Caso de agressão sexual contra Assange sempre foi político

Faz quase uma década que Julian Assange acordou com a primeira página de um jornal sueco, onde a chamada principal declarava que autoridades suecas decidiram persegui-lo por alegações de agressão sexual e estupro. Imediatamente, Julian se apresentou na delegacia para prestar depoimento e limpar seu nome. Após falar com os promotores, ele foi informado de que poderia deixar o país; assim ele fez.

Foi somente após sua chegada a Londres que um aviso da Interpol foi emitido para sua prisão. Enquanto isso, Assange buscou e obteve asilo na embaixada equatoriana sob a alegação de que estaria sujeito a graves violações de direitos humanos caso fosse extraditado para os Estados Unidos. Apesar de anos de sua equipe jurídica solicitando que as autoridades suecas oferecessem garantias de que ele não seria extraditado para os EUA, a oportunidade de Assange limpar formalmente seu nome nunca lhe foi concedida. Nem o direito à presunção de inocência. Veículos da mídia corporativa ainda afirmam falsamente que as acusações foram feitas. Foi um julgamento midiático. 

Promotores suecos só foram anunciar no dia 19 de novembro de 2019 que, depois de quase dez anos, estavam finalmente abandonando uma “investigação preliminar” sobre alegações de “má conduta sexual” contra o fundador do WikiLeaks. A vice-procuradora-chefe da Suécia, Eva-Marie Persson, disse em entrevista coletiva que havia “provas insuficientes” para prosseguir.

O ignominioso colapso da investigação — que, ao longo de uma década, foi abandonada três vezes e nunca passou do estágio “preliminar” — está marcado como uma armação e que escancara uma operação de Estado. O que demonstra ainda mais que Assange foi vítima de uma conspiração política internacional sem precedentes, liderada pelos EUA, auxiliada e instigada por seus aliados, incluindo Suécia, Reino Unido e Austrália.

Todas as difamações – incessantemente alardeadas pela imprensa corporativa como prova de que Assange era um “agressor sexual” ou mesmo um “estuprador” – são expostas como mentiras e delírios de jornalistas patrocinados, veiculados para vitimizar, manchar e perseguir um jornalista e editor. O completo descrédito da investigação sueca, que desempenhou um papel tão importante na vingança liderada pelos EUA, expõe o caráter totalmente ilegal de toda a operação contra Assange.

Como o Relator Especial da ONU sobre Tortura Nils Melzer afirmou em uma carta oficial ao governo sueco divulgada publicamente em 2019, a investigação “foi o principal fator que desencadeou, possibilitou e encorajou a campanha subsequente de perseguição pública e perseguição judicial contra o Sr. Assange em vários países, cujos efeitos cumulativos só podem ser descritos como tortura psicológica”.

Vamos deixar uma coisa clara: qualquer alegação de má conduta sexual deve ser tratada com seriedade. Mas, como as Mulheres Contra o Estupro (Women Against Rape) e o Relator Especial da ONU sobre Tortura apontam, este caso nunca foi sobre proteger as mulheres envolvidas; tratava-se de garantir que o foco fosse mantido fora dos crimes de guerra que o WikiLeaks expôs e assassinar o que Assange representava.

A decisão de encerrar a investigação foi uma das várias boas notícias para Assange e sua equipe jurídica. No entanto, permanece o fato de que um cidadão australiano começou a ser perseguido pelo Departamento de Justiça (DOJ, na sigla em inglês) do governo Obama e hoje continua sendo perseguido pelo DOJ do governo Biden para fins políticos e enfrenta graves violações de direitos humanos se extraditado para os EUA.

Atualmente, Assange está em prisão preventiva em Belmarsh, Inglaterra, em condições que estão agravando sua saúde já frágil e impedindo sua capacidade de preparar sua defesa. Ele vem enfrentando acusações sem precedentes sob a Lei de Espionagem dos EUA, por supostamente realizar ações em que jornalistas e editores se envolvem como parte de seu trabalho. Julian poderá ser extraditado e preso por 175 anos — uma sentença de morte efetiva — por se envolver com a liberdade de expressão e informação.

E não vamos esquecer o material que foi exposto pelo WikiLeaks.As publicações incluíam provas de crimes de guerra, incluindo tortura e execuções, perpetrados durante as guerras do Iraque e do Afeganistão, e os arquivos de Guantánamo, que demonstravam que a maioria dos homens e crianças estavam detidos e torturados em prisão, embora muitos detidos eram inocentes de qualquer crime.

Precisamos nos perguntar porque o foco não está nos crimes perpetrados por aqueles envolvidos em crimes de guerra. Por que um cidadão australiano está sujeito às leis de espionagem dos EUA, embora nunca tenha estado em solo americano? Mais importante, por que um cidadão australiano deveria ser leal aos EUA? 

A urgência desta luta, que deve ser a ponta de lança de uma campanha mais ampla contra o imperialismo norte-americano e em defesa dos direitos democráticos, é demonstrada pelas advertências do pai de Assange e Nils Melzer sobre a conduta ilegal do judiciário britânico e de que ele poderia morrer na prisão de Belmarsh.



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