Saí da casa do meu tio e fui até a praia mais próxima olhar o mar. Enquanto as águas batiam no meu pé e o vento fazia minha blusa larga colar no corpo, vi um homem e uma criança. Não sei se eram pai e filha, irmãos ou qualquer outra coisa, mas me lembrou meu pai.

A forma que a menina ria e conversava sobre o que via tinha uma energia contagiante, o homem não a interrompeu em nenhum momento! Ele ouvia com atenção cada palavra que ela dizia, ria de cada palhaçada que faziam juntos. Ela parecia feliz, tranquila sendo quem é, naturalmente ela, naturalmente ele. O sentimento que transpareceram naquela rápida cena que eu observava distante me lembrou como meu pai me fazia sentir.

Meu pai me entende, me fortalece e me mostra que ser eu mesma é a forma mais bonita de se viver. Ele não faz isso com palavras de afirmação, nem muito com conselhos, meu pai me mostra, vivendo sua singularidade todos os dias, que ser verdadeiramente você é o maior tesouro que temos.

Seja nas caminhadas na rua para desestressar depois de uma briga matrimonial, ou ficando chateado quando não recebe o primeiro pedaço de bolo. Nas nossas brincadeiras, que continuam as mesmas há 20 anos, ou até mesmo na forma como a bochecha dele ainda treme sempre que está irritado. Ser quem é.

Ele é minha pessoa favorita do mundo por mil razões, mas a minha predileta é que ele é ele, da forma mais crua, natural e verdadeira.

O inexistente medo de se mostrar quem é, as vezes traz risadas pelas inúmeras histórias que ele tem para contar, mas quem vê de longe não entende realmente a beleza que existe em seu ser.

O brilho dele é infinito, as peculiaridades de sua personalidade são lindas. O charme, a graça, a inteligência, a transparência e a ingenuidade continuam ali, intactas!

Tudo o que com o tempo a vida, as pessoas, e os julgamentos nos fazem esconder, nele gritam. Gritam como a felicidade natural que o homem e a menina estavam vivendo na quase tarde de quarta-feira numa praia da Bahia. Gritam como o combustível que é poder ser verdadeiramente eu ao lado do meu pai.

Sabiá

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