Carta aberta de um esperançoso

Sempre achei interessante nossa relação com o Ano Novo. Para alguns é só mais um dia, e eu até poderia concordar se estivéssemos falando de qualquer um dos outros 364 dias do ano, mas esse em especial carrega um peso de passagem gigantesco; uma comemoração coletiva de mais uma volta de nosso planeta em torno do Sol carregada de afetos, misticismos e simbolismos, mas é — em simultâneo — uma celebração de sobrevivência, ainda mais nesse contexto contínuo de pandemia que se tornou uma trilogia. 

 A virada renova o querosene da lamparina que carrega a chama da esperança e é fundamental que a preservemos em momentos de total escuridão. Sei que isso parece clichê, mas por mais banalizada que essa palavra tenha sido nos últimos tempos me sinto na obrigação de relembrar sua importância para a sociedade e a luta pelo futuro a partir da compreensão do presente. A esperança é, de certa maneira, a chama que manteve a caldeira da humanidade acesa até hoje, movimentando as engrenagens da sociedade em prol de um futuro. Melhor ou pior? Cabe a nós definir.

Freire dizia que ninguém nasce desesperançoso, pelo contrário, mas são as condições dialéticas de vivência do indivíduo que o tornam propenso a perder a credibilidade naquilo que não enxerga mais possibilidade de mudança, ou seja, tem uma visão determinista e fatalista. Entretanto, tanto o determinismo, quanto o fatalismo, estão ligados com os interesses do capital na supressão de qualquer pensamento que possibilite sua substituição e modificação, são produtos de suas engrenagens de controle social. A banalização empurra o pensar do sujeito para a complacência.

Basta ver o novo ano, é impossível ser determinista em um cenário tão ambíguo envolvendo eleições, debates sociais e reconquista do espaço público, por exemplo. A incerteza atua como uma neblina que impede o sujeito de enxergar o que há pela frente, mas a esperança age tanto como a lamparina que espanta as sombras, como também de farol que auxilia a navegação para um destino digno. É exatamente nos cenários de maior fatalismo que precisamos nos munir de esperança, cada um provendo um pouco do querosene para manter a chama acesa; revezando quem carrega a lamparina e amparando o cansaço daqueles que compartilham as trincheiras dessa luta.

O bolsonarismo, fascismo verde e amarelo, é um parasita e no menor sinal de combate contra ele fará de tudo para se manter no ‘poder’, inclusive matar seu hospedeiro como a atual gestão vem fazendo corroendo as mais diversas instituições e órgãos de fiscalização, além dos apagões de dados. Bolsonaro e seus fanáticos – não há outro termo que possa definir quem ainda apoia esse regime – não possuem temor de aniquilar e morrer por sua ideologia. Esse ano será uma ofensiva constante e contínua de absurdos, preconceitos, negacionismo, ameaças, abusos, violência, corrupção, Fake News, desinformação e outras mais ferramentas que o fascismo parasitário usará para não desgarrar da teta que tanto ama mamar sem nada retornar a sociedade a qual deveria prestar contas.

A máquina do poder será usada para apagar (censurar) qualquer lamparina que ainda emita luz e, ao mesmo tempo, bloquear — através de cortinas de fumaça, sendo um artifício político de redirecionamento de atenção — ao máximo que qualquer raio de luz que saia do farol chegue a resistência e a continue guiando. O cansaço, tanto psíquico quanto físico, é uma das técnicas usadas pelo fascismo neoliberal para induzir o sujeito a um sentimento social de indiferentismo que leva ao cruzamento dos braços. Mas se entregar ao fatalismo e/ou ao determinismo significará abdicar de qualquer interesse em participar do processo coletivo de melhorar a realidade social. “Não há o que fazer” é o tipo de discurso acomodado que não se deve tolerar, como diria Freire.

Final do ano passado faleceu Desmond Tutu, arcebispo consagrado com o Prêmio Nobel da Paz em 1984 por sua luta contra o Apartheid em seu país natal. Uma de suas frases mais renomadas resume muito bem a importância do combate ao comodismo: “Se você fica neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor”. Após três anos vivendo diariamente injustiças sendo feitas por um dos piores governos que já ocupou a gestão do país é impossível se manter neutro, ou esboçar indiferença.

Antes de continuar gostaria de deixar uma fala de Freire em seu livro Pedagogia da Autonomia que reforça o valor da esperança:

Sei que as coisas podem até piorar, mas sei também que é possível intervir para melhorá-las. Gosto de ser homem, de ser gente, porque não está dado como certo, inequívoco, irrevogável que sou ou serei decente, que testemunharei sempre gestos puros, que sou e que serei justo, que respeitarei os outros, que não mentirei escondendo o seu valor porque a inveja de sua presença no mundo me incomoda e me enraivece. Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que a minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que o meu “destino” não é um dado, mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser gente porque a história em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades, e não de determinismo. Daí que insista tanto na problematização do futuro e recuse sua inexorabilidade.

Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia

Em suma, ter esperança também significa se manter firme como um sujeito social capaz de indagar, de comparar, de duvidar, de aferir, a curiosidade do desconhecido que o torna mais crítico. Evoluímos como sujeitos especialmente por conta da nossa capacidade de não nos acomodarmos, de estarmos em constante movimento, adaptação e consequentemente transformação. 

Há dias que não observo o brilho de algo melhor, mas amanhã vai ser outro dia, não é hora de cruzar os braços. Afinal, as qualidades ou virtudes são construídas por nós no esforço que impomos para diminuir a distância entre o que dizemos e o que fazemos. Eu não só acredito em um mundo melhor, como busco constantemente trazer consciência do nosso papel em torná-lo realidade. O mundo não é. O mundo está sendo. Feliz Novo Ano.



TEM UMA PAUTA?
ESTAMOS AQUI!

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser anônimo, tá?


Em destaque

RECENTES

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos, que busca usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança no futuro das novas gerações.