É preciso conter a militarização da internet

Por Sergio Amadeu
Professor da UFABC; Pesquisador de redes digitais.

A Internet já há algum tempo é um teatro de operações militares. Isso pode parecer um exagero, mas basta você observar a Guerra na Ucrânia que irá notar uma série de fatos. Primeiro, a Rússia atacou boa parte da infraestrutura digital da Ucrânia e inviabilizou sistemas de supervisão e controle de dispositivos físicos que estavam conectados à Internet. Em seguida, os Estados Unidos desfecharam ataques a alvos digitais do governo de Moscou e contou com a adesão de grupos independentes de hackers para inviabilizar serviços de comunicação e destruir base de dados da Rússia. As unidades da OTAN e da NSA passaram a vasculhar contas de possíveis aliados russos que se comunicavam via internet. 

O bilionário Elon Musk que havia lançado um serviço de conexão via satélite chamado Starlink viu a oportunidade de popularizar seu produto. Anunciou que iria implantar o serviço de Internet na Ucrânia para manter a conexão do país invadido pelas tropas russas. Em um verdadeiro esforço de guerra, o grupo Meta, atual holding do Facebook, aplicou sansões algorítmicas contra páginas controladas pelo governo russo e demonetizou canais da imprensa russa. As plataformas controladas pelas Big Techs norte-americanas estão praticando o bloqueio automatizado de páginas e perfis russos.

Em uma conferência sobre segurança da informação, em 2017, o então presidente da Microsoft, Brad Smith defendeu a necessidade de uma Convenção Digital de Genebra, pois afirmava que as infraestruturas digitais e base de dados estavam sendo espionadas e atacadas por unidades militares ou à serviço de Estados nacionais. Os dirigentes da Microsoft apenas confirmava o que já havia sido denunciado pelo WikiLeaks e por Julian Assange.

Brad Smith, em seu blog oficial, estava preocupado com a propriedade privada. Dizia que o alvo principal era a propriedade de civis, tais como servidores, laptops, smartphones, data centers, cabos submarinos. O que o WikiLeaks e diversos coletivos ciberpunks denunciavam era principalmente o aumento do vigilantismo e da aplicação de tecnologias da intrusão como o spyware Pegasus. As vítimas seriam as pessoas de uma região-alvo, militantes de direitos humanos, organizações que lutam pela defesa do meio ambiente e por direitos sociais.

Na realidade, além de espionagem, intrusão, destruição de base de dados, negação de serviço de sites, existe ainda a batalha da informação. É conhecido que todas as guerras em sociedades de massa são também guerras de versões. Batalhas pela instauração do regime de verdade. Por isso, Joseph Goebbels utilizava o rádio para manter o povo alemão sob intensa propaganda nazista. Por isso, foram criadas as diversas rádios para alimentar a resistência que enfrentava o nazismo na Europa. Mas também para travar a luta ideológica que os Estados Unidos criaram canais nas rádios de ondas curtas em russo, para travar a guerra comunicacional com o então regime soviético. 

Foi com a internet que surgiu a chamada guerra hibrida? Obviamente que não. Com a rede das redes de dispositivos computacionais apenas a guerra comunicacional ganhou maior peso dentro da composição do que se denomina esforços de guerra. Nenhum país que quer defender ou atacar pode deixar de considerar a comunicação digital. Sendo isso contatável, só podemos confirmar que o chamado ciberespaço se tornou um espaço militarizado, intensamente vigiado. Que bom seria que o espaço de conexão fosse irreal, imaginário, ficcional. Mas, ele é virtual. Existe em potência e faz parte do real. Ele se atualiza, por exemplo, quando você acessa um site e encontra a informação que precisava, ou ainda, quando você procura entrar no seu blog e descobre que ele teve sua base de dados destruída por um ataque digital. O digital gera efeitos contundentes no cotidiano físico e em nossas experiências de vida. 

Assim, a militarização da internet é causa e efeito de um processo de militarização global das sociedades contemporâneas. Um grande problema para a manutenção da diversidade e das liberdades fundamentais para as democracias. Precisamos urgentemente iniciar um movimento para exigir uma tratado internacional que limite a militarização e a espionagem nas redes de comunicação digital. Esse esforço faz parte da luta da democracia contra a desinformação, da luta da diversidade cultural contra o fascismo digital que aparece diariamente em nossas telas.



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