Somos, com menor ou maior intensidade, inimigos da cultura. Assim compreendia Sigmund Freud (1856 – 1939), um dos pais fundadores da psicanálise. O que o psicanalista compreendia por cultura? Primeiro, como algo inseparável da civilização. Para Freud, a cultura abrange o conjunto de saberes e de capacidades adquiridas pelo ser humano com o intuito de dominar as forças da natureza para satisfazer as necessidades dele. Ademais, torna possível a relação dos homens entre si por intermédio das instituições culturais, além de regular a divisão dos bens acessíveis entre os indivíduos.

A cultura humana nasceria como uma proteção dupla, isto é, tanto em relação à natureza quanto a outros seres humanos. O domínio do fogo se apresenta, por exemplo, como uma das conquistas culturais mais úteis à sobrevivência dos Homo sapiens. Com as chamas, conseguimos iluminar as paisagens noturnas — propícias a emboscadas de predadores —, de afugentar animais hostis, de esquentar o corpo em temperaturas baixas, de cozinhar as carnes cruas.

O fogo figura em uma quantidade enorme de mitologias humanas, perpassando pelas narrativas de diversos continentes. Para legar conhecimentos vitais às gerações vindouras, os mitos se manifestaram como tecnologias culturais universais dos povos primitivos. Revestidas de uma aura sagrada, de uma autoridade inquestionável, as histórias se perpetuavam por bastante tempo — garantindo, assim, uma vida mais segura aos humanos. Se a cultura é uma proteção dupla carregada de potencialidades positivas, por que seríamos inimigos de tamanha benção evolutiva? Para Freud, existem boas razões. Duas características humanas bastante difundidas são a disposição ao ócio e a supremacia do phátos (das emoções) frente ao logos (a razão) na condução das ações individuais. Sobre os Homo sapiens, diz Freud: “Argumentos nada podem contra suas paixões”. Tais atributos dificultam a colaboração entre o homem e a cultura, a qual demanda trabalho e reflexão racional.

Ademais, em cada ser humano residem impulsos sexuais e destrutivos, os quais são contidos pelos dispositivos culturais — jamais extintos. Para viver em uma coletividade, a renúncia às pulsões egoístas é uma condição obrigatória imposta pela exterioridade. Assim surgiram as proibições primordiais: o assassinato, o incesto e o roubo. As restrições culturais se firmaram como mecanismos de pacificação social, de coesão, de coexistência, de colaboração, porém se mantiveram agressivas à psique dos indivíduos. Em adição, os oprimidos de uma civilização são mais propensos a hostilidades com a cultura, porque as instituições os privam mais do que aos opressores, embora os últimos também estejam cerceados em algum grau.

O mito edípico ilustra como os antigos compreendiam as proibições culturais. Na narrativa, desesperado por fugir do Destino a ele imposto, Édipo assassina o pai e transa com a mãe — em ambos os casos, inconsciente do parentesco entre eles. Por conta das transgressões de Édipo, feito rei de Tebas, uma peste violenta se abate sobre a cidade. Para aplacar o castigo coletivo, apenas punindo o assassino do soberano anterior, ou seja, castigando o próprio Édipo. O enredo memorável, de cunho moralizante comum às peças gregas, traz algumas mensagens potentes; extraio uma delas: caso as principais restrições impostas pela cultura — o assassinato, o incesto — sejam transgredidas por uma única pessoa, toda a coletividade será prejudicada, punida pelos deuses. Para proteger a todos, a cultura tem de proibir — é proibido proibir a proibição cultural.

A origem divina das proibições primordiais é tratada por Freud no livro O futuro de uma ilusão (1927). Segundo ele, ao atribuir às restrições culturais a vontade suprema de deuses-todo-poderosos, elas se revestem de um poder de coerção intenso. O psicanalista, contudo, alerta para a desvantagem de tal processo: caso a fé nas divindades proibidoras se dissolva, os argumentos para inibir as forças antissociais e anticulturais dos homens se dissolvem em conjunto. Por isso, Freud defende uma tentativa de educação moral laica, racional, imune aos possíveis descrentes. Seria possível, acredita ele, manter as proibições fundamentais à convivência social humana com base somente em argumentos científicos e filosóficos, além de que tais inibições seriam mais mutáveis, mais flexíveis, comparadas às de cunho religioso.

Na contemporaneidade, são comuns debates sobre os limites das liberdades individuais, como a de expressão do discurso, bem como sobre a suspensão de práticas prazerosas, embora prejudiciais do ponto de vista socioambiental, feito o consumo de produtos de origem animal. Em uma colocação pertinente ao século atual, Freud expõe uma hipótese: “Aguardam-nos, possivelmente, evoluções culturais nas quais outras satisfações de desejo, hoje de todo possíveis, parecerão tão inaceitáveis quanto agora as do canibalismo.” A partir dela, cabe o questionamento: seria uma tendência inevitável do progresso cultural o crescimento das proibições?

A cultura ocidental contemporânea compreende a liberdade como um dos valores mais importantes, vide a força simbólica da Estátua da Liberdade dos Estados Unidos. A partir das intuições freudianas sobre a cultura — proibitiva, agressiva —, alguém perguntará: “Qual é a solução? Destruir a cultura, a civilização?”. A resposta é não, quase-inimigo-declarado da cultura. Sobre tal intenção, Freud diz: “apenas um indivíduo, no fundo, poderia se tornar irrestritamente feliz através da abolição das restrições culturais: um tirano, um ditador que tivesse se apossado de todos os meios de poder (…)”. O Estado de Natureza, isto é, a ausência de cultura, de civilização, é o ambiente do mais forte — reino da desigualdade, da violência e da insegurança. Resta aprimorar as instituições da cultura atual, porque elas são passíveis de transformação, de inclusão, de melhora para a promoção da dignidade humana. A questão é compreender a imperfeição inerente à vida em sociedade, demandante de proibições, de coerções.

Para finalizar, proponho um possível paradoxo da cultura atual. Segundo Freud, “a tarefa capital da cultura”, “sua verdadeira razão de ser”, é defender os seres humanos da natureza. O psicanalista, porém, alerta para a resistência de forças naturais incontroláveis: “a terra, que treme, se fende e soterra tudo que é humano e obra do homem; a água, que, em rebelião, inunda e afoga tudo; a tempestade, que sopra tudo para longe; aí estão as doenças, que apenas há pouco tempo reconhecemos como sendo ataques de outros seres vivos; por fim, o doloroso enigma da morte, para o qual até agora não se descobriu nenhum remédio e provavelmente nunca se descubra.”

Assim sendo, qual o paradoxo contemporâneo? A cultura capitalista desenvolvida até o século XXI desregula tanto a natureza a ponto das intervenções humanas no meio, em vez de protegerem o homem — intenção basilar da civilização —, ameaçarem a existência vindoura da própria cultura, do próprio ser humano. O crescimento do nível do mar, da temperatura, das tempestades… a humanidade está cometendo um suicídio civilizacional em ritmo acelerado. O imperativo vital por multiplicar, manifestado nas danças ritualísticas de chuva dos antigos, desdobrou-se na obsessão de multiplicação das máquinas, das indústrias, das mídias digitais.

O planeta Terra viveu e viverá por incontáveis milênios sem os “animais astuciosos que inventaram o conhecimento”, tal qual Friedrich Nietzsche (1844 – 1900) nos definiu. As outras espécies provavelmente viverão aos montes, encherão as águas, as planícies, as montanhas. O problema diz respeito principalmente ao acidente probabilístico autonomeado Homo sapiens. “As criações humanas são fáceis de destruir, a ciência e a técnica que as construíram também podem ser empregadas na sua aniquilação.”, alerta Sigmund Freud poucos anos antes da concepção da bomba atômica, a destruidora de mundos. A cultura, gestada na aurora da humanidade como uma protetora, transmuta-se pouco a pouco num veneno lento, amargo e letal. Seremos aliados de uma sociedade-suicida ou inimigos-criadores de uma cultura-outra afirmadora da vida?