Eu queria que fosse tudo diferente, exceto pelo gosto da sua comida. Eu queria que fosse tudo diferente, exceto pelo modo como você sempre batalhou para nos dar o melhor.

Faltou compreensão, faltou me ouvir mais, nos ouvir mais. Faltou confiar mais em mim, me dar mais confiança, ser menos dura com as palavras, ser menos dura com os xingamentos ou meras projeções que nos calhou de encontrar. Eu sei, eu sei, faltou em você, para você, então faltou para mim. Mas dói quando você banaliza a fala, o que eu penso, fala que a roupa está feia. Eu só queria que você me amasse como eu sou, pelo que sou, inclusive com os meus defeitos que não machucam ninguém, como os seus, que sempre nos fizeram de refém.

Os seus defeitos, a sua falta de respeito em tantas coisas, com todo mundo. O fato de você nunca conseguir enxergar um palmo para além de você mesma. Você é reprimida de sentimento e me fez ser igual. Meu maior ato de vingança? Amar loucamente, amar como eu puder, quem eu puder, quem e quantos eu quiser. Porque me faltou amor, chegou muita cobrança, intolerância e você continua assim: adoecida, adoecendo.

Eu me preocupo tanto com a cabeça das que ficaram, das que chegaram agora… Toda essa loucura, desequilíbrio e grosseria sem moderação. Eu sei, eu sei, não tem como carregar o mundo nas costas. Eu sinto mágoa da falta de ajuda para terapia, da banalização do meu maternar. Eu não aguentei uma semana com você, não dá para ficar perto de quem só te diminui, isso afeta até no fato de ter dificuldade para me sentir amada, de pensar que eu mereço, realmente, amor que é carinho, paciência, respeito. O que eu tenho sou eu, no fim de tudo, o outro é só um refúgio de às vezes.

Na minha infância: momentos bons, momentos ruins, solidão, cobrança, “mentirosa”. Eu sou uma farsa? A minha vingança é ser quem eu sou, até o talo, até a parte impostora, tudo isso é minha autenticidade. Não precisa haver maldade, é só botar limite na vaidade. Eu sei, eu sei, você foi quem você conseguiu ser: quem seu narcisismo, quem a sua história, que também não é fácil, permitiu. Mas doeu… Dói. Será que eu só me senti segura no útero? Por que tanta mágoa? Angústia? Raiva? A minha vingança é perdoar, mas eu não esqueci.

Estou de olho, você não pode sair machucando as pessoas por aí, como sempre faz, até fogo na sua casa botaram, lembra? Rapaz… Não sei de quem foi a culpa, mas teve a ver com alguma conduta. Empatia, procure o significado dessa palavra que para gente que é jovem já está saturada, você tem muita dificuldade para expressar isso da maneira certa. Você vai ver, você vai ver… Eu vou fazer o melhor que eu puder, por mim, não por você.

Seu narcisismo te deixou chegar até aqui? Talvez sim, afinal é sobre você esse texto.

Quebrar essa construção social me desmonta inteira, mas eu vou, tô brotando igual flor. Fui brega, mas faz parte da entrega. Sempre imagino você diferindo: a gente conversando, cara a cara, mente a mente, eu sendo eu, você sendo você. Sem doer, sem prender. Mas é só filosofia minha, como diz você. Culpa minha que gosto de aprender.

Não te deixaram falar, você só pensa em usar, você não quer respeitar. Esse teu jeito de amar, como Bell Hooks diz, é um amar errado, não dá pé, está mais para amor de Taubaté. Tem que mudar, reformular, melhorar, ser honesto. Tem muito julgamento, muita maldade, parece um tormento, muito mais vaidade do que acolhimento e deixa o coração fechado duro igual cimento. Eu tirei da cabeça, não sou eu quem vou te libertar.

Posso te dar a mão, de vez em quando, será que você vai segurar? Essa mão de quem eu realmente sou, não quem você sonhou. Eu tenho um filho hoje para criar, penso, todos os dias que igual a você. Não quero ficar. Que raio é isso que tem dentro de mim? Só fala para eu perdoar. De sangrar não vai parar, eu escrevo para curar, o band-aid é a palavra, a linguagem, que vai me ajudando a elaborar esse monte de sentimento no meu peito.

Ontem sonhei com você matando outra pessoa… Não dormi direito, fiquei vivendo a (i)realidade e lidando com o fato de que você teve que matar alguém. Era um menino no sonho, eu sabia, mas contar eu não podia, então escrevia bilhetes para te entregar. O outro dia apareceu e naquela mesma noite esse texto nasceu, indicado pela minha psicóloga, como uma forma de tirar tudo de ruim que eu sentia por você. A morte foi em sonho, mas o simbólico me faz questionar: se não sou eu, quem tenho que matar? A construção que criaram do teu amor romantizar.

Eu luto por um diferente maternar. Não, nem de longe, tô dizendo que não vou errar, mas agora só vivo o que quero, só aceito o que eu mereço. Tirando quando tenho que trabalhar, aí o capitalismo toma meu lugar, por enquanto. Você me ensinou, me ensinou alguma coisa, mas ficou perdida entre uma mágoa e outra. Eu sei, você deve ter perdido muito do seu sonhar, mas lembre: não foi culpa minha se você não chegou lá.

Eu não quero ser ingrata, na verdade, sei que não sou, mas encerro nessa hora “O mal” que você me causou. Minha vingança continua, respeitando o seu tempo e me fazendo respeitar os meus limites, largando a mão de ser Afrodite. Eu sou maior que eu, já dizia Clarice. Não cabe a mim o que você quiser trilhar e é um alívio.

Sabiá

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