Meios de comunicação e a esquerda: um novo dilema

Falar sobre a parcialidade da mídia e o pouco espaço que por ela é dado a pensamentos divergentes é algo recorrente nos círculos de debate da esquerda, que levanta muitas vezes de maneira correta o compromisso que veículos midiáticos tem com grupos da elite econômica e política do país ou até mesmo de outras regiões do mundo, que muitas vezes se dá de maneira direta, com patrocínio do Estado — como a BBC, propriedade do governo do Reino Unido ou a ABC, do governo australiano — de grandes investidores, como o Jornal Washington Post, de propriedade de Jeff Bezos ou a própria Globo, fundada e gerida pela família Marinho.

Ao longo das décadas, muitas críticas foram produzidas a respeito do tema e muito material de qualidade inquestionável circulou na academia e em espaços políticos. No Brasil, o Partido dos Trabalhadores, principal legenda da esquerda desde o fim da ditadura militar, tratou em seu programa presidencial de 2018 a regulação da mídia — e teve que voltar atrás pelas acusações de que estaria buscando legalizar uma forma de censura, discussão na qual vamos adentrar em breve —, buscando descentralizar a propriedade dos veículos brasileiros, que tem  como característica uma gigantesca oligopolização, onde o mesmo grupo pode possuir cadeias de televisão gratuita ou a cabo, jornais físicos e digitais, estações de rádio, e quaisquer outros tipos de veículos de comunicação que você possa imaginar.

Os Estados Unidos, país incontestavelmente representante do capitalismo democrático liberal, possui um órgão governamental regulamental e fiscalizador, a Federal Communications Commission (FCC), ou Comissão Federal de Comunicações, em tradução livre. Também há uma legislação que proíbe a chamada propriedade cruzada, nome dado à posse de jornais, estações de TV ou de rádio em um mesmo local e, além disso, regras que impõem determinados limites quanto ao número de estações de TV e rádio que uma mesma empresa pode controlar num determinado mercado, determinados de acordo com a população e os aspectos econômicos do local.

Não sendo suficiente o exemplo dos Estados Unidos, o Reino Unido possui uma legislação muito mais dura a respeito do tema, criada na esteira de um escândalo de escutas ilegais envolvendo tabloides do país. A lei que regula jornais e revistas se soma a uma regulação mais antiga que envolve as emissoras de TV e estações de rádio.

No Brasil, se o cenário nacional tem claros problemas e um viés muito bem definido, a coisa se torna ainda pior quando olhamos os veículos locais, em especial em cidades interioranas e Estados que não têm seus veículos nacionalizados como o Rio de Janeiro e São Paulo. No Paraná, estado em que vivo, o Governador do Estado é Carlos Massa, o Ratinho Júnior, que não apenas é filho do famoso apresentador de televisão Ratinho, mas Carlos Roberto Massa é também dono da Rede Massa, subsidiária do SBT no estado e da rede de rádios Massa FM, fundada em 2006. O grupo é presidido por Gabriel Massa, filho de Ratinho e irmão de Ratinho Júnior.

A Rede Massa é a única que chega aos 399 municípios do Estado e é líder em audiência da programação local de algumas das principais cidades do Estado, como Londrina, Foz do Iguaçu e Ponta Grossa, ocupando a vice-liderança em Maringá e na capital Curitiba. Ratinho Junior venceu em todas as cidades citadas e foi eleito governador em primeiro turno, vencendo a atual governadora – que chegou ao cargo como vice de Beto Richa (PSDB) – Cida Borghetti (PP), esposa do ex-líder do governo Bolsonaro na câmara e envolvido em diversos escândalos de corrupção na compra das vacinas, Ricardo Barros (PP).

O caso paranaense é emblemático, mas está longe de ser a exceção. No Brasil cinco famílias controlam mais da metade dos principais veículos de mídia do país, como mostra uma pesquisa realizada pelo Media Ownership Monitor (MOM), ou Monitoramento da Propriedade da Mídia, instituição financiada pelo governo alemão, que realizou a pesquisa em conjunto com a ONG brasileira Repórteres sem Fronteiras (RSF). No ranking de Risco à Pluralidade de Mídia, parte do projeto, o Brasil ocupa a pior posição entre os 11 países em desenvolvimento selecionados — Camboja, Colômbia, Filipinas, Mongólia, Gana, Peru, Sérvia, Tunísia, Turquia e Ucrânia — com riscos ao pluralismo considerado altos em concentração de audiência, salvaguardas regulatórias, concentração de propriedade cruzada, transparência, regulação sobre transparência e controle sobre financiamento.

O caso brasileiro chega ao extremo de um mesmo ‘grupo’ ou podemos dizer, indivíduo, o ‘bispo’ Edir Macedo possuir uma rede de igrejas, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) — que recentemente protagonizou escândalos internacionais envolvendo um suposto caso de racismo e lavagem de dinheiro, que os levou a serem expulsas da Angola — um canal de televisão, a Rede Record, o jornal Correio do Povo, redes de rádio e até mesmo um partido político, o Republicanos, que abriga um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, o Carluxo.

Gráfico que mostra veículos de imprensa de propriedade de Edir Macedo, pastor da igreja evangélica Universal, e a circulação/audiência de tais veículos.

O ex-presidente da república, Fernando Collor de Mello, é um dos nomes entre políticos que são proprietários de veículos de mídia. Por meio da Organização Arnon de Mello, nome de seu pai, que também era político e governou o estado de Alagoas, está a TV Gazeta de Alagoas, afiliada da Rede Globo no estado, a Rádio Clube de Alagoas e a Rádio Gazeta de Alagoas e o portal Gazetaweb, além do instituto de pesquisas Gape (Gazeta Pesquisa) — que convenhamos, é bastante conveniente para um político. Collor atualmente é senador e muito próximo ao governo de Jair Bolsonaro, tendo sido até mesmo cogitado para assumir a pasta das Relações Exteriores após a demissão de Ernesto Araújo, indicação essa que acabou não se concretizando.

Os exemplos de grandes nomes como os citados não acabaram, mas o importante é frisar que essas questões não se restringem a figuras de destaque: dentre os políticos do ‘baixo clero’, a propriedade de veículos menores de rádio, jornal e TV é muito difundida e o uso político desses meios é muito claro, apesar da Constituição Federal, em seu artigo 54, determinar que políticos em cumprimento de mandato não podem ser donos de emissoras de rádio e TV.

Conhecendo o cenário, a acusação de que uma proposta de regulação de mídia partindo da esquerda seria uma tentativa de censura, deixa de fazer sentido e os reais interesses começam a ser expostos de maneira bastante clara. Mesmo uma regulação realizada sob um viés liberal, buscando expandir o espaço para a concorrência e a diversificação de veículos disputando o mercado é combatida. O controle dos meios de informação é crucial para que seja efetiva a manutenção do poder na mão de grupos que há gerações os têm na mão, sem deixar escapar. Mas como fica a Internet nesse cenário? Como essa discussão é feita ao redor do mundo?

Monopólio de mídia digital e as redes sociais

Tradicionalmente uma pauta da esquerda, o combate ao poder irrestrito dos grandes meios de comunicação foi captado pela extrema-direita quando o espaço digital entrou em pauta, em um processo que se iniciou nos Estados Unidos pelo ex-presidente Donald Trump, que durante seu mandato frequentemente teve publicações apagadas ou com avisos sobre a disseminação de conteúdos falsos em diversas redes. Após perder as eleições em 2020, Trump foi banido do Facebook, Instagram e Twitter, o que insuflou ainda mais o combate a esses veículos no campo da direita.

Mark Zuckerberg se tornou inimigo número um dos movimentos da nova direita, uma postura de clara ingratidão, já que esses banimentos vieram como resposta às acusações posteriormente comprovadas de que dados de usuários do Facebook e o direcionamento de propagandas políticas feito a partir deles pela empresa britânica de publicidade Cambridge Analytica, foram cruciais para a vitória de Trump, o que gerou revolta na sociedade, que começou a posicionar-se cobrando mudanças.

O Facebook foi a rede mais impactada, sendo investigada nos Estados Unidos e precisando prestar diversos esclarecimentos a respeito de sua postura quanto aos dados de seus usuários, além de tomadas de decisão eticamente questionáveis, como descoberto recentemente que a rede social sabia que o Instagram era nocivo para jovens, em especial, garotas, e nada fez a respeito.

Com tantas e tão claras violações dos padrões morais básicos, é necessário que o poder das redes sociais sobre as pessoas e em especial sua influência sobre a democracia sejam questionados pelos movimentos progressistas, pois enquanto o direcionamento das críticas ocorrer apenas em movimentos pontuais as mudanças necessárias não serão realizadas e os usos nocivos de uma tecnologia que prometeu expandir o debate público e por consequência a democracia. Enquanto isso, segundo o Relatório da Biblioteca de Anúncios do Facebook, o Brasil Paralelo, produtora de extrema-direita capitaneada por seguidores do falecido astrólogo e pseudo filósofo Olavo de Carvalho, é o principal anunciante do Facebook no Brasil na categoria temas sociais, eleições ou política, com um investimento mais de R$ 5 milhões com anúncios entre agosto de 2020 e dezembro de 2021. Seus anúncios, quando denunciados, nunca são removidos e a rede social declara que eles não violam as políticas da plataforma.

Segundo documentos vazados, o Facebook remove algo entre 3% e 5% dos conteúdos de ódio e míseros  0,6% dos de violência. Nos últimos anos, as redes viram explodir os casos de apologia ao nazismo, ao fascismo e a outros movimentos da extrema-direita, com alta carga de preconceito contra minorias e imigrantes. O espaço público que promete elevar o nível das democracias e gerar participação popular nas decisões do Estado serviu para reanimar os piores movimentos criados no século XX, piorando o nível das democracias em diversos países, sejam eles ricos ou em desenvolvimento.

A resposta dessas redes, em especial do Facebook, a principal delas, começou a aparecer com a pressão popular, mas até o presente momento, não ultrapassa uma linha: a que gera a lucratividade da empresa. Assim, Trump só perde sua conta quando sai do governo — por mais que tenha utilizado por anos a rede para disseminação de mentiras e incentivo à violência, xenofobia e racismo — e figuras de maior proeminência e poder aquisitivo, como o pastor brasileiro Silas Malafaia, só sofreram as punições previstas nas diretrizes do Twitter e do YouTube após pressão do coletivo Sleeping Giants. O pastor neopentecostal trazia mensagens falsas a respeito da vacinação infantil e mesmo com a pressão popular não perdeu sua conta, apenas teve as mensagens excluídas.

Além da postura sobre as mensagens falsas, já se comprovou por meio de experimentos e estudos de diversas instituições como os algoritmos das redes levam pessoas comuns a conteúdos cada vez mais extremistas, pois estes garantem um tempo de uso maior. Muitas vezes, jovens que estão atrás de conteúdos relacionados a games no YouTube em pouco tempo estão em contato com materiais da alt-right e adentram em comunidades extremistas nas redes sociais, arraigando-se e construindo laços dentro desses grupos, formando seus campos de reconhecimento todos ao redor de movimentos políticos extremistas e que de início podem ser marginalizados — o documentário da Netflix Behind the Curve (A Terra é Plana, na versão em Português) dá um exemplo claro: a socialização gerada através dos conteúdos ‘terra planistas’ se torna um verdadeiro círculo social, onde os indivíduos que construíram toda uma interação ao redor de uma teoria maluca mantém-se com essa crença não porque faz realmente sentido, mas pelo sentimento de pertencimento e comunidade gerado por elas.

A mídia tradicional x as redes sociais

Logo, se a mídia tradicional se mostra uma ferramenta de perpetuação de poder, as redes sociais se tornaram um meio de contestamento da lógica liberal-progressista e do chamado ‘globalismo’, com um avanço de forças reacionárias da extrema-direita num cenário onde a esquerda se viu completamente vencida. Lentamente, iniciativas do lado vermelho ganham força e o aprendizado do uso das redes avança no novo campo, com boas atuações de políticos como Gabriel Boric no Chile, que venceu o extremista José Antônio Kast e teve as redes sociais como aliadas nesse processo, alcançando majoritariamente o apoio dos jovens.

A nova direita se veste de contestadora para perpetuar antigas lógicas de dominação, mas dessa vez não ligadas ao dinheiro, mas a sexo, raça, credo, nacionalidade e questões semelhantes, geralmente sob o comando de um grupo de indivíduos chamados de ‘white thrash’ nos Estados Unidos, nome dado a famílias brancas de origem pequeno-burguesa que tiveram um declínio relativo de qualidade de vida nos últimos anos com a transferência de partes dos setores produtivos para países como a China, desencadeando uma redução de renda ou pela primeira vez em situação de desemprego e redução em seu status social. Essa classe é a mesma que no Brasil se incomodou em dividir o espaço nos aeroportos e nas universidades com as populações mais pobres, que começaram a ter acesso a esse serviço público durante os governos de Lula e Dilma.

Os setores mais reacionários da burguesia veem esses movimentos de insatisfação de classes médias como um prato cheio para ganhar poder e muitos se aproveitam desse discurso e dessa estética, como pastores citados ou empresários como o famoso ‘Veio da Havan’, que entregam o que faltava aos movimentos: dinheiro. A nova realidade traz novos desafios e a esquerda precisa estar ciente deles para poder agir de maneira correta e funcional e conseguir maior poder de decisão nas tão difundidas plataformas de mídia.