Folha, sustente sua opinião até o final


A Folha de São Paulo afirma defender uma liberdade de expressão irrestrita, mas censura críticos e jornalistas da redação.


A manchete principal do dia é: diretor de redação da Folha de São Paulo diz que protesto de 208 jornalistas da redação é um erro. Para qualquer pessoa que trabalhe na comunicação, o que está acontecendo no veículo é importante — e talvez até seja abordado em aulas de jornalismo no futuro.

No domingo, o veículo publicou um artigo do antropólogo Antonio Risério que argumentava sobre ‘racismo de negros contra brancos’. Em suma, o antropólogo argumentou que “ataques de negros contra asiáticos, brancos e judeus invalidam a tese de que não existe racismo negro em razão da opressão a que estão submetidos”. Além do óbvio, outro erro brutal e lógico do texto é utilizar meios de comunicação norte-americanos como comparativos — esquecendo de diferenças demográficas entre porcentagem total da população negra nos Estados Unidos e no Brasil, além de estatísticas sobre crimes, ações e violências motivadas pela raça, como a violência policial e crimes de ódio.

A indignação não só veio por parte do público, mas da própria redação. Ontem, quarta-feira, foi reportado que mais de duzentos jornalistas da redação assinaram uma carta aberta contra a decisão do veículo de publicar o artigo e buscar audiência vinda de polêmicas.

“Acreditamos que esse padrão seja nocivo. O racismo é um fato concreto da realidade brasileira, e a Folha contribui para a sua manutenção ao dar espaço e credibilidade a discursos que minimizam sua importância. Dessa forma, vai na contramão de esforços importantes para enfrentar o racismo institucional dentro do próprio jornal, como o programa de treinamento exclusivo para negros”, diz parte da carta.

Horas depois, veio uma resposta do jornal, que relembrou o fato da criação de uma editoria de diversidade e um treinamento exclusivo para pessoas negras. No entanto, a parte mais bizarra do texto não é a fala “gosto de negros, até os contrato”, mas a resposta do diretor da redação, Sérgio Dávila.

Dávila disse que o “abaixo-assinado erra, é parcial e faz acusações sem fundamento”, o que seriam três características indesejáveis para profissionais. O mesmo reafirma a importância de manifestações e abaixo-assinados, mas parece apenas reconhecer o papel de ambas quando não é algo fomentado pelas escolhas do conselho editorial do jornal.

O que mais incomoda em todo o texto é a fuga de responsabilidade. Folha, sustente seu argumento até o final.

Pessoalmente, conheço indivíduos, sobretudo norte-americanos, que possuem uma visão irrestrita da liberdade de expressão. Para eles, nenhum discurso deve ser censurado, até quando entra em casos de nazismo ou outros discursos de ódio — mas há um quê: eles não discutem que deve haver penalidade quando um passa dos limites da lei, e também não mudam seu discurso segundo a própria ideologia.

Qualquer um que argumenta a favor da liberdade de expressão irrestrita deve bancar o seu argumento até o final, e, na verdade, há indivíduos grandiosos e brilhantes que possuem essa visão, mas nunca dão para trás quando precisam defender sua posição, tampouco criam um drama complexo quando precisam defende-la: Edward Snowden, Julian Assange e Glenn Greenwald — mas compara-los com a Folha seria um desrespeito, a eles.

Há algo nessa visão um pouco distorcida da liberdade de expressão de liberais que particularmente me incomoda, porque a liberdade de expressão sempre aparenta existir quando um indivíduo quer o direito de falar e reproduzir falas enganosas, prejudiciais ou maldosas, mas a liberdade nunca existe quando esse indivíduo é responsabilizado. Não só isso, a liberdade de discurso na ótica liberal sempre é focada no eu — e no que a pessoa sente pessoalmente sobre aquilo, não sobre se o discurso é danoso para a sociedade.

Se houve a decisão editorial de publicar o artigo de Risério, certamente com consciência de que haveria indignação popular e interna, é mais que necessário que o veículo aceite a liberdade de manifestação de leitores e profissionais da redação.

Não só isso, argumentar que os profissionais que assinaram a carta são maus profissionais não só é um insulto para os jornalistas da redação — já que afinal, são eles que sustentam o conteúdo do jornal — mas para toda a categoria. O texto da Folha de São Paulo deixa a entender que qualquer jornalista que discorde do veículo é, portanto, um ‘mau’ jornalista.

Se o veículo acha tão importante ter artigos falando de ‘racismo anti-branco’ porque julga ser um tema importante, que então ele não censure a manifestação de mais de duzentos jornalistas da redação contra a publicação. Afinal, a liberdade de expressão vale para funcionários ou somente para o conselho editorial?



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