Sexualização e objetificação dos idols

Ao nos depararmos com o universo do K-pop, vemos em um gênero musical que movimenta uma grande massa de pessoas de todas as idades, geralmente predominando jovens e adolescentes. Por outro lado, os idols em sua maioria também são jovens e adolescentes. Muitos ídolos debutam — estreiam na carreira musical e midiática — cedo ainda adolescentes ou pré-adolescentes nos fazendo refletir se é correto tal ascensão dessas pessoas com tão pouca idade, aliás espera-se que apenas estejam na escola, que brinquem, se divirtam com colegas da mesma idade e sejam jovens “normais”.

Dentre idols que debutaram muito cedo temos Jungkook do grupo BTS que debutou com 15 anos, Ni-ki do grupo Enhypen que debutou com 14 anos em 2020 sendo um dos finalistas do programa I-Land, Samuel ou 1PUNCH que debutou com apenas 11 anos e o maknae do SHINee Taemin que debutou aos 14 anos, dentre outros. Dentre as idols meninas, a Minzy do extinto 2ne1 estreou com 15 anos, BoA debutou com 13 anos como solista, Somi fez sua estreia com 15 anos no I.O.I. sendo uma das finalistas do programa Produce 101, Krystal com 14 anos no f(x), Hayoung com 14 anos no Apink, Sohyun com 14 anos no extinto 4minute, e tantas outras garotas. Além desses idols citados, o grupo GP Basic estreou com integrantes em que sua média de idade eram 13,5 anos, sendo a Janey a mais nova com 12 anos, o que gerou diversas controvérsias sendo ela impedida de se apresentar nos programas de televisão, devido a esse acontecimento surgiram novas regulamentações sobre trabalho artístico infantil na Coreia do Sul. Mas além desse grupo, surgiu o grupo G-Story onde as integrantes tinham em média 9,75 anos e devido as novas regulamentações o grupo está inativo desde 2011.

Considerando esses feitos conseguidos tão cedo por esses artistas devemos mentalizar que consequentemente eles terão que lidar com situações de cunho profissional, porém infelizmente os mesmos também podem se encontrar em situações desconfortáveis e constrangedoras, dentre elas a sexualização de seus corpos por parte dos fãs, e logicamente isso se torna ainda mais inadequado quando acontece com artistas tão jovens. A sexualização é o ato de objetificar corpos alheios, deseja-los e trata-los até alcançar o apelo pejorativo extrapolando a sensualidade. A sensualidade, por sua vez, é a forma como o ser humano instiga o outro através dos sentidos para desejos sexuais, sendo esse diferente do primeiro conceito, já que é feito de forma sutil e natural.

O ato de sexualizar muitas vezes é nutrido e incentivado pelas empresas que cuidam dos idols trazendo conceitos sensuais, roupas e danças sugestivas. Para os homens é muito comum o ato de mostrar a barriga, — ou o famigerado ABS, abreviação de abdômen six-pack fazendo alusão aos músculos da barriga — usando croppeds, e mostrar os músculos dos braços e das costas com camisas transparentes, cheias de furos ou “rasgadas”. Nas meninas as roupas se apresentam mais curtas sendo saias e shorts, e os passos feitos durante a coreografia são sugestivos e intencionais para se mostrar um pouco mais. Uma problemática que podemos discutir aqui seria acerca do chamado “conceito fofo” em que muitos fãs homens gostam por infantilizar as garotas, fazendo parece-las vulneráveis e sensuais.

Por incrível, estranho e absurdo que pareça grande parte desses fãs acham esse conceito de certo modo “sensual” ou “sexy” por alcançar o perfil de menina ou mulher almejado pelos homens heterossexuais alcançando o conceito “male gaze” que nada mais é que a mulher em seu estado de objetificação e apreciação sendo inferior e inofensiva em relação ao homem — enfatizando, hétero. Em relação a isso, muitos fãs do Red Velvet, o fandom Reveluv, repararam em muitas apresentações feitas pelas meninas, que as mesmas, principalmente a maknae (integrante mais nova) Irene, se sentiam desconfortáveis ao executar as coreografias de suas músicas por estarem trajando saias e vestidos muito curtos, e em vários vídeos e fancams é nítido o desconforto visto que as integrantes necessitavam puxá-los para baixo a todo momento.

Mas não são só as meninas que se encontram em momentos incômodos, apesar do conceito um pouco sexy da era Fake Love do grupo BTS, o Jungkook se viu desconcertado em uma de suas apresentações feitas durante as promoções do álbum Love Yourself 轉: Tear. Em um momento da coreografia onde os meninos estão enfileirados, o integrante RM puxa a camisa de Jungkook, porém foi com tanta força que acaba desabotoando grande parte dos botões, em entrevista, o integrante já havia dito que se sentiu muito envergonhado e também se sentia dessa forma nas vezes que precisava mostrar o abdômen. Muitos fãs, questionaram a confecção das roupas dos meninos cogitando que fossem feitas com material mais fraco ou em tamanhos menores aos corpos dos meninos propositalmente, visto que não seria a primeira vez que isso acontecia com o grupo, os membros Jimin e RM também já tiveram suas camisas rasgadas em palco.

Como pode ter notado, muitas dessas situações aconteceram com os maknaes, o que é um absurdo, dado coagidos desde novos a se comportarem sendo sexualizados pelos fãs que infelizmente os enxergam de um jeito perverso.

Práticas absurdas também são desenvolvidas pelos fãs quando começam a utilizar a imagem dos idols para escrever fanfics e desenhos com teor adulto. As ‘fanfics’ são histórias fictícias que geralmente fãs anônimos fazem utilizando artistas e personagens que já existem. Porém, é necessário ressaltar que nas fanfics para maiores de dezoito anos são relatadas cenas de violência e sexo, muitas vezes de forma explícita e com palavras chulas, são as chamadas “real person slash”. Visando acabar com esse problema, alguns fãs se juntaram para abrir uma petição contra essas histórias alegando ser crime sexual digital — e a petição já contém mais de 161.906 assinantes.

Outro problema que acontece nos fandons — conjunto de fãs — seria o ato de “shippar”, ou seja, almejar que os idols estejam namorando ou nutrindo interesses sexuais entre si independentemente se as relações amorosas existem de fato. Ao analisarmos esse desejo estimulado dos fãs se torna um ato invasivo de modo que tentam impor relações amorosas entre pessoas que apenas são amigas e colegas de trabalho, o que é constrangedor para eles, e no momento que tentam também impor uma sexualidade, já que muitos não deixam claro assuntos pessoais como sua sexualidade.

Infelizmente, podemos notar que a sexualização dos corpos e sua exploração de forma desconfortável e até constrangedora é explorada pelas empresas de entretenimento, incluindo as empresas que alimentam a onda Hallyu, de modo onde a incitação ao sexo se torna produto de consumo e apreciação para o adolescente e o jovem, desvalorizando os ídolos, seu talento e trabalho duro. Tal ideia pode ser reforçada pela seguinte frase proferida em entrevista por Jeonyul, membra do extinto grupo Stellar: “Nós queríamos levar a música de Stellar para o público. Quando não mostrávamos nossa pele, ninguém sequer sabia que havíamos lançado uma música nova. Se não é provocativo, não obtemos resposta.”



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