A pequena história que escrevemos todos os dias


A Revista O Sabiá é um projeto independente que renova lutas que já foram travadas por projetos como a Revista Crisis, que lutou contra as ditaduras do século XX.


Qualquer pessoa que tenha conversado comigo por algum tempo e conheça o mínimo de meus interesses sabe de uma grande paixão quando se trata de literatura: o uruguaio Eduardo Galeano, autor de uma vasta obra, mais reconhecidamente por sua magnum-opus, As Veias Abertas da América Latina.

Antes de escritor, Galeano era também um jornalista. A diferenciação entre as duas funções só existe se considerarmos o meio como fim, afinal, o que se faz em ambas é escrever, narrar, contar histórias, cada um à sua maneira. Ao longo do tempo que escrevo para esta revista, muitos que conversaram comigo se surpreenderam ao saber que não sou jornalista. Talvez alguém que esteja lendo este texto esteja surpreso agora mesmo. Muitos grandes jornalistas não passaram pelas universidades. Eric Nepomuceno defende inclusive que os bons jornalistas não passam por ela, e os que passam ignoram a maior parte do que veem, pois, não se limitam a normas e regras para sua produção.

Durante o século XX, muitos dos grandes escritores que entraram para a história no momento em que o mundo decidiu olhar para a literatura latino-americana eram também jornalistas, e um projeto em especial me chama atenção, a Revista Crisis, publicada entre maio de 1973 e agosto de 1976, fazendo parte da resistência contra as ditaduras que nasciam e se consolidaram por décadas ao sul do novo mundo. Haroldo Conti, Roberto Jorge Santoro, Raúl González Tuñon, Jorge Luis Borges, Ernesto Sabato, Oliverio Girondo, Mario Benedetti, Ernesto Cardenal, Julio Cortázar, Roberto Fernández Retamar, Miguel Briante, Roberto Fontanarrosa, Vicente Zito Lema, Ernesto Giudici, Héctor Tizón e muitos outros nomes fizeram parte dela. Escritores já mundialmente renomados como Jorge Amado, Augusto Roa Bastos, Alejo Carpentier, Gabriel García Márquez e diversos outros apresentaram na revista suas novas obras.

A revista precisou encerrar suas atividades por conta da repressão das ditaduras, que a proibiram em diversos países da região. Galeano relata no conto “Os homens que cruzam o rio” presente na obra Dias e Noites de Amor e de Guerra como havia uruguaios que atravessavam a fronteira com a Argentina apenas para ler a publicação, que não chegava em seu país.

Buenos Aires, julho de 1975:

Os homens que cruzam o rio

Hoje fico sabendo que todos os meses, no dia em que sai a revista, um grupo de gomens atravessa o rio Uruguai para ler.

São uns vinte. Encabeça o grupo um professor de sessenta e tantos anos, que esteve preso um tempo.

Pela manhã saem de Paysandú e cruzam para a terra argentina. Compram um único exemplar de Crisis e se instalam num bar. Um deles lê em voz alta, página por página, para todos. Escutam e discutem. A leitura dura o dia inteiro. Qunado termina, deixam a revista de presente para o dono do bar e voltam ao meu país, onde ela está proibida.

– Ainda que fosse só para isso – penso – valeria a pena.

Eduardo Galeano — Dias e Noites de Amor e de Guerra

Sediada na Argentina, não pode resistir quando o cerco contra ela se apertou. Houve ameaças de morte contra seus colaboradores e seu corpo editorial em mais de uma edição e as discussões a respeito da democracia, da repressão e do imperialismo incomodaram grupos poderosos.

Os tempos mudaram e a internet trouxe a possibilidade de novas formas de ativismo e jornalismo, como a que eu e meus colegas fazemos aqui na Revista O Sabiá. A possibilidade de alcançar mais pessoas e de produzir sem ocupar o mesmo espaço físico é uma grande vantagem, a falta de possibilidade de capitalização do projeto faz com que todos se dediquem de forma voluntária. A Crisis, que entrou para história, precisava de financiamento de empresários apoiadores das causas. Os pesos e os contrapesos ora se equivalem, ora pendem para um ou outro lado.

Com todas essas considerações, o mais importante aqui é olhar para o passado e trazer dele a possibilidade de valorizar o presente sem uma idealização do que já foi. Às vezes olhamos para o que passou com a grandiosidade que merece, ao mesmo tempo em que não reconhecemos a grandeza do que é feito no presente. A Revista O Sabiá é um projeto independente e jovem como foram produções como a Crisis e tem uma importância ímpar nessa nova realidade autoritária e de vigilância, que não precisa mais das velhas ditaduras de farda, mas tem o digital como arma.

Escrevo isso como uma reflexão que fiz após ler a homenagem produzida por nossa equipe a Maria Clara Aguiar, nossa chefe de reportagem que precocemente nos deixou na última semana. O sonho de Maria Clara nada se difere do sonho de nomes como Galeano e os demais participantes da Crisis, assim como d’O Sabiá. O objetivo de mudar o mundo estava presente lá e estava presente aqui. Assim como eles, enfrentamos desafios e temos de lidar com as perdas, as frustrações e os retrocessos, e assim como eles, continuamos na caminhada para que nosso sonho seja alcançado e as pessoas que fizeram parte disso, como foi Maria Clara, sejam representadas.

A luta política não está dissociada de diversas outras lutas do dia a dia e o afeto é revolucionário, como eu mesmo disse aqui há algum tempo. Escrevo esse texto em homenagem a esse projeto e as pessoas que fazem parte dele, que me tocaram em cada palavra que escreveram na última publicação em tributo a Maria Clara. Que em nome dela, estejamos unidos por esse ideal de democracia, liberdade e cultura como algo que deva ser universal e irrestrito. E que o amor e o afeto nos guie rumo a essas conquistas. Apenas juntos podemos construir algo melhor.


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