Como presidente, Yoon Suk-Yeol piorará a desigualdade social na Coreia do Sul


Como candidato, Yeol apoiou o envio de armas nucleares para a Coreia, a extinção do Ministério de Desigualdade de Gênero e o banimento do salário mínimo. A nova onda conservadora sul-coreana não é muito diferente da brasileira.


O candidato conservador e líder da oposição, Yoon Suk-Yeol, venceu as eleições presidenciais sul-coreanas com uma diferença de menos de 0,90% dos votos. Assumindo o posto em maio, sofrerá com desafios, já que seu país passa por uma enorme crise social e econômica e agora está ainda mais dividido politicamente.

A desilusão da juventude também participou na vitória de Yeol. Uma série de escândalos políticos abalaram o principal partido de centro-esquerda do país. Quando o atual presidente Moon Jae-in assumiu o cargo, ele prometeu uma série de melhorias econômicas e reformas trabalhistas que acabariam com a desigualdade social no país, mas seu governo foi repleto de escândalos de corrupção, criando frustrações para a juventude política.

Yoon Suk-Yeol ganhou popularidade após condenar vários membros do gabinete do atual presidente Moon Jae-in, incluindo seu Ministro da Justiça Cho Kuk, que supostamente usou seu cargo para ganhos pessoais. Mas o discurso é só discurso. Como candidato, ele declarou que perdoaria os ex-presidentes conservadores Lee Myung-bak e Park Geun-hye, ambos condenados por corrupção.

A Coreia do Sul é um dos países mais desiguais do mundo, algo retratado popularmente em séries e filmes como Round 6 e outras produções nacionais. Mais de 40% dos trabalhadores atuam em serviços irregulares e terceirizados, como em aplicativos das grandes empresas de tecnologia e do setor de serviço, como entregas de comida. Ela também ocupa o terceiro lugar mundial em horas de trabalho e em mortes no local de trabalho.

A economia é dominada pelos chaebol, conglomerados corporativos que não são muito diferentes do Vale do Silício nos Estados Unidos. 10% da população sul-coreana possui mais de 40% da renda total do país.

Além disso, também há um problema que afeta muitos países em desenvolvimento: débito com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Após uma ditadura neoliberal de Chun Doo-hwan na década de oitenta, reformas neoliberais abriram o mercado e recursos do país para investidores financeiros, o que ocasionou em uma enorme crise financeira no fim da década de noventa. Para salvar o país, o empréstimo veio, mas com uma série de restrições como: novas políticas de ajuste fiscal que desmantelaram direitos trabalhistas, privatização de empresas públicas e a abertura do mercado doméstico para capital estrangeiro.

Em 2004, mais de 40% da capitalização total do mercado de ações sul-coreano pertencia a estrangeiros – principalmente dos EUA, Japão e UE. Isso retira a independência econômica e até política do país, já que impede que certas reformas políticas e trabalhistas sejam feitas para evitar uma mobilização do setor de acionistas estrangeiros que quebre a bolsa.

Em 1996, após a decaída do apoio popular, o governo de Kim Young-sam alterou a legislação trabalhista de uma forma nunca antes vista no país: por um lado, havia a abolição da proibição sindical e a conquista de direitos trabalhistas para funcionários públicos. Do outro, a nova legislação facilitaria para empresas demitirem funcionários, aumentaria a jornada de trabalho para doze horas e proibiria o pagamento durante greves. Com isso, sindicatos sul-coreanos organizaram uma das maiores greves da história do país. Já em outubro do ano passado, pelo menos meio milhão de trabalhadores sul-coreanos deixaram seus empregos em uma greve geral massiva, paralisando setores como o de construção, serviços e transportes.

Alguns dos objetivos dos grevistas eram abolir o trabalho terceirizado e irregular, dar poder político aos trabalhadores em meio a crise econômicas e reformas políticas, assim como nacionalizar indústrias-chave e socializar serviços básicos como educação e moradia. Mas agora, o movimento progressista na Coreia do Sul sofre uma enorme perda após a eleição de Yoon.

Durante as greves gerais de novembro, Yeol afirmou publicamente que, caso eleito, acabaria com o salário mínimo e com a semana de 52 horas de trabalho – aproximadamente 10 horas diárias. No último caso, a fala pode parecer ser algo positivo, mas, na verdade, significa criar uma “semana de trabalho flexível” – em suas palavras-, para que sul-coreanos tomassem ainda mais empregos terceirizados e irregulares.

O conservadorismo na Coreia não se destaca do resto do mundo. Assim como no Brasil, eles preferem o liberalismo econômico do que o estado de bem-estar social, e possuem um grande apreço a valores familiares, porte de armas e militarização.

Yoon Suk-Yeol, parabenizando colegas e membros do partido conservador por sua vitória. Fotografia por: Lee Jin-man, para Reuters.

Tendências anticomunistas são um dos principais pontos em discursos conservadores sul-coreanos e tendem a impulsionar o público ao chamado red scare, fenômeno onde se cria uma falsa ameaça comunista para manipular a opinião pública.

Na questão da política externa, Yeol também se aproveita do discurso da ameaça comunista contra a Coreia do Norte, mas também a China. Em setembro do ano passado, o presidente eleito declarou que caso eleito, demandaria que os Estados Unidos enviassem armas nucleares para o país. Representantes norte-americanos rechaçaram as falas de Yeol, argumentando que isso ia contra a ética e política externa do país.

Após o último lançamento de mísseis balísticos da Coreia do Norte no sábado, Yeol acusou o líder norte-coreano de tentar influenciar os resultados das eleições sul-coreanas em favor de Lee, candidato de centro-esquerda. “Eu o [ensinaria] algumas maneiras e o faria cair completamente em si”, disse em um comício perto de Seul.

Ambos os candidatos apelaram para o público jovem, mas o gênero foi um fator importante para a vitória de Yeol. Assim como qualquer movimento conservador no mundo, seu apelo foi direcionado ao público jovem masculino que se sente esquecido e revoltado após a popularização do movimento feminista e, consequentemente, mais políticas públicas lutando contra a desigualdade de gênero ao redor do mundo.

Um dos apelos claros de Yoon foi suas posições anti-feministas, uma estratégia que atraiu homens jovens que culpam mulheres pelo desemprego. Em uma entrevista com a Vice, um eleitor conservador declarou ser “hora de fazermos ouvir nossas vozes”, elegendo um líder que “não ignora nossos sacrifícios e contribuições”, referindo-se ao alistamento militar obrigatório da Coreia que obriga homens a servirem ao menos dois anos.

Mesmo com um crescente movimento conservador masculino, o movimento feminista está lutando. Em 2018, mulheres foram as ruas em um número recorde para protestar contra a epidemia de molkas, câmeras espiãs escondidas para espionar mulheres – principalmente em banheiros públicos.

Esses protestos ajudaram a derrubar diversas figuras públicas, desde artistas do k-pop, até um candidato presidencial. Já em 2019, o movimento feminista derrubou um banimento de décadas no aborto, além de aprofundar a luta na desigualdade salarial. Em pesquisa do Fórum Econômico Mundial, a Coreia do Sul ocupa o 102.º lugar de 156 países em um índice sobre desigualdade de gênero salarial.

Protesto feminista na capital Seul, em fevereiro de 2022. Fotografia por: Ahn Young-joon, para Associated Press.

Além de pedir a abolição do Ministério da Mulher e da Família, Yeol disse que mulheres sul-coreanas não sofrem nenhuma discriminação no país. A instituição é um dos focos de grupos ativistas pelos “direitos dos homens”, que condenam principalmente a luta feminista pela igualdade salarial e pede a abolição do órgão. Muitos também têm um ressentimento pelo serviço militar obrigatório, enquanto mulheres são isentas. Ao invés de lutar pela anulação total do serviço militar e pela desmilitarização do país, o movimento antifeminista toma o caminho irracional de usar o serviço militar como uma justificativa para a enorme desigualdade salarial.

Hong Eun-pyo, um proeminente youtuber antifeminista, justificou a disparidade salarial pelo fato de que homens possuem trabalhos mais difíceis. “Se [as mulheres] querem chegar tão alto quanto seus pares masculinos e receber o mesmo salário, devem continuar trabalhando e não engravidar”, disse.

As falas do presidente eleito foram além de somente pedir a extinção do órgão. Ele acusou o ministério – criado para ampliar a igualdade de gênero – de tratar homens como “criminosos sexuais em potencial” e prometeu criar leis mais duras para falsas acusações de assédio ou abuso sexual, algo que o movimento feminista afirma que impedirá ainda mais mulheres de denunciar abuso.

Caso uma investigação indique não haver conclusão se o ato ocorreu, até mesmo se essa falta de conclusão venha por conta de corrupção na polícia, o abusador terá direito de entrar com uma queixa contra a vítima. Isso é algo extremamente preocupante, já que policiais, promotores e juízes sul-coreanos tiveram a pior nota entre funcionários públicos em uma pesquisa de transparência realizada pela Anti-Corruption and Civil Rights Commission. Em contraste, o Ministério de Igualdade de Gênero e Família obteve a maior pontuação.

Yoon Suk-Yeol enfrentará muitas dificuldades e provavelmente não estará preparado para tal. Ele segue a mesma linha de alguns políticos conservadores ocidentais: um político com discurso anticorrupção e efetivamente antipolítica que, na realidade, usa o sistema para vontades pessoais – como o desejo de perdoar colegas de seu próprio partido.

Nos últimos anos, o país se tornou ainda mais aberto para influência cultural estrangeira, fazendo com que muitos começassem a consumir discursos e movimento político do ocidente, assim como técnicas de ‘agitação’ partidária. Por exemplo, as últimas greves gerais usaram o fato de que Round 6 foi um sucesso mundial para espalhar o movimento e aumentar a visibilidade. Milhares foram vistos usando os macacões vermelhos da série durante os protestos e segurando cartazes em coreano e inglês.

Além disso, a divisão política se tornou evidente nas eleições. O presidente eleito venceu com uma margem menor que 0,80% dos votos e haverão eleições locais durante o meio de seu mandato – algo que será um indicativo da popularidade sua e de seu partido. Mais de 70% dos eleitores elegíveis saíram as ruas para votar, mas muitos desistiram em razão da crescente desilusão política no país.

A crise econômica também é um fator decisivo no governo de Yeol, que governará agora a 10.ª maior economia do mundo, e 4.ª maior da Ásia. Lidar com uma crise econômica em um país já extremamente desigual não é fácil – e isso nós sabemos no Brasil. O país está se aprofundando na dívida externa e investimentos estrangeiros aumentaram no país após a nova popularização do k-pop no ocidente, que viabilizou uma maior abertura da economia do país. A depender da forma que Yeol lide com a crise, seu movimento poderá criar uma onda conservadora ou progressista.


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