Uma das culturas que mais ganhou destaque na era da internet é a dos hackers, o incisivo grupo underground mais ‘hiper informado’ que se deliciam com a estrutura digital propiciada pela própria Internet  — às vezes agem pelo bem, às vezes para o mal e às vezes apenas porque podem. São indivíduos que se juntam com ou sem objetivos, invadem redes de governos e organizações, bancos e corporações. Gostam de mostrar que podem desfigurar um site, controlar seu tráfego ou expor documentos e dados. Na última década, dois dos maiores nomes da cultura hacker foram o WikiLeaks, fundado por Julian Assange, e o Anonymous, o coletivo sem liderança que passou a ser associado à imagem de Guy Fawkes, um revolucionário católico inglês enforcado em 1606 e ainda é queimado anualmente em efígie, na Inglaterra.

Embora o WikiLeaks e o Anonymous tenham colaborado no passado, eles são grupos distintamente diferentes. Este último é conhecido como um grupo politicamente progressista, chamando a atenção para protestos impulsionados organicamente pela Internet, desde o movimento Occupy Wall Street até a Primavera Egípcia, o protesto em massa contra a Igreja da Cientologia e a cultura do estupro. Mas nem sempre foi assim para o Anonymous. 

Gabriella Coleman, autora de ‘Hacker, Hoaxer, Whistleblower, Spy: The Many Faces of Anonymous (2014)’ e Professora na McGill University em Montreal, discute a evolução do Anonymous em “How Anonymous Dodged the Cyberterrorism Frame: Masking, Timing, and the Guy Fawkes Icon”.“Anonymous nunca foram ativistas”, diz Coleman. “Houve uma grande reviravolta acidental que aconteceu porque eles começaram a perseguir a Igreja da Cientologia. Decidi segui-los porque já estava trabalhando em um projeto sobre geeks, hackers e cientologia.” Segundo Coleman, ela estava fazendo pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Alberta, que por acaso tem uma enorme base de dados de documentos relacionados à Cientologia. Ela ficou interessada em como a configuração da Igreja da Cientologia era uma inversão da ética hacker comum. “Era tudo sobre sigilo, ter uma religião proprietária comprometida com ciência e tecnologia falsas. Representa tudo o que os hackers odeiam.” Muitos jornalistas tentaram identificar exatamente quem ou o que é o Anonymous, sem sucesso até hoje. Certamente, alguns hacktivistas do Anonymous foram expostos, presos e até processados por crimes cibernéticos, enquanto outros que se identificam sob a bandeira do Anonymous nunca violariam a lei para atingir seus objetivos. Outros ainda quebram essa barreira, dependendo de sua moral e ética pessoal. 

Os membros do Anonymous — chamados Anons — evitam crédito pessoal e demonstrações diretas de liderança e, embora enfatizem coletivamente a importância da liberdade de expressão, os códigos de conduta em seus canais de IRC (Internet Relay Chat) costumavam ser rigorosamente aplicados. Na época, Coleman se juntou aos IRCs dos anons e ganhou sua confiança, sempre sendo transparente sobre ser uma pesquisadora acadêmica trabalhando em um projeto literário.

Ativismo de impacto dos Anons

Desfilam nas páginas de ‘The Many Faces of Anonymous’(2015) outros hackers eminentes como Mustafa al Bassam, ou Tflow, membro da ramificação LulzSec, filho de uma rica família de iraquianos radicados em Londres que foi preso aos 16 anos – “uma pessoa brilhante, desmontava todos os estereótipos” – e que trabalhou para a organização Privacy International. Ou Donncha O’Cearbhaill, irlandês que estudava Ciências Químicas na Universidade de Trinity, na Irlanda, e que, após passar pelo Partido Pirata, trabalha na organização Equalitie — “busca os mesmos objetivos”, diz Coleman, “mas por meios legais”.

Coleman derruba o mito de que o Anonymous funciona como uma colmeia na qual ninguém detém o poder. “Existem estruturas múltiplas. Em 2011, os hackers que foram parte do Anonymous e logo de [suas ramificações] LulzSec e AntiSec acumularam tremendo poder e atenção por suas operações de hacking”. A imprensa sempre procurou um líder, mas eram equipes divididas em função de tarefas diferentes: havia estrategistas, organizadores, agitadores, hackers. Alguns se conheceram pessoalmente — houve até casamento. “Muitos, como os integrantes do LulzSec, nunca se viram frente a frente”, conta Coleman.

Anonymous nunca se recuperou totalmente das fragmentações. Pequenos grupos de Anons permaneceram, mas a energia por trás da bandeira se dissipou.

A ação de maior impacto do Anonymous nos anos seguintes veio em apoio aos protestos de 2014 em Ferguson, Missouri. Em resposta à morte de Michael Brown a tiros pela polícia, o grupo desativou os servidores da cidade e divulgou o endereço residencial do chefe de polícia. Quando as autoridades não foram informadas sobre os detalhes da morte de Brown, o Anonymous vaza gravações de áudio de despachantes de emergência discutindo o incidente. Sendo assim, em 2016, os hacktivistas do Anonymous voltaram aos lugares onde antes se organizavam — salas de bate-papo e fóruns adjacentes ao 4chan — e começaram a lutar contra uma ação de retaguarda. Em 2018, o Anonymous declarou guerra ao “QAnon”, uma bizarra teoria da conspiração da extrema-direita que havia sido iniciada no 4chan no ano anterior por trolls da ‘nova geração’ de ‘alt-rights’, mas desde então se espalhou para o discurso republicano dominante nos EUA.

Hoje, o coletivo está mais cauteloso do que nunca, muitas vezes se perguntando abertamente quem entre eles são policiais ou informantes. Eles não se organizam mais no bom e velho Internet Relay Chat (IRC), acreditando que pode ser uma via mais comprometida, preferindo mensageiros criptografados de ponta a ponta mais modernos, como Wire, Gajim ou Signal. Para as mídias sociais, os Anons usam quase exclusivamente o Twitter, sentindo que outras empresas não fazem o suficiente para proteger a privacidade dos usuários.

 É interessante notar que, hoje em dia, depois que a nova geração de adolescentes começou a frequentar as salas de bate-papo do Discord, uma curiosidade coletiva fenomenal surgiu sobre como poderiam se juntar ao Anonymous. A resposta das maiores contas do Anonymous no Twitter foi simples: faça você mesmo.