Há uma diferença entre ser ignorante e ser um imbecil — um ignorante é alguém que ignora a opinião alheia por não aceitar que está errado ou alguém que não busca se informar, um imbecil é aquele que é completamente sem noção. Bruno Aiub, conhecido popularmente como Monark, é um imbecil. Ele utiliza a ideia de ser um ignorante e não um imbecil, o que aumenta as chances de diálogo com críticos, como defesa para falar o que pensa, mesmo que esse pensamento não seja condizente com pesquisas, dados e até mesmo a história. Em seu último programa, em meio a uma conversa crítica sobre a esquerda radical, defendeu a criação de um partido nazista com base na retórica ‘se um pode, aquele também’. Além disso, afirma que acredita que “questionar é sempre válido” em contexto a questionar “o sistema de ideais” (sic) do judaísmo.

Não há nenhum problema em questionar coisas, até porque a maioria do público-alvo de Aiub é composto por jovens e adolescentes, que possuem uma necessidade quase que fisiológica de questionar tudo e todos. O problema é quando você está em uma posição de responsabilidade, por ser dono de uma plataforma com milhões de ouvintes, onde você não questiona, mas afirma, concordar com a criação de um partido nazista.

E também não tenho dúvidas que, conforme consumimos cultura — através da mídia — sobre o nazismo e o holocausto às vezes desde novos, muitos adolescentes e jovens que assistem ao programa tenha curiosidade sobre o que foi o regime nazista, isso faz parte de uma formação política. Ouvir de um influenciador — onde muitas vezes está em uma posição de exemplo e admiração — que a criação de um partido nazista brasileiro moderno não é nada abominável, mas considerável, pode afetar o início da formação política desses jovens, fazendo-os passar a ver a existência de um regime autoritário como algo aceitável em nome da liberdade de expressão.

A liberdade de expressão irrestrita e sem consequências é uma filosofia importada dos Estados Unidos, à terra da liberdade onde se pode matar e morrer pela sua própria estupidez. Esse conceito não só é complexo porque dá a possibilidade de pessoas mal-intencionadas de usar a liberdade de expressão para manipulação ou incitação ao ódio, mas também porque, de certa maneira, pode ser usado para reescrever a história. Um exemplo disso é a comparação entre o comunismo, que já teve diversas faces autoritárias ao longo da história que não condizem com a totalidade da ideologia, e o nazismo.

Essa comparação não é nova e até foi utilizada por alguns veículos de comunicação durante as décadas de sessenta e setenta, mas ressurgiu ao longo dos últimos anos como um mote da extrema-direita moderna — repaginada como o argumento de que Hitler seria de esquerda. O presidente Jair Bolsonaro, em visita ao Museu do Holocausto, já afirmou “não ter dúvidas” que o ditador alemão “era de esquerda”. Dias antes, o ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou que a associação entre nazistas à direita do espectro ideológico pretendia minar a credibilidade da direita. Semanas depois, Bolsonaro disse “Podemos perdoar. Mas não podemos esquecer” o Holocausto. Além dos exemplos citados, há diversas reportagens recentes que investigam a relação ideológica e sociocultural entre o nazismo e o bolsonarismo. Porque esses exemplos importam?

Porque não só existem inúmeros exemplos da extrema-direita brasileira utilizando o nazismo como exemplo, como existem diversas semelhanças entre ambos os movimentos. Discorde ou não do movimento, mas em mais de cem anos de existência, o movimento comunista nunca pregou em sua ideologia a exterminação de grupos sociais em razão de uma superioridade intelectual ou racial.

Além de ambos os argumentos acima, há o óbvio: as características do nazismo somente reafirmam seu lugar no espectro da extrema-direita. Sobre isso, o historiador britânico e Professor de História Moderna na Universidade de Sheffield, Ian Kershaw, diz: “[Hitler] desconhecia completamente qualquer compreensão formal dos princípios da economia. Para ele, como ele declarou aos industriais, a economia era de importância secundária, totalmente subordinada à política. Seu descarado social-darwinismo ditou sua abordagem da economia, assim como toda sua “visão de mundo” política. Como a luta entre as nações seria decisiva para a sobrevivência futura, a economia da Alemanha tinha que ser subordinada à preparação, e depois à realização, desta luta. Isto significava que as idéias liberais de competição econômica tinham que ser substituídas pela sujeição da economia aos ditames do interesse nacional. Da mesma forma, quaisquer ideias “socialistas” do programa nazista tinham que seguir os mesmos ditames. Hitler nunca foi um socialista. Mas embora ele defendesse a propriedade privada, o empreendedorismo individual e a concorrência econômica, e desaprovasse a interferência dos sindicatos e dos trabalhadores na liberdade dos proprietários e gerentes de administrar suas preocupações, o Estado, não o mercado, determinaria a forma do desenvolvimento econômico. O capitalismo foi, portanto, mantido no lugar. Mas em operação, ele foi transformado em um coadjuvante do Estado”. Não só isso, é crucial relembrar que meses após o nazismo chegar ao poder, diversos socialistas e comunistas foram presos e assassinados.

Como comunicador, Aiub não possui nenhuma obrigação de ser político. Ele poderia utilizar sua plataforma para falar de música e cultura, ou sobre videogames, como fazia anteriormente. No entanto, ao falar sobre política, vivendo em um país que passa sua pior crise política da história, é preciso responsabilidade. Se eu, como editora-chefe deste veículo, escrevesse um ensaio afirmando — e não questionando — uma suposta ligação entre comer crianças e a juventude eterna, eu seria responsável, mesmo que indiretamente, por qualquer leitor que fizesse tal ação acreditando no que escrevi. Usando o nazismo de exemplo, Aiub se torna responsável, mesmo que indiretamente ou sem intenção, sobre quaisquer jovens que tenham uma aproximação com a extrema-direita ou adentrassem um movimento nazista. É preciso saber a diferença entre responsabilidade e cancelamento. Um indivíduo que possui uma plataforma gigantesca possui uma responsabilidade com seus ouvintes, porque os influencia culturalmente — através de um ‘contrato social’ não implícito, basicamente.

Além de tudo isso, há uma diferença que noto entre o ocidente e oriente. A formação política ocidental sempre começa no âmbito individualista — o que uma pessoa sente pessoalmente sobre aquilo ou como aquilo a afeta individualmente — e, em vários momentos, evolve para algo do coletivo. Discussões como o aborto, por exemplo, não são vistas como um problema de saúde coletiva tampouco uma questão envolvendo classe e planejamento familiar, mas como um direito individual da mulher de realizar o aborto ou não. É certo que é melhor nos contentarmos com pouco do que com nada, mas essa estrutura de pensamento é danosa.

Os argumentos de Aiub também sempre foram baseados no que ele acreditou sobre tal assunto — ou como ele se sentia emocionalmente sobre aquilo. Não em dados, estatísticas, conceitos filosóficos/sociológicos ou a história, mas nele — e esse tipo de visão é extremamente danosa. Você não precisa estudar e dedicar tempo e atenção a coisas importantes para montar uma formação política e social, você pode somente dizer o que você acha que está certo com a motivação de vencer o debate.

O programa foi tirado do ar, Aiub foi demitido do estúdio. Não acredito que isso tenha muito impacto sobre o público, considerando a retórica jovem se interessar por coisas rejeitadas pela sociedade e que, afinal, boa parte dos ouvintes deve concordar com os pensamentos reproduzidos. Ele provavelmente continuará sócio da empresa nos bastidores, recebendo lucro do estúdio, e será convidado para debater liberdade de expressão em outros veículos de comunicação. A lição que fica, no entanto, é que a pressão popular importa quando bate no financeiro — e, quem sabe, a população geral compreenda a importância desse tipo de movimento, ao invés de esperar que as pessoas aprendam a tomar as decisões corretas.

Sabiá

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