Feminismo na Coreia do Sul

Na contemporaneidade com o advento das tecnologias e a febre das redes sociais podemos notar que diversos assuntos importantes são discutidos por diversas pessoas de diferentes biótipos, características, preferências e orientações, dentre esses assuntos podemos destacar que o feminismo vem ganhando espaço atualmente cobrando os direitos das mulheres e buscando a equidade de gêneros.

Para entendermos o que o feminismo prega é necessário considerarmos a diferença entre os termos “igualdade” e “equidade”. A igualdade promove que os direitos e deveres devem ser iguais para todos independente de qualquer coisa, no caso do feminismo, independentemente do gênero. Já a equidade inclui um tratamento diferenciado a determinados grupos – no caso, as mulheres – para reforçar a igualdade entre gêneros. Falar de equidade entre gêneros nos permite analisar ser necessário que haja políticas públicas e comportamentos diferenciados a favor do bem-estar da mulher para ela poder ter acesso a privilégios que os homens já possuem na sociedade patriarcal.

Já foi posto aqui que esse assunto já está sendo debatido ao redor do mundo, porém uma nação que ainda precisa desenvolver esse debate é a coreana. A Coreia do Sul ainda se firma em uma estrutura patriarcal e conservadora pondo em risco e nega diversos direitos as mulheres, em 2015 o Fórum Econômico Mundial do Índice Global da Igualdade de Gênero colocou a Coreia na 115.ª posição de 146 nações, de acordo com um relatório da WEF, com sede na Suíça, a participação econômica feminina e as oportunidades para as mulheres no mercado de trabalho, permanecem 56% menores do que para os homens e os salários das trabalhadoras coreanas permanecem 55% abaixo dos salários homens, ocupando cargos similares.

Com os dados supracitados vemos que muito ainda deve ser dialogado e feito no país, porém o que acentua a desigualdade, dificulta esse diálogo e até rechaça o feminismo com uma onda de antifeministas. Os antifeministas basicamente seriam homens que hoje em dia estão bombardeando a internet com discursos de ódios às feministas, e não é necessário se declarar feminista para isso, muitas vezes eles mesmos tiram suas conclusões de que determinada pessoa pública é e começam a onda de ódio, injuriando o nome da celebridade. Esses indivíduos defendem que o feminismo contribui para a diminuição na taxa de natalidade – já que muitas mulheres não querem ter filhos por ter outras prioridades em sua vida -, para o ódio em relação ao sexo oposto – utilizando palavras de baixo calão e simbologias que menosprezam os homens -, que houve um aumento de mulheres no mercado de trabalho enquanto o serviço militar é obrigatório exclusivamente para os homens, dentre outros “argumentos”. Em relação à última pauta defendida Oh Jaeho, do Instituto de Pesquisa Gyeonggi, acrescenta: “Eles têm a sensação de que estão sendo injustamente solicitados a compensar os privilégios sexistas dos homens de gerações anteriores”.

Porém, o antifeminismo não está sendo nutrido apenas por homens anônimos, Ha Taekeung, candidato à presidência do conservador Partido do Poder Popular (PPP) pediu para eliminar o Ministério da Igualdade de Gênero para diminuir “o enorme custo social causado pelas divisões em questões de gênero”. O líder do PPP, Lee Junseok pediu o mesmo e se opôs a política de cotas que favorecem a inclusão de mulheres em determinados cargos alegando não haver mais discriminação para o acesso à educação e inserção no mercado de trabalho.

Recentemente, uma das vítimas dos antifeministas foi a atleta arqueira An San que se tornou a primeira arqueira a ganhar três ouros em uma única olimpíada – tendo esse feito consolidado nos Jogos Olímpicos de Verão de 2020 que foi realizado em Tóquio. Devido ao seu corte de cabelo ser denominado como feminista, a arqueira sofreu diversos comentários maldosos e um grupo de homens antifeministas exigiu que a Associação Coreana de Tiro com Arco retirasse suas medalhas. Em apoio à An San diversas mulheres subiram a hashtag #women_shortcut_campaign no Twitter postando fotos com seus cabelos curtos e o presidente Moon Jaein parabenizou sua conquista e mencionou sua controvérsia em relação a esses comentários.

Outro “feito” dos antifeministas deve-se a um site que cogita quais artistas seriam feministas por dadas ações e comportamentos, o site “Check Femi” os classificava pejorativamente em artistas sob “suspeita”, na “vanguarda”, ou “confirmados”. O site saiu do ar após diversos comentários o criticando. É importante deixar claro aqui que esse tipo de classificação prejudica muitos idols a partir do momento que o feminismo é visto negativamente, pejorativa e resumida a ações defendidas por feministas radicais, então se declarar feminista na Coreia do Sul se torna um ato de coragem que pode comprometer sua carreira.

Dentre os artistas que estavam na lista de confirmados enquanto feministas estava Suzy, atriz e ex-integrante do grupo Miss A, RM, líder do grupo BTS e Joy, integrante do Red Velvet. Entre os feministas “da vanguarda” estava o presidente Moon Jaein e o ex-prefeito de Seul Park Wonsoon. RM, Suzy e Joy receberam diversos comentários maldosos após recomendar a leitura do livro feminista Kim Jiyoung, nascido em 1982, escrito por Cho Namjoo. Joy também apareceu publicamente com uma camisa com a seguinte frase “todos nós deveríamos ser feministas”.

Infelizmente dentre as idols mais conhecidas por promover o feminismo na Coreia cometeram suicídio em 2019, a ex-integrante do f(x) e atriz Sulli e Goo Hara, ambas recebiam muitos comentários negativos devido seu ativismo feminista. Sulli proferiu publicamente depois de muito tempo que não usaria mais sutiã alegando que seu uso é desconfortável e faz mal ao aparelho digestivo. Depois dessa declaração surgiu o protesto Nipple Free que foi inspirado nesse depoimento dado no programa Night of Hate Comments.

Em 2016, houve uma grande movimentação de protestos e reclamações feitas pelas mulheres coreanas depois do assassinato que houve na estação de Gangnam, onde uma mulher foi brutalmente esfaqueada, quando questionado o do porquê do ato o assassino apenas pronunciou que a matou porque a vida toda foi ignorado e humilhado por mulheres, é importante ressaltar que ele não a conhecia e o crime apenas foi condenado por alegação de doença mental como motivação quando claramente foi motivo de misoginia. Sobre o acontecimento, representantes do DSO (Digital Sexual Crime Out) acrescentaram: “Quando a mulher foi morta, nós fomos mortas. Quando a mulher foi prejudicada, nós também fomos prejudicadas. Nós, que ainda estamos vivas, sobrevivemos por acidente. Essa identificação vai além de uma “irmandade”, sendo simplesmente um conceito. Isso está em um nível de instinto de sobrevivência, então o caso de Gangnam acendeu o desespero e senso de urgência das mulheres”.

Uma notícia boa é que o feminismo também vem se espalhando pela Coreia com as iniciativas anteriormente citadas, e as idols não estão de fora, muitas utilizam do seu trabalho para fomentar posturas diferentes e tentam combater o conservadorismo, estigmas e discriminações referentes à mulher, dentre elas temos os grupos Mamamoo, CLC, Blackpink, LOONA, o extinto 2ne1, as cantoras solo Hyuna, Sunmi, Hyolyn ex-integrante do Sistar, dentre outras mulheres que utilizam do conceito girl crush e sensual para se emponderar e mostrar que a mulher pode ser bem mais do que a menina representada pelo conceito fofo; quieta, fofa, delicada, submissa e que tem sua representação resumida em romances e envolvimento amoroso.

If you never been told how you gotta be
What you gotta wear, how you gotta speak
If you never shouted to be heard
You ain’t lived in a woman’s world
And if you can’t see that, it’s gotta change
Only want the body but not the brains
If you really think that’s the way it works
You ain’t lived in a woman’s world.

Woman’s world – Little Mix


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