WikiLeaks nas relações Internacionais


Apesar do fato de que a maioria dos líderes estrangeiros rapidamente repudiaram o material, autoridades dos EUA difamaram Assange e Manning como inimigos inequívocos da comunidade internacional.


Fica cada dia mais evidente que o WikiLeaks, mais do que qualquer outra coisa, é um dilema ou, se preferir, um grande tema de debate social em escala global. O maior sacrifício que seu co-fundador, Julian Assange, já fez em 20 anos de atividade foi deixar os crimes de guerra dos EUA completamente nu. 

Em outras palavras, a situação do WikiLeaks revisita com grande clareza os nexos de continuidade da cultura do jornalismo colaborativo, mas também de ruptura, com seu precedente mais famoso: os Documentos do Pentágono, que Daniel Ellsberg trouxe à luz no The New York Times em 1971, colocando assim a presidência contra as cordas sobre a Guerra do Vietnã.

É interessante, por exemplo, observar a confusão, que se deve supor ser involuntária, entre o que são os documentos, o que eles realmente dizem e o que alguns especialistas, analistas e veículos afirmam que dizem. As publicações de Cablegate, Guantánamo e documentos sobre projetos de atuação da CIA em países subdesenvolvidos, são telegramas REAIS enviados por diplomatas dos Estados Unidos à sua capital, Washington. Nesse sentido, na época, muitos analistas e jornalistas erraram ao afirmar que, com esses telegramas, fica demonstrado que a Espanha, por exemplo, fez ou não tal coisa, e isso é aplicável aos casos dos voos da CIA, da morte do jornalista José Couso no Iraque, ou do que este ou aquele ministro fez ou disse. A realidade, em sentido estrito, é que esses telegramas (cuja autenticidade a Administração dos Estados Unidos nunca tentou negar) dizem que o Embaixador X ou Y (por exemplo Eduardo Aguirre, ex-embaixador dos EUA na Espanha) afirma que o ministro, promotor ou juiz X, Y ou Z disse que fará ou não fará uma coisa ou outra.

O manual mais elementar para jornalistas iniciantes insiste na necessidade de verificar, confirmar com a outra parte e reconfirmar a informação através de fontes independentes. Foi algo que fizeram? Novamente, há a obviedade de alguns exemplos. O governo dos Estados Unidos espionou Ban Ki-moon (ex-secretário-geral das Nações Unidas). Tais coisas não são feitas ocasionalmente ou, se são feitas, não se diz que são feitas e, se vêm à tona, são negadas. 

Democracia disfarçada

A influência global de Washington hoje é profundamente contestada, em um grau que pode surpreender tanto os incentivadores quanto os detratores da política externa dos Estados Unidos. “Negociação” é o tema dos documentos do WikiLeaks.

Seja lidando com amigos especiais ou reflexões políticas, os diplomatas dos EUA raramente ditam os termos do intercâmbio internacional. Em vez disso, eles são pegos em uma contínua conversa bidirecional que ofusca muitas vezes a natureza assimétrica dos recursos militares e econômicos de Washington. Os exemplos são quase infinitos.

Observe o Iêmen: residindo na periferia do mundo árabe com um clima severo e uma população pequena, há poucas razões para o país possuir alguma influência sobre o estabelecimento de políticas dos EUA. Ao contrário da Arábia Saudita, possui poucas reservas de petróleo ou influência regional — apenas a estratégica cidade portuária de Aden, que dá acesso às águas entre o Mar Vermelho e o Oceano Índico.

Embora escrito por funcionários dos EUA, o material do WikiLeaks mostra como o ex-presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, pressionou Washington a se interessar mais por seu país.

“Se você não ajudar, [o Iêmen] se tornará pior que a Somália”, disse ele ao embaixador dos Estados Unidos em setembro de 2009 — uma ameaça que provou ser extremamente eficaz. Entre 2009 – 11, os Estados Unidos triplicaram a ajuda ao Iêmen, fornecendo mais de 300 milhões de dólares em equipamentos militares e assistência de segurança.

No local, diplomatas dos EUA reconheceram que Saleh estava usando esses fundos por motivos pessoais. Seu principal objetivo, logicamente, era fortalecer a posição de seu governo vis-à-vis rebeldes no norte e secessionistas no sul — ressalto que as fronteiras do Iêmen são contestadas há muito tempo e as tensões religiosas e étnicas fervilham desde que o país assumiu sua forma atual em 1990. Como é possível policiar a linha entre os interesses vitais e periféricos da América em uma região como o Oriente Médio?

Tudo e todos são importantes para Washington, ao que parece, no século XXI. A história do WikiLeaks é definida pela continuidade — mas também sugere como a tradição geopolítica americana afundou ainda mais desde o fim da Guerra Fria. O material vazado por Chelsea Manning nos diz muito pouco sobre os debates de alto nível nos governos Bush e Obama, mas em nenhum lugar do material havia uma sensação de proporção ou humildade mais profunda. Em nenhum lugar havia consciência de como a geolocalização afeta os assuntos internacionais de diferentes maneiras ao redor do mundo — ou um conhecimento de que o Iêmen (e regiões semelhantes) simplesmente não importa para os Estados Unidos.



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