Tributo a Maria Clara Aguiar


Homenagem coletiva prestada por integrantes e ex-integrantes desta equipe a nossa eterna chefe de reportagem, Maria Clara Aguiar.


Ariel Rocco

“Oie, meu bem!” 

É só eu te mandar essa mensagem e você está aí, sempre disponível. Pode ser para me ajudar, para desabafar, ou simplesmente para jogar conversa fora. Estamos sempre aqui, um procurando o outro. Nada importa. Eu mando figurinha para te chamar atenção, você me manda careta, e assim a gente sempre caminhou, sabendo, sem precisar ninguém dizer nada, o que o outro precisa.

Talvez você não se lembre, Maria, mas a primeira vez que a gente se falou foi simplesmente você, do nada, vindo reclamar de uma correção que fizeram de um texto seu. E eu te falei, na hora, que não concordava. Mas, ao mesmo tempo tempo, não tinha entendido nada. Como assim uma pessoa que eu nem sequer conheço veio falar comigo sobre correção de texto? Mas logo depois eu entendi. A gente iria se dar muito bem. Nos demos.

E nos demos muito bem. Desde o começo. Escrevemos muito juntos, sempre um puxando o outro, literalmente os Pirraças. E deu muito certo. Simplesmente cobrimos a paraolimpíadas com textos que — como pode? — não precisávamos mudar uma letra sequer. Você sempre foi especial. O seu jeito de escrever, sua sensibilidade, a forma como você, sem saber, conseguia expressar o mais complexo dos sentimentos. 

Você, garota, sempre conseguiu, com muita facilidade, entender os outros. Eu te ligava, não importava o motivo, e você já sabia como eu estava me sentindo. Eu não precisava chorar para você saber que eu estava triste, e não precisava sorrir para você saber que eu estava feliz. Mas uma coisa eu fiz questão de dizer para você, mil vezes, que é o quanto eu te amo.

E nossa mania de mandar mensagem um para o outro quando estamos bêbados, hein? Tem coisa mais gostosa do que receber uma mensagem de alguém que você gosta, simplesmente falando que lembrou de você? 

A gente mora longe. Mas isso nunca impediu de a gente conversar. Quantas ligações por vídeo não fizemos? Eu conheci seu apartamento sem nem ter ido pro Rio de Janeiro, e você conheceu meu cachorrinho, sempre falava dele.

Flamenguista né, Cá? Como era gostoso discutir com você sobre qualquer besteira, mas principalmente de esporte. Futebol, então? Como eu me divertia. Lembra que a gente tinha até pensado em fazer um podcast? Quanto a gente planejou junto. Tantos devaneios.  

A gente tinha conversado, você ia vir aqui, para São Paulo. Eu estava louco para te conhecer pessoalmente, ver se você era a baixinha chata mesmo. Mas, sabe o que eu queria mesmo te falar, quando eu te visse? Maria Clara sempre foi o meu nome preferido.

Eu queria ter seu talento para escrever palavras maravilhosas nesse momento, mas não tenho, desculpa. Também não consigo escrever no passado. Para mim, você está aqui, e sempre estará. 

Hoje, do jeito que eu estou me sentindo, eu te ligaria. Falaríamos por horas e horas juntos, e você me ajudaria a passar a tristeza. 

Eu te amo Maria Clara, e eu prometo que você nunca será esquecida, levaremos seu legado e eu, o tio Ariel, levará você pra sempre no coração.

Sofia Schurig

Quando te liguei para te convidar a ser chefe de reportagem, a revista passava por uma crise e pedi para que você acreditasse em mim, que eu sabia o que estava fazendo. Você riu, disse confiar em mim de olhos fechados, e sabia que iríamos mudar o mundo juntas. Durante tardes inteiras, semanas e meses, nós trabalhamos em projetos que foram a público e outros que conseguimos fazer o nosso papel, em privado. Sempre que havia uma história da qual eu via de uma forma muito pessimista, o que você sempre reclamava, você trazia uma perspectiva nova. 

A inscrição da Maria Clara na equipe sempre foi uma história engraçada entre nós, porque antes de sua entrada, haviam me dito que “ela não seria capaz”. Bati o pé e disse que eu decidia quem entraria ou não, e que tinha gostado de suas poesias e textos feministas, e fico feliz que fiz isso. Pouco tempo depois que ela entrou na equipe, seu primeiro texto, ainda como repórter, você me enviou uma mensagem dizendo que eu poderia negar a publicação se achasse muito polêmico. Era uma carta aberta para seu abusador. Depois de ler, sabia naquele exato momento que você é uma das pessoas mais corajosas que já encontrei — e logo disse isso para ela. 

Recentemente, você nos mostrou um lado seu novo, não só para a equipe; mas para todos nós como amigos. Você enviou suas crônicas para nós, com medo de que achássemos ruins — mas todos nós adoramos. Você conseguiu mostrar toda a sua sensibilidade diária, que você já nos mostrava em todos os contatos de carinho que tínhamos diariamente, somado a sua inteligência artística. O seu talento e a sua coragem, Maria Clara, pode não se comparar a nenhum de nós, por mais que você pudesse pensar o contrário. 

Como amiga, não poderia pedir mais do que você é. Você sempre reclamou que eu não mostrava emoções, principalmente por mensagens de texto, e sempre fiz questão de mandar áudios ou te ligar para você saber que eu não estava chateada. Um dia que estive muito triste por uma situação horrível de trabalho, tínhamos uma reunião geral com toda a equipe no fim do dia e você me enviou uma pizza de surpresa para a minha casa durante a reunião — e confesso que chorei, só que nunca te contei.

Quando saímos pela primeira vez, você me fez pular na areia da praia de noite e depois riu da minha cara enquanto caminhávamos na orla e eu reclamava da areia no sapato. Lembro que naquele dia você também me abraçou e disse acreditar muito em mim, em nós, e em tudo isso aqui — e que uma das melhores coisas que você havia feito era entrar para esse projeto.

Você falou várias vezes sobre coisas que queria fazer e lembro também que na época você estava cobrindo as paraolimpíadas — e não parava de falar sobre a importância do evento e como você queria mostrar para os leitores a importância que você enxergava. Rimos o tempo todo, andamos de um lado para o outro na orla e fizemos um jogo de ‘avaliar’ o comportamento de estranhos, depois voltamos para o hotel e comemos. Quando você voltou para casa, fizemos uma ligação de vídeo com o Ariel e ficamos rindo ainda mais.  

Honraremos tudo o que você idealiza: sua vontade de transformar a vida de mulheres através do feminismo, sua vontade de mudar a forma que o jornalismo funciona, sua vontade de trazer uma perspectiva mais artística para a redação, e incontáveis outras idealizações que gostaria que tivéssemos posto em prática antes. Me recuso a falar no tempo passado sobre quem você é, Maria Clara, porque você está presente. Você é presente em cada passo que demos até o momento, e cada passo que daremos a partir de agora. Te amo, Clarinha!

Gabriel Sampaio

Caca, sei que você nunca vai ler isso, mas você sabia que eu adoro dialogar nos meus textos. Para começar saiba que eu vou sentir muito sua falta… Até agora não sei como reagir ou em como acreditar. Você fazia o mundo mais colorido, sabe? Sempre alegre fazendo uma piada ruim aqui ou ali, igual eu faço. A gente se entendia muito, sonhava parecido e via o mundo leve e engraçado. Era um privilégio revisar tudo que você escrevia, um talento bizarro, dava para sentir o amor e o tesão que tu sentia escrevendo, você amava o que fazia. É triste imaginar que nunca mais eu vou receber aquela mensagem de manhã com você pedindo para olhar seu texto. “Gabs, se tiver uma merda fala”, era sempre assim com uma figurinha sua fazendo careta, mas eu sempre fazia questão de viajar pelas suas crônicas… Você tinha talento, sabia? Por mais que você não acreditasse, você tinha. Vou sentir sua falta, Caca… Do seu senso de humor, da sua cara de pau, da sua respiração perto da minha. Você sempre disse que a gente ia mudar o mundo, e eu prometo que vou cumprir com isso. Caca, independente de qualquer mudança no mundo, saiba que você mudou o meu. Te amo! Um dia a gente se encontra.

Danilo Akel

A Maria Clara era a única integrante da Sabiá que residia no Rio de Janeiro, pertinho de mim. Pensava ser possível conhecê-la antes de encontrar os outros, que moram mais longe. Alguns dias atrás, li um lindo texto de amor endereçado ao pai, escrito pela Maria. Pouco tempo depois, recebo a triste notícia. Jamais a conhecerei em carne, mas conheci um pouquinho do espírito dela manifestado pelas palavras. Descanse em paz, Maria. Talvez nos encontremos em algum lugar desconhecido, mais quieto do que a Terra.

Caio Souza

Maria Clara

Carioca de alma leve. Meiguice pura
Em momentos solenes, se apresentava como cura;
Infelizmente o mundo parece causar indiferença;
E não se preocupou em manter a sua presença.

Ilustre como o nome indica: Maria Clara;
Clara como o mundo que via queimará.
Maria, como o aroma de uma dessas moças na perfumaria;
que visava independente de tudo, a felicidade;
que cruzava os sonhos da noite em uma sazonalidade.

Os ágonos da imprensa independente não serão mais os mesmos;
após perdermos a jovem que dedicou ao que acreditava com esmo;
Suas conversas estão guardadas por inteiro;
nessa eternidade do que aprendi com tu e não me esqueço.

Luiza Zacarias

Das coisas que mais me intrigam, a impermanência é a maior delas. Desenvolver a capacidade que me agride de aprender a lidar com despedidas que eu não gostaria de vivenciar. Outro dia você estava numa chamada de vídeo comigo, sorrindo como quem não sabe quando será a última vez e, neste momento, lembrar do seu sorriso é única coisa que me conforta. Porque você parecia feliz. Porque ali você estava vivendo de forma legítima e fazendo o que você queria. Você não sabia do depois. Nós também não sabíamos pois se fosse permitido certamente daríamos algum jeito de resolver tudo. Porque juntos aqui, sempre fomos gigantes. Obrigada pela troca, pelos ensinamentos e por ter colorido esse nosso mundo de cores vibrantes que eu tanto me orgulho. Você é e sempre será aquele sorriso genuíno e uma surpresa boa que eu levarei comigo com todo carinho.

Carolina Justa

Clara é quem dá força quando a gente precisa e não consegue, mesmo que ela mesma também esteja precisando. Nunca saem palavras vazias dela: é tudo do coração. É incrível, inacreditável, lindo demais como ela cuida e mostra que realmente está lá para nós quando precisarmos. Tudo isso é; nada disso vai deixar de ser presente e as cores que ela trazia para este mundo nem um arco-íris pode capturar. 

O sonho da Sabiá se tornou ainda mais concreto e ainda mais presente porque você estava nele. E você vai continuar fazendo parte dele, porque é impossível tirar Maria Clara Aguiar, o tanto que ela fez e as maravilhas que ela escreveu desse projeto que ainda tem muito voo para alçar, muito céu para conquistar. É uma dor no coração saber que você acabou indo para um céu diferente e tão, mas tão cedo, Clara. 

Leonardo Dresch

Desde a minha primeira publicação não teve uma em que Maria Clara não viesse tecer comentários e me apoiar para continuar produzindo conteúdo e mergulhar na luta. Inclusive, se não fosse por esse apoio não sei se ainda continuaria participando. O carinho e cuidado vindo de uma pessoa que literalmente irradiava luz, calor e vida era transmitido em toda e qualquer reunião que participasse. Nunca esqueço de uma em especial que Maria Clara veio no privado falar comigo enquanto rolava os assuntos da pauta para saber como eu estava porque tinha notado minha cara “tristinha” na videochamada, era um cuidado que atravessava telas mesmo nunca termos tido a oportunidade de nos conhecermos pessoalmente — e havia planos para isso.

O sorriso dela era o sol que só nasce no Rio, diferente, vivo, quente e acolhedor. E é assim que irei lembrar dela, uma jovem sonhadora cheia de esperança que estava disposta a lutar por um mundo melhor mesmo em meio a todo esse caos. É uma perda que deixa um vazio em todos nós, mas que, ao mesmo tempo — sinto eu — deve ser preenchido por todo esse amor, inteligência, luta, cuidado e carinho que Maria Clara trazia e continuará trazendo. Maria Clara presente!

Arthur Albuquerque

Mari, desde o seu primeiro texto, que chegou na nossa redação como uma bomba de honestidade, coragem e ternura, todas nós já sentíamos que você era para a nossa revista algo de tão vital quanto o ar que respiravamos no nosso dia a dia. Você era o nosso coração em cada pequena interação corriqueira para resolver assuntos banais mas que você enchia com uma ternura que me deixava genuinamente em paz. Escrever esta declaração pequena me é tão dolorida pois escrever sabendo que a leitora que eu gostaria que lesse nunca vai poder me ler parece viver num mundo sem ar.

Carla Queiroz

clarinha,

que triste pensar que de um texto de aniversário agora lhe escrevo um texto de despedida. e é tão difícil acreditar que não vou mais enviar uma mensagem pra ti e receber um áudio com o teu sotaque lindo, ouvir um “cara” a cada duas palavras, e ter total conforto pra falar sobre qualquer assunto com você.

você vai fazer tanta falta. não só pra mim, seus amigos ou família, mas pra toda conjuntura do jornalismo brasileiro que, em tão pouco tempo, você já fez tanta coisa.

você foi, você é e será eternamente brilhante. e forte, e linda em todos os aspectos imagináveis.
que pena que não tomamos nossa cerveja, que pena que não compartilhamos o mesmo cigarro, que pena que não demos nosso tão prometido abraço, que pena que tivemos tão pouco tempo.

vou sentir sua falta.
que sua passagem seja bonita e tranquila, do jeito que você merece.

você vai estar eternamente gravada em meu coração e na história do sabiá.

com amor,
carla.


Em conjunto, assinam os integrantes da equipe:

thales reis
heitor aguiar
luíse rocha
eder castro
marina neto
amanda belliard
luiza berthoud
sabrina medeiros
fernanda de melo
rafael rachid
júlia machado
andré firmino
lucas lopes



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