O passado mata para sobreviver

O passado nunca morre. Nem sequer é passado.

William Faulkner

Há pouco mais de uma semana, Moïse Kabagambe morreu assassinado no quiosque Tropicália, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Trinta e nove pauladas de taco de beisebol. Por conta da brutalidade do ato, somada à ação intensa do movimento negro, assim como da comunidade congolesa articulada à família de Moïse, o acontecimento alcançou o grande público. Apesar de alcançá-lo somente após alguns dias, após demandar um esforço imposto cruelmente pelo racismo estrutural brasileiro aos mais agredidos — os quais têm de gritar gritos gritados há séculos para talvez conquistar um pouco de atenção, um pouco de justiça.

Espalhados pelo Brasil, pelo mundo, há vários homens e mulheres imensamente mais qualificados do que sou para discutir o racismo, alguns dos quais dedicam uma vida inteira para estudá-lo, bem como para erradicá-lo por meio de uma práxis transformadora. Por isso, peço licença para esboçar breves comentários, articulado a dois autores consolidados. 

Desejei, em janeiro de 2022, ler proporcionalmente mais não ficção do que ficção. Assim, apenas li a Metamorfose pela terceira vez — infectado pela Ômicron, me senti um pouquinho como Gregor Samsa: carente de afeto, isolado no quarto silencioso. Com o intuito de compreender mais o racismo, li A liberdade é uma luta constante, um compilado de palestras transcritas mais textos da ativista, filósofa, professora e escritora Angela Davis. Na obra — curta, didática e introdutória —, a autora perpassa por questões caras a ela, tais quais a interseccionalidade das identidades e das lutas sociais, o abolicionismo penal e a característica fundamentalmente coletiva das conquistas populares. Davis, que escreve com foco no racismo dos Estados Unidos, também auxilia a observar com menos ingenuidade as engrenagens do sistema racista brasileiro.

No Twitter, vi pessoas comentarem que a raça era pouco (ou nada) relevante para a compreensão do assassinato de Moïse; sustentavam a hipótese com base no fato de que os agressores eram negros. A questão, contudo, é que uma estrutura social tão racista como a brasileira — fundada sobre quatro séculos de escravidão somados a desigualdades socioeconômicas abismais — opera para que trabalhadores matem trabalhadores em nome dos patrões. Em 2020, 4 a cada 5 pessoas mortas pela polícia brasileira eram pretas ou pardas; entre os agentes de segurança, há negros: ou seja, policiais negros matam homens negros. Eis uma das tantas contradições do capitalismo brasileiro. Tal contradição, porém, é comum em outros países, ainda mais nos que possuem um histórico de escravismo e/ou apartheid.

Como exemplo, transcrevo um caso ocorrido na África do Sul, em 2012, discorrido por Angela Davis: “Vi recentemente um filme sobre os mineiros de Marikana, atacados, feridos e muitos deles mortos pela polícia. Os mineiros eram negros, os agentes policiais eram negros, a chefe de polícia da província era uma mulher negra. A chefe da força policial nacional é uma mulher negra. (…) O racismo é tão perigoso porque não depende necessariamente de atores individuais; ao contrário, está profundamente enraizado no aparato… E uma vez que você está no aparato (…) A tecnologia, os regimes, os alvos continuam os mesmos”.

Elza Soares, na canção A Carne, delineia as consequências perversas de erguer uma democracia sobre os escombros de uma abolição sem nenhuma política de reintegração socioeconômica, como ocorreu no Brasil. É a carne negra, canta ela, “Que vai de graça pro presídio / E para debaixo do plástico / E vai de graça pro subemprego / E pros hospitais psiquiátricos”. Corpos presos, mortos, subempregados, patologizados — tamanha agressão, em vez de estimular empatia, provoca apatia, indiferença. Deitados no concreto das ruas, trancafiados nas prisões, condicionados a ocupar posições subalternas, enviados aos hospícios… a agressão contra a carne negra se institui feito norma. “Só cego não vê”.

Como versificado por Emicida em uma música homônima do poema Ismália, escrito pelo poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens (1870 – 1921), nas terras brasileiras “existe pele alva e pele alvo”. Banalizada desde os primórdios da colonização portuguesa, a violência contra negros desperta os brasileiros vez ou outra. Alguns erroneamente consideram tais acontecimentos como “extraordinários”. São, pelo contrário, ordinários, ordinariamente ordinários.

O passado, que lança garras assassinas no presente, mata para sobreviver; os detentores de poder auxiliam na matança, porque desejam manter a ordem social benéfica a eles — existe, porém, resistência. Sempre há ameaças de rupturas à espreita: às vezes tão aparentemente silenciosas feito o vento. Ademais, existem outros vários modos de se relacionar com o passado — os quais, em vez de servirem à morte, servem à vida.

Angela Davis traz outras reflexões valiosas que destacarei a seguir, com o intuito de estimular a reflexão crítica. Sobre a luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos nas décadas de cinquenta e sessenta, Angela aponta que cerca de 90% das mulheres negras eram trabalhadoras domésticas. Sem elas, a conquista jurídica alcançada pelo movimento talvez fosse impossível; Davis, então, destaca: “na verdade, foram principalmente mulheres em contextos coletivos, mulheres negras, mulheres negras pobres que eram arrumadeiras, lavadeiras e cozinheiras. Essas foram as pessoas que se recusaram coletivamente a tomar os ônibus”.

De fato, Martin Luther King e Malcolm X são lideranças negras importantíssimas, mas por trás deles existiu uma multidão de seres humanos apaixonados, corajosos, conscientes: pôr o coletivo na frente do particular é um dos focos de Davis. Daí se obtém uma conclusão: a mudança social é dependente de agentes históricos como nós, isto é, pessoas comuns — guardemos os messias para as narrativas fantásticas, como Duna. “É fundamental resistir à representação da história como o trabalho de indivíduos heroicos, de maneira que as pessoas reconheçam hoje sua potencial agência como parte de uma comunidade de luta sempre em expansão”, resume Davis. 

Por ser uma estudiosa de viés marxista, Angela Davis considera a classe social como uma categoria fundamental para a análise sociológica. A classe, porém, se materializa em seres humanos no devir da História, os quais têm etnia, gênero, orientação sexual, etc. Assim, aponta a filósofa, a classe trabalhadora tende a ser composta por um número significativo de minorias sociais: no contexto brasileiro, por exemplo, é de maioria negra. Por isso, a classe social tem de ser compreendida em conjunto das demais identidades, as quais se agregam, se entrelaçam — sem jamais se excluir — nos sujeitos concretos. Para relembrar: Moïse Kabagambe era um jovem negro, imigrante africano (da República Democrática do Congo), pobre (da classe trabalhadora, portanto) — mataram-no pelo entrelaçamento de identidades desumanizadas, pelo acúmulo de opressões em um único corpo. São os ecos assustadores do passado-presente escravocrata brasileiro, os quais ressoam diariamente em um tropicalismo traiçoeiro de chibatas arcaicas e de suntuosos condomínios à beira-mar.

Para finalizar, transcrevo um longo trecho escrito por Elias Canetti em Massa e Poder acerca dos linchamentos — tão comuns, normalizados e estimulados nas áreas nobres do Rio de Janeiro; nas primeiras semanas do verão de 2022, contabilizaram-se 12 tentativas de linchamento nas praias cariocas. “Uma forma desavergonhada de malta tem-se ainda hoje em todo e qualquer ato de justiça por linchamento. A expressão é tão descarada quanto aquilo que ela designa, pois, trata-se aí, na verdade, de uma supressão da justiça. Não se considera digna dela a pessoa inculpada. Tal pessoa deve morrer feito um animal, sem direito a nenhuma das formalidades usuais entre os homens. A diversidade de sua aparência e conduta, o abismo que, para os assassinos, os separa de sua vítima, torna-lhes mais fácil tratá-la como um animal. (…) As crueldades que os homens se permitem no ato de linchamento explicam-se possivelmente pelo fato de não poderem eles devorarem sua vítima. Provavelmente, veem-se como homens porque não cravam nela os dentes. (…) É a ideia dessa superioridade que se afigura insuportável aos vingadores e os compele a unirem-se contra ele. (…) Seu assassinato afigura-se lícito e imperioso aos vingadores, proporcionando-lhes franca satisfação”.


Bibliografia:
CANETTI, Elias. Massa e Poder.
DAVIS, Angela. A liberdade é uma luta constante.

Agradeço a Luiza Berthoud, que me auxiliou no aprimoramento do texto, sugerindo recorrer a peças artísticas para ilustrar os argumentos expostos.



TEM UMA PAUTA?
ESTAMOS AQUI!

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser anônimo, tá?


Em destaque

RECENTES

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos, que busca usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança no futuro das novas gerações.