A xenofobia é a resposta errada para a guerra da Ucrânia

Atletas russos sendo expulsos de eventos esportivos, estudantes russos sendo expulsos de universidades e diplomatas russos sendo expulsos dos Estados Unidos. Vladimir Putin está completamente equivocado em persistir com a invasão na Ucrânia e, independentemente dos fatores ocidentais que impulsionaram ou não o conflito, seu destino foi selado quando começou a bombardear áreas civis. Entretanto, os erros e as culpas do líder de Estado não são uma justificativa para o que está sendo feito contra civis russos ao redor do mundo. Os russos não querem esta guerra.

Entre o dia 24 de fevereiro e 2 de março, jornais russos denunciaram mais de 7,6 mil pessoas presas em manifestações. Mais de cinquenta cidades russas convocaram protestos, contando com a participação de jovens, adultos e idosos. Universitários foram presos em campus por exporem bandeiras da Ucrânia nas janelas do dormitório. Mais de 1,2 mil universitários escreveram uma carta aberta para o presidente russo Vladimir Putin condenando a atuação militar na Ucrânia. No dia 25 de fevereiro, mais de 17 jornalistas já haviam sido presos e o número atual ainda não foi contabilizado.

O fator de controle econômico na imprensa russa dificulta o número real de manifestantes presos, sobretudo de jornalistas, que certamente deve ser maior. Isso vem do fato de que, assim como em diversos outros países da Europa, a mídia com recursos financeiros para fazer um trabalho dessa dimensão é de controle de indivíduos da oligarquia, atrelados e alinhados ideologicamente ao Estado. Por isso, organizações independentes estão se arriscando e divulgando listas diárias sobre as manifestações, contabilizando os locais de protestos, quantos indivíduos foram presos e, quando possível, divulgando o nome e a idade dos detidos. Em uma das listas, do dia 25 de fevereiro, nota-se que mais de trinta menores de idade foram presos em somente um dia de manifestação.

Mas, ao contrário do que muitos pensam, a falta de efeito em decisões militares em razão dos protestos não é um sinal de que a maioria da população é conivente ou está ao lado do Estado, e sim de que o governo é autoritário ao ponto de ignorar manifestações de milhares de seu próprio povo.

Utilize de exemplo o Brasil: manifestações foram convocadas ano passado para protestar contra as ações de Jair Bolsonaro e sua ineficiência em lidar com a pandemia de coronavírus. Uma comissão parlamentar de inquérito foi instaurada, queixas foram levadas ao Tribunal Internacional de Haia, e por um curto período, alguns de nós chegamos a crer haver algum tipo de esperança. Hoje, 3 de março, chegamos a 650 mil mortos pela doença no país, e Bolsonaro continua no poder. Isso significa que a maioria da população brasileira é conivente com a atual administração do Executivo? Não. Aproveitando o exemplo brasileiro e, naturalmente, amplificando-o para se adequar ao contexto de uma guerra — algo tão complexo quanto uma pandemia, mas mais sensível por envolver majoritariamente serviços militares e de inteligência — é certo dizer que a atuação da população russa contra o conflito não vai impactar as decisões de Putin.

A Rússia já está sendo isolada economicamente pelo resto do mundo, algo que vai favorecer, e muito, o trabalho ideológico de Vladimir Putin. Essas ações logicamente só afetarão a população trabalhadora russa, e não a oligarquia de bilionários do país. Isso muito provavelmente amplificará um sentimento de ultra-nacionalismo, onde trabalhadores poderão se apoiar em Putin e acreditar no discurso de que “todos odeiam a Rússia” — já que, afinal, é justamente o que parece no momento.

Eles estão se manifestando contra. Eles estão assistindo compatriotas sendo presos em manifestações ou sendo enviados para a guerra, às vezes até contra a própria vontade. Agora lidarão, ou melhor, sofrerão, com os impactos socioeconômicos dos bloqueios internacionais — sabendo que as elites continuarão intactas — e muitos perderão seu meio de sobrevivência já que empresas com contratos internacionais possivelmente fecharão. Além disso, sabem que são odiados por parte da população ocidental e que possivelmente sofrerão ataques xenofóbicos caso migrem para outro país — mesmo que essa imigração venha do fato de condenar a guerra ou o governo atual. Tudo isso é deixar uma população inteira sem saída. Está se limitando as possibilidades de resistência da população russa, inclusive da própria resistência contra Vladimir Putin.

A xenofobia não é a resposta para as ações inumanas que estão acontecendo na guerra da Ucrânia por parte da Rússia e, novamente, não impedirão e nem remediarão nenhuma ação de Vladimir Putin. Ela só impulsionará sentimentos de ultra-nacionalista no país, dificultará a vida de russos vivendo no exterior e criará mais um limite de ‘nós contra eles’ ao redor do mundo.



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