Ela habita todos os espaços intrínsecos que existem em mim e que eu não acesso. Nos cantos em que não a ouço, nos momentos em que não consigo nenhum vislumbre poético que me permita o lapso de pensamento e que faça com que eu escreva qualquer coisa. Nas músicas em que não há nenhuma epifania, nas conversas profundas em que nada sinto. Ainda assim, ela está presente, mesmo que eu não a veja. Nessas horas, penso, clamo, insisto, suplico e a resposta: o mais profundo silêncio. Nenhuma linha, nenhum insight, zero. A isto chamo de uma espécie de estado vegetativo, pois nada até hoje me fez sentir mais viva como quando, ao acaso, sua beleza aparece e me permite experienciar a existência toda abobada por puro encanto. E foi assim que comecei esse texto, sem saber do seu desenrolar. Logo adianto, querido leitor, que se você é do tipo que sempre sabe como começar qualquer coisa, de você, eu sinto inveja.

Esses dias, li algo que dizia que a arte nos chamava mesmo se corrêssemos aos montes dela se você dela pertencesse, e me soou estranho. Primeiro porque não sou familiarizada com o buscar e encontrar, o que acho que seja grave, e segundo que não acho ela seja algo que se busca e que se encontra. Mas se for, espero que me digam logo pois preciso descobrir como e quando reaver nos momentos em que ela me faltar. Nunca aconteceu, mas deve ser incrível.

Quando criança, senti vontade de escrever. Minhas sensações não poderiam ser descritas tão facilmente sem a gênese de um entendimento analítico mais profundo. Ainda não sei qual nome dar. Nesse trajeto não lembrar da Elis é uma tarefa impossível. Tudo porque a vizinha quis escutá-la naquele dia, naquela hora e naquele segundo, apenas uma parede nos separava, e foi graças a essa parede frágil que fiquei atônita e boquiaberta como quando se descobre uma preciosidade nunca vista, ali senti que valia a pena existir pela primeira vez. Duas cenas ficaram na memória: a televisão antiga que passava uma propaganda de um CD que se chamava Perfil, e eu nunca mais esqueci aquela voz cantando “Ma, Mamada, Oh Madalena…”. Aquela vizinha, com seu vinil, me fazendo paralisar o corpo, a mente e toda a minha atenção infantil só para continuar escutando cada vez mais. Há dias que não sei se inventei essa história ou se realmente ela me ocorreu. Devaneio e realidade se misturam ilogicamente ao cotidiano e é assim. Porém, pesquisando, vi que o lançamento deste CD foi em 2003 e agora sei que não foi invenção. Depois veio a Clarice, e outro enorme choque, lia trechos dos livros, ficava estarrecida, os fechava e pensava: como pode alguém escrever dessa forma? À ela todo o meu profundo amor, pois se escrevo qualquer coisa, foi porque uma vez a li.

Eis então a minha tentativa de encontrar de novo o êxtase da emoção, pois entrando em contato com as lembranças e revivendo os sentimentos, me firmo na esperança de que a poesia volte a habitar meus espaços inacabados. Foi quando parei de escrever de novo essa coluna a deixando pela metade. Havia perdido o compasso e a fluidez da palavra e nessas horas desistir sempre parece uma ótima ideia. Levantei-me da cadeira, caminhei até a sala e fui atraída para o noticiário com o relato de que alguém que mora na mesma cidade que eu havia perdido a carteira e que nela estava o salário do mês. Em seguida um casal encontrou a tal carteira e procurou o dono sem desistir até encontrá-lo. E para o meu espanto do procurar e não encontrar, do que não se viveu e por isso não se conhece, o encontraram e devolveram seu pertence.

Agora me caiu a ficha de que é preciso estar desatento para que a magia aconteça, pois em um mundo de muitos deveres e obrigações perde-se a conexão com o que pulsa. Chorei alguns minutos com o feito do casal e pensei: bom, nem tudo está perdido. Nessa hora, a poesia se fez.

Sabiá

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