Humanos já deveriam estar preparados para combater a mudança climática


A mudança climática induzida pelo homem está sendo sentida em todo o mundo, representando uma ameaça crescente à saúde e ao bem-estar humano e aos ecossistemas.


Um painel de especialistas das Nações Unidas divulgou na segunda-feira um relatório inédito sobre como as mudanças climáticas estão afetando nossas vidas. O material conclui que a mudança climática não está apenas aumentando ameaças ecológicas — como incêndios florestais, ondas de calor, enchentes e aumento do nível do mar — mas está deslocando populações e comprometendo o abastecimento de alimentos e água.

As mudanças climáticas estão prejudicando a saúde física e mental das pessoas, com a crescente incidência de doenças transmitidas por alimentos e água, angústia respiratória por fumaça de incêndios florestais e traumas causados por desastres naturais. Tudo isso está aumentando.

A perspectiva não é positiva. O documento mostra como impactos do aquecimento global estão se tornando generalizados e severos ao redor do mundo e como essas consequências dificultarão a vida de sociedades e ecossistemas futuros, caso nações não reduzam drasticamente as emissões de gases efeito estufa. “Qualquer atraso adicional na ação global de antecipação conjunta”, diz o relatório, “perderá uma breve e rápida janela de oportunidade para assegurar um futuro habitável e sustentável para todos”.

Poucos países estão escapando dos efeitos das mudanças climáticas. Ondas extremas de calor mataram centenas de pessoas nos Estados Unidos e no Canadá, incêndios estão fora de controle na Sibéria e Austrália, inundações destruíram países como a Alemanha, China e o Brasil.

No meio de fevereiro, enchentes e deslizamentos de terra na cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro, causaram mais de duzentas vítimas e dezenas de desaparecidos, se tornando uma das piores tragédias climáticas da história recente. De acordo com as autoridades, choveu em apenas seis horas (260 mm) o equivalente aos últimos 30 dias anteriores (272 mm), o maior volume em 24 horas desde a década de cinquenta. Apenas dois meses antes, uma tempestade atípica deixou ao menos vinte e quatro cidades no sul da Bahia em situação de emergência, deixando ao menos 11 vítimas e afetou mais de 220 mil pessoas. A frente fria que impactou o estado da Bahia posteriormente seguiu para Minas Gerais, onde deixou mais de quatrocentas cidades em situação de emergência, mais de 55 mil pessoas desalojadas, 9 mil desabrigadas e ao menos 26 mortos.

Entre o final de dezembro e fevereiro, chuvas extremas em diferentes áreas do país causaram ao menos 308 mortes. Essas tragédias são, infelizmente, apenas o começo das consequências das mudanças climáticas no Brasil.

Foto por Francesco Ungaro em Pexels.com

Também há um alerta: se as temperaturas continuarem subindo, muitas partes do mundo enfrentarão limitações no quanto poderão se adaptar ao ambiente alterado. Se nações não agirem rapidamente para acabar com emissões de combustíveis fósseis e diminuir o aquecimento global, mais e mais pessoas sofrerão. Estima-se que entre 3,3 bilhões a 3,6 bilhões de pessoas habitam regiões consideradas “altamente vulneráveis às mudanças climáticas”.

Uma mensagem essencial do relatório é como a mudança climática aumenta a desigualdade social. Os impactos atuais da mudança climática já estão atingindo desproporcionalmente pobres, desfavorecidos e países de terceiro mundo. Um exemplo é a redução na produção de alimentos está aumentando em locais onde a pobreza já é abundante — e este padrão está projetado para piorar.

Em toda a África, o relatório constatou que a mudança climática já reduziu o crescimento da produtividade agrícola em 34% desde 1961 — mais do que em qualquer outra região do planeta. O aquecimento adicional encurtará as estações de crescimento e a disponibilidade de água. Em particular, o aquecimento acima de 2℃ resultará em reduções significativas de rendimento para as culturas básicas na maior parte do continente. Até 2050, a redução das colheitas de peixes poderá deixar até 70 milhões de pessoas na África vulneráveis a deficiências de ferro, até 188 milhões para deficiências de vitamina A, e 285 milhões para ácidos graxos de vitamina B12 e ômega-3.

Enquanto países de primeiro mundo investem fortemente em sistemas de defesa e mitigação dos efeitos climáticos, países mais pobres não têm outra escolha senão desviar recursos escassos, revertendo potencialmente o progresso feito no combate à pobreza. Mesmo sendo comprovado que países ricos são os responsáveis pelas mudanças climáticas, países pobres e em desenvolvimento também tem sua industrialização interrompida, criando um ciclo vicioso onde se faltam recursos para combater o aquecimento global, mas o meio de conseguir recursos impulsiona o aquecimento global.

“A mudança climática é a grande injustiça”, afirmou Ani Dasgupta, presidente do World Resources Institute, um movimento ambientalista. “Pessoas com menos recursos, as menos responsáveis pela crise climática, suportam o peso dos impactos climáticos”. Ele acrescentou: “Se você não vive em um ponto quente, imagine, ao invés disso, um telhado rebentado, um vilarejo bem dominado por água salgada, uma colheita fracassada, um emprego perdido, uma refeição pulada — tudo de uma vez, de novo e de novo”.

“Houve a suposição de que, ‘Bem, se não podemos controlar a mudança climática, vamos simplesmente deixá-la ir e nos adaptar a ela’”, disse Hans-Otto Pörtner, biólogo marinho na Alemanha que ajudou a coordenar o relatório. “Mas dados os riscos esperados à medida que o planeta continua aquecendo, essa é certamente uma abordagem muito ilusória”.

A insegurança alimentar e hídrica está aumentando e está afetando milhões de pessoas globalmente, “especialmente na África, Ásia, América Central e do Sul, em pequenas ilhas e no Ártico”, causada pelos impactos em cadeia das mudanças climáticas, como calor, seca e enchentes, diz o documento. Em média, o crescimento agrícola global diminuiu nos últimos cinquenta anos à medida que à Terra aquece, com a maioria dos impactos negativos ocorrendo em regiões de meia latitude e baixa latitude.

Nos níveis atuais de aquecimento, a capacidade da humanidade de se alimentar a si mesma já enfrenta tensão. A melhoria tecnológica proporciona um aumento na produção agrícola mundial, mas o relatório afirma que a mudança climática começou a diminuir a taxa de crescimento, colocando em risco o fornecimento e distribuição de alimento para mais de 8 bilhões de pessoas.

Se o aquecimento global atingir 1,5 °C — algo provável de acontecer ainda nas próximas décadas — cerca de 8% das terras agrícolas do mundo poderão se tornar inadequadas para o cultivo de alimentos, escreveram os autores. Recifes de coral, responsáveis por proteger as costas contra tempestades e sustentam a pesca para milhões de pessoas, enfrentarão mais frequentemente o branqueamento das ondas de calor do oceano e diminuirão de 70 a 90 por cento. O número de pessoas ao redor do mundo expostas a graves inundações costeiras poderia aumentar em mais de um quinto sem novas proteções. Já com 2 °C de aquecimento, entre 800 milhões e 3 bilhões de pessoas poderiam enfrentar escassez de água por conta da seca.

Cada pequeno aumento no aquecimento resultará em perdas e danos crescentes em muitos sistemas. O relatório constatou:

Em um cenário onde as emissões globais não diminuem, desastres mais frequentes e extremos levarão a mais de 250 mil mortes desnecessárias a cada ano em todo o mundo.

Estima-se que até 3 bilhões de pessoas vivenciarão escassez crônica de água devido à seca em 2℃ aquecimento, e até 4 bilhões em 4℃ aquecimento, a maioria através dos subtropicais até as latitudes médias.

Os danos projetados para inundações podem ser até duas vezes maiores em 2℃ aquecimento e até 3,9 vezes maiores em 3℃, quando comparados com danos em 1,5℃.

Até 18% de todas aquelas espécies avaliadas em terra estarão em alto risco de extinção se o mundo aquecer 2℃ até 2100. Se o mundo aquecer até 4℃, aproximadamente a cada segundo as espécies vegetais ou animais avaliadas estarão ameaçadas de extinção.

Mesmo o aquecimento abaixo de 1.6℃ verá 8% das terras agrícolas atuais se tornarem climaticamente inadequadas para as atividades atuais até 2100.


Em um comunicado à imprensa, o Painel Intergovernamental em Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), afirma que as alterações climáticas induzidas pelos homens estão causando “pertubações perigosas e generalizadas na natureza, afetando a vida de bilhões de pessoas em todo o mundo”. Hoesung Lee, diretor do painel, afirma que o documento é um alerta sobre as consequências da falta de ação, seguindo a dizer que as “ações de hoje moldarão a forma como as pessoas se adaptam e a natureza responde aos crescentes riscos climáticos”.

Foto por Gabriel Kuettel em Pexels.com

“O relatório do IPCC de hoje é um atlas de sofrimento humano e uma acusação condenatória de liderança climática fracassada”, declarou António Manuel de Oliveira Guterres, Secretário Geral das Nações Unidas, no comunicado à imprensa. As evidências no relatório de mais de 34.000 fontes científicas mostram como tempestades extremas, secas, enchentes, ondas de calor e incêndios — todos aumentando em gravidade e frequência devido às mudanças climáticas — estão prejudicando a produção de alimentos, interferindo com a pesca e a aquicultura; causando danos caros às cidades e à infraestrutura; e prejudicando a saúde humana.

O relatório recomenda que os líderes busquem estratégias mais pragmáticas e incisivas. A medida que os oceanos se elevam, as comunidades costeiras poderiam se deslocar para o interior, enquanto o desenvolvimento adicional ao longo de linhas costeiras vulneráveis poderia ser desencorajado. Melhorias nos serviços básicos como saúde, estradas, eletricidade e água poderiam ajudar a tornar as comunidades pobres e rurais mais resistentes contra os choques climáticos.

Mesmo se conseguirmos deter o aquecimento do planeta além de 1.5 °C neste século, veremos impactos profundos para bilhões de pessoas em cada continente e em cada setor, e a janela para adaptação está se estreitando rapidamente. Não é possível utilizar mais o meio-ambiente como uma barganha política e econômica, precisamos de ações urgentes.


relacionado/meio-ambiente


Tem uma pauta?
Estamos aqui

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser totalmente anônimo, tá?


  • Após infiltração, grupos bolsonaristas no Telegram reforçam moderação

    Após infiltração, grupos bolsonaristas no Telegram reforçam moderação

    ,

    Dois dias após o primeiro turno das eleições, usuários de esquerda passaram a infiltrar grupos bolsonaristas no Telegram. O resultado foi o reforço da moderação por parte dos administradores, e a aposta em teorias conspiratórias.

  • Todo fascista é corno

    Todo fascista é corno

    ,

    Não é difícil entender que a vontade de escrever é nula, assim como a vontade de acordar, sair da cama e realizar que esse bando de corno não tem mais medo de cantar aos quatro ventos: “sou fascista na avenida e minha escola é a mais querida dos reaça nacional!”.

  • No Telegram, bolsonaristas espalham fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste

    No Telegram, bolsonaristas espalham fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste

    ,

    Grupos bolsonaristas no Telegram reforçam táticas xenofóbicas e criam fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste.

  • Anunciando um novo modelo: notas

    Anunciando um novo modelo: notas

    Anunciamos as notas, reportagens curtas sobre temas relacionados às eleições de segundo turno.

  • A falta da política externa

    A falta da política externa

    , ,

    Às vésperas da eleição mais importante desde a redemocratização, e ainda sob efeito da ressaca moral que assola o país após o clássico debate presidencial da Rede Globo, a ausência da política externa como pauta de discussão demonstra o enorme apequenamento do Brasil.

  • Pesquisa aponta que norte-americanos desaprovam  apoio militar na Ucrânia

    Pesquisa aponta que norte-americanos desaprovam apoio militar na Ucrânia

    , , ,

    Muitos americanos pensam que Biden deveria se apressar e encontrar um acordo diplomático. Mas para os apoiadores da Ucrânia, seja à esquerda ou à direita, a resposta é que Biden se apresse e vença, dando à Ucrânia mais ajuda militar e aceitando mais riscos.

Seja notificado de novas publicações, assine.

Ao se inscrever, o WordPress te atualiza gratuitamente toda vez que publicamos algo novo. Assim, você pode acompanhar nossa redação! Não se esqueça de nós seguir nas redes sociais.

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos criado e equipado por jovens. Buscamos usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança do futuro das novas gerações.