Minha Vida Através dos Banheiros


Naquele momento eu o perguntei se o meu nome ele sabia e ele me respondeu: Sofia.


O espaço conta segredos, histórias, minúsculas, esquecíveis, como aquele amigo que sempre te conta causos em que você era o agente, num passado tão cansado que você escuta como se ouvisse o desenrolar de uma ficção. Cada pequena parede com falhas nas pinturas falam sobre crescimentos e mortos, talvez seja do gênio trágico humano, criador tão dedicado destas criaturas imóveis, justamente a nossa surdez em relação ao minimalista mundo das crônicas humanas que o espaço nos conta. Tendo dito isto, eu devo dizer que existe um tipo de espaço que sabe mais sobre mim do que ninguém, nenhum amigo ou amante, parente ou chefe, namorada ou psiquiatra, ninguém me conhece mais que a infinidade de banheiros pelo qual admito que passei maior parte de minha vida. 

Se você pudesse seguir, como uma trilha turística, e se pudessem ouvir, como se escutasse uma música, os banheiros, de deficientes e boxes coletivos de cinemas, metrôs e casas lhes contariam toda a minha vida. Por meio de episódios às vezes carinhosos, mas muitas das vezes crus e desconfortáveis, os banheiros sabiam de meu nome antes mesmo de eu o dizer, eles retém todos os meus segredos, como se me chantageassem. 

Quem por um acaso já me ouviu falar ou já me ouviu escrever talvez estranhe tal apreço a intimidade: eu, aberta, tão exposta sempre, tão crua, já disse eu mesma ter invocado o demônio, que segredo interessante uma privada teria a lhe contar? Segredos talvez menos elaborados, mas com certeza mais sinceros, e é nesse pequeno deslocamento de ótica que diferencio este texto de outros: os banheiros não mentem, eu sim, e não poderia ser sincera comigo mesma em relação a minha vida se não a visse por olhos que não fossem tão contaminados pela ficção como os meus.

A explicação para o porquê de eu dar tanto e tanto aos banheiros não existe, eu poderia dizer que por nos lavarmos ou termos de excretar sempre o nosso resto em banheiros, nós somos obrigadas a entrar nesse estado completamente animal e escatológico, todas as nossas normas e bom sensos, nossos sensos de polidez e nosso fingimento vão embora dentro de um banheiro, mas, porque não focar nesse texto em nossa cama? Ela nos coloca em situações onde nossa humanidade também é incontornável, não? A grande realidade é que onde o sono escapa pela insônia, a tendência à escatologia jamais cessou de me perseguir e de me obrigar a ser humano. 

Sei o  que talvez você pense, mas não, aqui eu não falo de merda, claro que tudo começou com ela, mas o início de minhas confissões aos banheiros foi por meio de choros. Eu, como a mulher dramática que sou, nunca soube chorar quieta, nunca pude esconder direito o sofrimento que eu considerava pretensiosamente oceânico e, como desde minha adolescência também criei este instinto de gato machucado, que chora escondida por debaixo de cantos, o banheiro me dava o ruído sonoro perfeito para me esconder de minha mãe e irmã. Lá, eu chorava principalmente por duas coisas: meu corpo e meu pelo. Alguém mais atento pode achar mal-pensada tal divisão, mas há aqui um conceito importante: eu chorava pelo meu corpo disforme que eu poderia mudar, caso eu não fosse um fraco, e eu chorava pelos meus pelos horrendos que cresciam não importasse o que eu tentasse. Ao contrário de Sansão, o cabelo aqui me dava fraqueza, talvez se eu não os tivesse e pudesse realmente ver a minha pele, sentir ela de maneira macia e ser vista como frágil, delicada, talvez então eu conseguisse parar de dormir o dia todo e me exercitar, ser mais magra e me ver menos como o Shrek e mais como eu mesmo. Os banheiros ouviam os meus lamentos que passavam por horas e eras, o meu aeon era o das lágrimas, onde eu lamentava uma essência que essencialmente me foi negada. Então para além da mente e do corpo, há-me também o corpo e o pelo: O último, o verdadeiro inimigo espiritual que me impede de transcender do desgosto à ternura e delicadeza. 

Isso fez com que, quando eu quisesse chorar, o banheiro se tornasse na minha primeira opção para sentir o mundo pequeno. Em momentos onde céu ficava cansado e os tetos ficavam pequenos, eu geralmente media a gravidade da minha angústia pelo baixeza do teto: haviam vezes em que só estar inclinada em posição fetal não bastava, em outras mesmo com eu deitada, com a nuca perto do ralo ainda assim, o teto me esmagava, e eu contava para o banheiro sobre essas lágrimas de uma condição que eu jamais poderia ter. Quando eu perdi a minha melhor amiga, aos 15 anos, a primeira coisa que eu fiz ao chegar em casa foi me trancar no banheiro.

Mas não era tudo um mar de lágrimas, assim como a minha vida, os banheiros também ouviam confissões não só de crimes, mas de sonhos. Meus quartos geralmente não possuíam espelhos, então o cômodo que me mostrava sempre quem eu era com a máxima sinceridade era o banheiro. Minha barriga e meus pelos, por mais que conspirassem os dois contra mim em público, em privado, a selva negra de meus cabelos era para mim uma tela em branco. Quem seria eu se eu não fosse em absoluto eu? Esse foi o meu exercício mais divertido entre os meus anos de adolescência, o terror e existir como existia e a fantasia de poder existir, dentro da minha mente, de qualquer outra forma era os polos alquímicos no qual a minha alma transitava entre nuances, aprendi com os banheiros que a química da identidade era mostrar, por meio das palavras, que eu era algo além do que aquilo que o espelho me achincalhava.

Naturalmente eles já sabiam, principalmente quando o aeon das giletes começou. Chegou um momento do meu ensino médio na qual eu já não conseguia me contentar com essa auto piedade barata que odiar eu mesmo me causava. Quando eu resolvi, enfim, tomar uma atitude em relação a mim, a minha primeira atitude foi comprar espuma de barbear e uma gilete, de início eu mantive um cavanhaque, que me deixava mais velha, de acordo com o meu pai, depois ficou só um bigode, com um estilo meio “gay dos anos 80”, de acordo comigo. Enfim eu raspei tudo, no ano passado. Foi esse o evento que eu usei para tirar o primeiro pezinho do meu armário, geralmente as pessoas me perguntavam “nossa, porque você raspou o bigode? Ele parecia te dar tanto orgulho!”, eu apenas respondia uma singela “disforia de gênero” e não voltava mais a tocar no assunto. Devo inclusive agradecer a gillette por ter me dado a primeira sinestesia que me lembra o que é ser o que eu sou: é o cheiro de creme de barbear com sangue, porque eu sempre raspo meus pelos com ódio, não de mim, não mais, mas do que eu ainda não sou.

E de fato, eu mais não sou do que eu sou, até semana passada eu não tinha nem sequer um nome oficial, eu ainda sou um amontoado de porvires que me causam ansiedade e mais puro medo, talvez o meu devir seja sombrio, como muites daqueles que compartilharam a mesma experiência que eu, e os banheiros me denotam isso hoje em dia, principalmente os banheiros de metrô, onde eu tiro minhas roupas de homem e coloco os vestidos no qual eu não consigo mais estar em público sem. As conversas paralelas entre todos os homens ali me denunciam um perigo, que me deixa calada e em prece, rezando quietinha para que qualquer um lá no astral me faça o favor de esvaziar aquele cômodo quando eu saia deste box, porque estar no banheiro é uma experiência solitária com a sua própria imaginação imprimida no seu corpo, é por isso que sempre sou tão frágil em banheiros e justamente agora, que eu sou quem eu sou, sinto mesmo é medo de ser pega nesse momento. Desprevenida. Nessas horas de tensão eu geralmente me acalmo com uma memória, que, curiosamente também envolve um banheiro: Houve uma vez, numa casa que não é minha, eu me ausentei por um momento para ir ao banheiro, eu estava rodeada de pessoas que eu amava e elas haviam me maquiado, pela primeira vez, eu me olhei no espelho do cômodo e lá eu tive uma epifania: Aquela era a primeira vez na qual eu me sentia bonita. Curiosamente minha vida começou e acabou naquele dia, naquele momento eu o perguntei se o meu nome ele sabia e ele me respondeu: Sofia.



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