Documentos do WikiLeaks provam que EUA sabiam que a Rússia iria intervir na Ucrânia


A publicação de telegramas em 2008 pelo WikiLeaks mostrou que a expansão da OTAN para a Ucrânia forçaria a Rússia a reagir com ofensiva militar.


Funcionários de alto escalão do governo dos EUA sabiam desde 2008 que a possibilidade de adicionar a Ucrânia à OTAN era vista como uma séria “ameaça militar” pela Rússia, que ultrapassa as “linhas vermelhas” de segurança de Moscou e poderia forçá-los a intervir. No entanto, líderes ocidentais continuaram insistindo que a Ucrânia se juntaria à aliança militar liderada pelos EUA, até que então, a Rússia realmente interveio em fevereiro de 2022.

Na cúpula anual da OTAN em 2008, o governo de George W. Bush pediu publicamente a adição dos vizinhos da Rússia, Ucrânia e Geórgia, à aliança militar. O secretário-geral da OTAN declarou que os dois países acabariam se tornando membros. Mas no particular, os diplomatas dos EUA sabiam que esse movimento seria visto como uma ameaça existencial por Moscou e poderia provocar uma intervenção militar russa na Ucrânia.

O ex-embaixador dos EUA na Rússia, William J. Burns, que é agora diretor da CIA, alertou em um telegrama da embaixada em fevereiro de 2008 publicado pelo WikiLeaks que a Ucrânia constituía uma “linha vermelha” de segurança para Moscou. O telegrama confidencial do Departamento de Estado foi intitulado “Nyet Means Nyet: ampliação da OTAN nas linhas vermelhas da Rússia” (“nyet” é “não” em russo).

Burns alertou que a questão da adesão à OTAN para a Ucrânia “poderia dividir o país em dois, levando à violência ou mesmo, alguns afirmam, à guerra civil, o que forçaria a Rússia a decidir se deve intervir”. O embaixador também escreveu que o ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, enfatizou que “a Rússia estava convencida de que a expansão [da OTAN] não se baseava em razões de segurança, mas era um legado da Guerra Fria”.

Interferência dos EUA desencadeia guerra civil na Ucrânia, desestabilizando o vizinho da Rússia

Esse tipo de violência interna de fato eclodiu na Ucrânia, depois que um golpe de Estado patrocinado pelos EUA em 2014 derrubou um governo democraticamente eleito que mantinha uma política externa relativamente neutra, equilibrada entre a Rússia e o Ocidente e, em vez disso, instalou uma política pró-regime ocidental e anti-Rússia.

Em resposta ao golpe de 2014, os ucranianos de língua russa na região leste de Donbass se levantaram contra o governo em Kiev, que denunciaram como um regime marionete ilegítimo do Ocidente. Ativistas da independência declararam a criação de dois novos estados autônomos, as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk. O governo ucraniano, com apoio militar e armas ocidentais, travou uma guerra brutal contra essas repúblicas separatistas no Donbass desde então.

Milhares de ucranianos foram mortos e centenas de milhares foram deslocados. A Ucrânia, que compartilha uma enorme fronteira de 2.300 quilômetros com a Rússia, foi abalada pela violência e instabilidade desde a interferência de 2014 pelos EUA — e essa turbulência constante teve efeitos significativos dentro da Rússia, especialmente economicamente. Este era precisamente o cenário de guerra civil sobre o qual Burns havia alertado em 2008.

Em 21 de fevereiro de 2022, a Rússia reconheceu oficialmente Donetsk e Lugansk como estados independentes. Então, em 24 de fevereiro, Moscou lançou uma invasão da Ucrânia, que disse ter como objetivo “desmilitarizar” e a “desnazificação” do país. A invasão da Rússia — condenável em todas as proporções — é forçar a Ucrânia a manter a neutralidade política, impedindo-a de ser um posto militar ocidental que possa ameaçar a Rússia em suas fronteiras, potencialmente com armas nucleares. 

Enquanto os governos ocidentais e os meios de comunicação retratavam a invasão russa como uma decisão maluca de Putin, telegramas internos da embaixada dos EUA mostraram que Washington sabia desde 2008 que seu esforço para expandir a OTAN para a Ucrânia resultaria exatamente neste resultado: forçar a Rússia a intervir.

É importante ressaltar essa conjuntura em aspecto histórico. Em 1990, os EUA, a Grã-Bretanha e a França prometeram repetidamente à União Soviética que não iriam expandir a OTAN nem “um centímetro para o leste” após a reunificação da Alemanha. Este é um fato histórico inegável, uma questão de registro público confirmada por conjunto de documentos internos de governos ocidentais.

A OTAN mais tarde quebrou essa promessa, e não uma ou duas, mas 14 vezes. Todos os 14 novos estados-membros admitidos estavam a leste da Alemanha, e muitos já haviam sido aliados soviéticos na antiga aliança de segurança de Moscou, o Pacto de Varsóvia. A mentalidade de jogo de soma zero por trás da Doutrina Wolfowitz, que insiste que o império dos EUA deve governar o mundo sem qualquer oposição, e que se recusa a aceitar a possibilidade de a Rússia ter seus próprios interesses de segurança, ainda sustenta a política externa de Washington até hoje.

A estratégia de “pressão máxima” dos EUA contra Moscou que essa doutrina imperialista inspirou, sob a vigilância de falcões de guerra anti-Rússia como Dick Cheney, ajudou a provocar exatamente o que o embaixador William Burns alertou em 2008: uma intervenção militar russa na Ucrânia.


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