporariamente indisponíveis — os sites das empresas que tomaram medidas contra o site.

A rede mais famosa de apoiadores cibernéticos do WikiLeaks se vestia sob o manto do coletivo Anonymous. Olhando para o Anonymous hoje, e redes online semelhantes, acredito que a discussão sobre o legado do WikiLeaks e seu impacto no ciberativismo é inevitável.

Anonymous é um termo genérico que indica uma comunidade online cujos membros auto identificados se envolvem em atividades disruptivas usando técnicas de desobediência civil em apoio à liberdade de expressão online. A participação no grupo é informal e flutuante: entre seus membros estão ativistas experientes em tecnologia, mas também nativos digitais e internautas que acreditam no potencial da Internet para ação coletiva.

O Anonymous se originou em salas de bate-papo online focadas em brincadeiras politicamente incorretas. Como já falamos aqui, o maior ‘laboratório experimental’ para o grupo foi o 4Chan. O movimento mais tarde se transformou em um coletivo de hacktivistas politicamente engajados, mas manteve uma orientação para o “lulz” — um neologismo que deriva de LOL, “rindo alto” na tradução livre, e indica a diversão associada às brincadeiras. 

O Ciberativismo tomou forma

Os Anons são ativistas anônimos que se definiram como “guardiões da Internet” tempo depois do apoio ao WikiLeaks que os colocou sob os holofotes. Eles se tornaram tão visíveis e uma ameaça tão grande para as forças de segurança que o Anonymous foi citado no Relatório da Primavera da OTAN de 2011.

Os hacktivistas adotam táticas transgressoras e defensivas. Ocasionalmente, esses hacktivistas saem do ciberespaço: por exemplo, desde 2008, membros do Anonymous têm saído periodicamente às ruas usando máscaras de Guy Fawkes — as mesmas máscaras apareceram nos locais de protesto do movimento Ocupe Wall Street em todo o mundo. Há, no entanto, uma divisão fundamental entre os hacktivistas em relação às táticas legítimas, que em parte refletem diferentes atitudes em relação à chamada ética hacker de acesso e “melhoria” do mundo.

Certamente a popularidade do Anonymous e o apoio que a rede recebeu é consequência do grande número de pessoas com acesso à tecnologia e até certo grau de conhecimento técnico. Mas a visibilidade extraordinária que o hacktivismo adquiriu com o caso do WikiLeaks encorajou mais jovens que não se importam com as consequências a se juntarem à luta. 

O hacktivismo não é mais uma luta marginal de um bando de geeks, nem é mais atrelado ao estereótipo do terreno de hackers habilidosos em porões escuros. O que havia na década de 1990, performances cibernéticas esporádicas baseadas em células, nos dias de hoje são táticas centrais praticadas regularmente por redes descentralizadas de indivíduos que buscam intervir regularmente em lutas reais, onde seu suporte cibernético pode ser necessário.

Em meados de 2012, vimos em ação o Anonymous e o LulzSec como uma manifestação de um movimento coletivo que pode ser virtual, distribuído e individualizado. A Internet deixou de ser apenas uma ferramenta de trabalho em rede e de mobilização, mas tornou-se a principal plataforma de ação, recrutamento e identificação. Esse desenvolvimento certamente não é suficiente para afirmar que o ativismo está se movendo online. Mas nos diz que o ativismo não pode mais prescindir de um forte componente online — onde a internet não é apenas uma plataforma de networking e troca de informações ou um espelho de ações offline, mas o mesmo locus de ativismo, onde novas narrativas de participação e empoderamento, bem como novas identidades são criadas e reproduzidas.




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