Um dia acordei com uma vontade exuberante de comer um chocolate de uma marca específica. Saindo da loja de conveniência dei minha primeira e mais vantajosa mordida, em sequência mais uma, alguns momentos depois outra e…acabou.

Me indagava como poderia ter acabado tão rápido, até me dar conta do pedaço de rótulo na minha mão, que estampava uma mensagem grafada informando a redução de peso. Para o meu assombro: eles vendiam aquilo como algo positivo para o consumidor, algo como “PRATICIDADE, AGORA CABE NO BOLSO”. Para o meu segundo e maior espanto: o preço continuava o mesmo de outrora, se não mais caro.

Desde então, isso é algo que vem me incomodando ainda mais nessa última década, as prateleiras repletas de mini-coisas, nos fazem sentir como Gulliver. O preço não condiz, os produtos acabam rápido e nada realmente parece nos satisfazer por mais que poucos minutos.

Essa prática é conhecida como “reduflação”, um subterfúgio das empresas para esconderem a inflação, uma tática que reduz a porção do produto em vez de elevar os preços do mesmo no mercado. Essa prática não é incomum, tampouco ilegal. Para a ABIA (Associação Brasileira da Indústria dos Alimentos) as reduções no peso ou quantidade de produtos são definidas pelas empresas de acordo com a demanda de mercado, pesquisas, mudanças de necessidade e comportamento de compra do consumidor. A ABIA diz que suas associadas informam de forma clara quaisquer alterações quantitativas no painel frontal da embalagem, em letras de tamanho e cor destacados.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cerca de 11 milhões de brasileiros são analfabetos. Ou seja, pouco importa se essas pessoas possam estar comprando produtos e alimentos sem ao menos se dar conta de que eles estão encolhendo na palma de suas mãos.

 Fora isso, a redução estampada nas embalagens com uma premissa de praticidade, alimentação equilibrada e evito de desperdícios, se configura como propaganda enganosa para a população. Povo esse que sempre sofreu na mão de grandes empresas nas relações de consumo abusivas com um toque de publicidade apelativa e pitadas de desestímulos para com a responsabilidade financeira.

A maquiagem da inflação se desfaz quando passamos a olhar com atenção. A conhecida dúzia de ovos, agora vem dez; Se torna cada vez mais comum sacos de açúcar com o peso de 800 gramas; Embalagens de biscoito cada vez menores. A sensação que o neoliberalismo nos passa é que podemos ter de tudo, desde que seja uma amostra dos mesmos. Uma porção que definitivamente vai terminar tão rápido quanto um sopro, sem ao menos nos darmos conta. Coexistimos na era das demonstrações pagas, todo produto que adquirimos com nosso dinheiro nos parece uma simplória amostra do real produto maior, porém não há, e se houver, não cabe no bolso do brasileiro, no sentido literal como eles pregam e metafórico.

A reduflação exagerada nada mais é que o culto a miséria em um país que está acostumado a essa palavra. Mas é uma miséria ardilosa e disfarçada de praticidade e leveza. O Brasil merece mais que amostras em sua prateleira, o Brasil merece um preço justo, o Brasil tem fome.