Entrevista com David Nemer

Com o objetivo de fomentar o debate e trazer diferentes perspectivas sobre um mesmo cenário, a série especial de entrevistas ‘Brasil 2022’, parte do quadro sabiá-entrevista, convida profissionais de áreas distintas, mas que se intercomunicam para explorarem sob seus prismas as contradições presentes no Brasil atual, as sequelas já em curso, os danos presentes e futuros, além de viabilizar um espaço para compartilharem seus estudos, resultados e projetos.

Para dar início a essa série que irá ocorrer até o mês das eleições em outubro, convidamos o Professor David Nemer, antropólogo e cientista da computação, para falar um pouco sobre tecnologia e eleições: quais os riscos, os impactos da desigualdade tecnológica, como vem atuando os grupos bolsonaristas, a força da desinformação e seu modus operandi. O objetivo é criar um panorama dessa relação e suas consequências para o Brasil de hoje. 

Vale ressaltar que o Professor David Nemer também dá aula de Estudos de Mídias na Universidade da Virgínia, é recentemente pesquisador em Harvard e também é pesquisador associado da BrazilLab em Princeton. Por fim, é autor dos livros ‘Tecnologia do Oprimido: Desigualdade e o mundano digital nas favelas do Brasil’ (Milfontes e MIT Press) e ‘Favela Digital: O outro lado da tecnologia’ (GSA).


Professor, antes de tudo, como está sendo a experiência em Harvard?

Então, vim participar do Instituto Berkman Klein Center conhecido mundialmente pelos estudos da sociedade, Internet e computação. Atualmente é impossível falar de tecnologia sem falar de internet. O instituto fica hospedado na escola de direito de Harvard, mas possui uma pluralidade de atuações transdisciplinares sob diversos prismas, enfim, visa entender as relações e consequências da tecnologia. 

Eu sempre tive essa vontade de passar um tempo aqui, porém nunca tive um planejamento direto do que faria, mas estão com uma nova iniciativa, com um instituto temporário chamado Rebooting Social Midia – é um think tank composto de profissionais de diversas áreas para repensar/reimaginar as mídias sociais. O entendimento é que deu errado em questão de desinformação, fake news, exploração de dados, violação de privacidade, questão ecológica e outros, então vim mais por essa área da antropologia, através da lente da cultura, entender como se dá o fenômeno da desinformação. 

O projeto que propus para estar aqui é buscar desenvolver uma metodologia para monitorar e entender a desinformação que vai acontecer este ano – e já está acontecendo – principalmente com o objetivo de bagunçar as eleições de 2022. Bolsonaro já vem a um bom tempo criando desinformação quanto às eleições, falando sobre as urnas serem hackeadas, promoveu o voto impresso e ontem mesmo (01/02/2022) tivemos a fala do Ministro Barroso com críticas. 

O interessante é que aqui [no Instituto] querem algo bem pragmático, algo para criar uma consciência, um conhecimento para a população em geral não necessariamente para o meio acadêmico, o objetivo é interseccionar o conhecimento científico com a realidade da população e evitar que o assunto seja apenas debatido e entendido dentro de uma bolha onde o impacto é reduzido. Infelizmente um dos motivos que ajudou a ascensão das fake news foi esse conhecimento insular do conhecimento acadêmico que nunca foi acessível para quem é de fora trazendo uma facilidade de incitar a incerteza na população. O instituto tem por essência essa conversa com a sociedade civil inclusive dialogando com diversos ativistas. 

Vim convidado como professor visitante e conjuntamente com o pessoal da Agência Pública, em especial com a jornalista Natália Viana, Fellow do Nieman Lab, instituto de Jornalismo aqui em Harvard, aprofundar a pesquisa. Nesse processo, contratei uma cientista de dados para ajudar a monitorar os grupos de WhatsApp e Telegram e formular mapeamento de dados e afins, o objetivo é expandir a rede de grupos sendo acompanhados e dados coletados. Metodologias diferentes exigem perguntas diferentes. Com isso, busco trazer uma abordagem mais quantitativa para acompanhar os diversos grupos e quais tipos de mídia mais vem sendo disseminada, inclusive um dos achados até então, links de YouTube é o que vem sendo circulado – não é nada novo, mas expõe que para por aí -, a limitação que se percebeu até hoje é a ausência de informações referente aos tipos de conteúdos presentes nos vídeos em si, a ideia é gerar um sistema que faça a transcrição do vídeo em texto, porque uma vez transformado em texto fica muito mais fácil de efetuar essa análise de dados e casar informações entre plataformas como WhatsApp e Telegram com o que foi dito no YouTube. Essa é a premissa, entender como funciona a lógica desse ecossistema composto de WhatsApp, YouTube e Telegram.

Como você vem enxergando o clima nos grupos Bolsonaristas neste começo de ano eleitoral?

O clima está estável nestes dias e já faz um bom tempo que vem se mantido assim, mas quando falo estável digo aquele caos constante e que ao tempo todo se compartilha Fake News, se compartilha conteúdos para a construção de um ‘inimigo’, então, com inimigos que já foram definidos no passado você não cria reações explosivas, como exemplo: o Lula, o STF, o Alexandre de Moraes e a Globo. Todos esses atores que já foram alvo do bolsonarismo antes, eles são constantemente atacados porque quando você identifica o inimigo e cria-se esses ataques em cima desses inimigos você mantém a sua base unida, criando um comprometimento tanto emocional quanto psicológico para continuarem unidos visualizando estes atores como inimigos do Bolsonaro e sua base. Manter os inimigos vivos consequentemente mantém essa base viva; agora, quando surge a figura de um novo inimigo essa base tende a ter uma explosão: quando tem uma revelação nova, quando uma figura toma protagonismo na luta contra Bolsonaro, as pessoas são sensíveis a informações novas, a desinformação nova. Como no momento não ocorreu esses cenários, mantém-se esse caos estável de sempre reciclar inimigos antigos, reciclando desinformações. Quando o inimigo sai de cena, o ataque também diminui e a base diminui um pouco o engajamento, para quem está no controle dessas bases e quer constantemente instigá-la é ruim, o fato de figuras como o Lula não terem dado declarações recentes que possam ser usadas para motivar essa base, dificulta o engajamento. 

Ontem (01/02/2022), por exemplo, o ministro Roberto Barroso gerou uma certa explosão, mas não muito, pois ele já é um inimigo antigo, entretanto não tanto quanto o Ministro Alexandre de Moraes que foi para linha de frente contra Bolsonaro no inquérito das Fake News. Mas ontem a postura do Barroso foi muito mais ofensiva do que o normal, que não estamos acostumados, ao fazer isso ajudou a manter os grupos bolsonaristas instigados, mas nada assim fora do comum. Meu entendimento sobre isso é que quando se recicla muita desinformação do passado é porque quem está no comando para definir/pautar a agenda dos conteúdos disseminados nos grupos tanto de WhatsApp quanto do Telegram está em crise, ou desalinhado, ou sem material, ou em risco de investigação, ou seja, algo está errado, não tem essa de ‘a estão esperando o melhor para depois’, pois o modus operandi é muito reativo, eles ficam de prontidão, mas não tem agido atualmente, pois algo está desalinhado. É muito difícil ter clareza do que efetivamente está acontecendo, pois é um nível muito superior de comando, o chamado ‘gabinete do ódio’ onde não há brechas para acessar.

Em um cenário de derrota eleitoral para o Bolsonaro, o professor acredita na possibilidade de grupos bolsonaristas extremistas serem instigados a promoverem uma insurreição assim como ocorreu nos Estados Unidos com apoiadores de Trump?    

Eu acredito que sim, considerando esse comportamento e cenário atual em que Bolsonaro vai para sua reeleição e vem o tempo todo comprometendo o sistema eleitoral brasileiro, já plantado na sua base, principalmente na sua base mais fanática, que as urnas são hackeáveis dá indícios de uma resposta enérgica. Recentemente, Bolsonaro parou de falar constantemente e disse timidamente que não tem nada de errado com as urnas, mas fala de uma forma que não convence mais sua base e ele não possui interesse em desconvencer sua base de que não há nada de errado. 

Então, essa questão já está planta, está adormecida, mas está ali, volta e meia o tema é revisitado, refrescando a memória dessa desinformação, mas com esse terreno já todo plantado para esse tipo de desinformação eu acredito que o Bolsonaro não vá aceitar o resultado das eleições, não fará a entrega de faixa e, por não aceitar, vai duvidar o tempo todo do resultado eleitoral. 

Insurreição promovida por apoiadores de Trump no Capitólio em janeiro de 2021. Fotografia por: por Michael Nigro.

O Bolsonaro entrega um país pior do que quando ele pegou, muito pior. Olha que em 2016 o governo Dilma apresentou políticas de austeridade para tentar justamente conter a crise e em 2017/2018 já tínhamos sinais de recuperação, sinais muito tímidos até por conta da própria crise, mas todos os números de inflação, do dólar, de produção nacional e juros, tudo favorável a uma melhora, entretanto chega 2019 e 2020 pré pandemia e todos estes números já estavam pior, lógico que com a pandemia esses números pioraram (e piorariam), mas por ele dobrar a aposta nessa crise, ele agravou muito mais. Ou seja, tudo que ele entrega em 2022 é muito pior do que quando ele pegou, só que para falar que o Brasil está saindo da crise, que ele fez muita coisa e que está numa boa será preciso recriar essa realidade e a única forma de fazer isso é criando desinformação, então em 2022 a gente verá uma tensão social, uma ansiedade social muito pior que em 2018, será uma batalha de desinformação. Entretanto, para recriar essa realidade, Bolsonaro terá que dobrar a força de sua máquina de Fake News. 

Em 2022, com essa ansiedade social, a população em geral, mas em especial os fanáticos vão estar no limite onde qualquer fagulha pode gerar uma convulsão social, já que Bolsonaro vem preparando o terreno para isso acontecer. Tudo está levando a crer que vá acontecer de uma forma até pior, parece que o roteiro do Brasil é um roteiro bem mais apimentado que nos EUA, afinal o Bolsonaro [e o bolsonarismo] importa essas narrativas muito mais amplificadas, possibilitando uma insurgência frente a suas ações como ao facilitar o acesso à armas, incitar a população, não aceitar das eleições, duvidar do sistema eleitoral brasileiro, não passar a faixa e assim por diante. A questão é que tudo pode mudar, hoje há dúvidas se Bolsonaro chega ou não ao segundo turno, não é mais se ele ganha. Todas as pesquisas vêm mostrando o Lula ganhando em todos os cenários e ele [Bolsonaro] não têm só um inimigo agora, em 2018 era apenas o PT onde Lula estava na face do Haddad e da Manuela D’Ávila, só que hoje ele tem o Lula, o Moro, o Ciro — que vem forte, não tão forte como o Lula, mas com uma presença muito forte, um espaço muito grande na mídia e nas redes sociais representado pelos ciristas que são bem articulados — ou seja, ele vai apanhar de todos os lados, até porque a situação sempre é o alvo das maiores críticas no jogo político e tudo indica que ele vai perder, o medo dele é que ele e seus filhos vão para a cadeia, ele não possui nenhum comprometimento com o Brasil, o comprometimento dele é com os filhos e com ele. Com ele perdendo as eleições, perde-se o controle das instituições as quais manipulava a seu favor e sabendo que a derrota é praticamente certa ele não irá querer perder esse foro privilegiado. 

Como você enxerga as instituições brasileiras e a oposição, elas estão preparadas para essa guerra informacional? 

A questão é que o bolsonarismo usa dos métodos mais nefastos e mais perversos. A oposição não usa esses mesmos métodos, mesmo figuras como Moro e Doria não usam essa Milícia Digital em suas campanhas que o bolsonarismo usa. Então, nunca o outro lado será tão articulado como quanto Bolsonaro que está constantemente quebrando as regras do jogo, não tem como competir. A esquerda é sempre colocada em um pedestal onde ela não pode errar, mas enquanto isso o outro lado é só antiético, é só o errado e está tudo bem, não tem como comparar essa competição onde cada um está subjugado a regras diferentes. Não tem como criticar a esquerda por não ser tão articulada quando o outro lado articula por meios ilícitos, entretanto é preciso achar formas de se reinventar nas questões que envolvem comunicação digital, acredito que [a esquerda] vem trabalhando muito forte nisso para tentar sobrepor essa desvantagem de não poder quebrar as regras.    

O cenário de 2018 pegou muita gente de surpresa, a gente sabia que a desinformação ia acontecer, a gente sabia que haveria trapaças, mas ninguém imaginava que seria daquele tamanho; hoje a expectativa está bem realista com o que se pode e o que não se pode fazer nos limites das capacidades tecnológicas e agora todos os olhos estão virados para a situação.     

Você acredita que a população hoje em 2022 está mais preparada para lidar com a desinformação comparado com as eleições de 2018?

Acredito que sim, por mais que ainda seja extremamente preocupante, ainda é uma arma perigosa que pode afetar nossa democracia e está disposta a isso. Acredito que hoje estamos mais preparados e mais críticos, de uma forma geral. Uma das formas de se ver isso é a base bolsonarista ter diminuído e ficar estagnada naqueles 25%/30%, porque Bolsonaro só funciona na propaganda e sua propaganda é toda baseada na mentira. 

Como falei, ele entrega um país muito pior do que quando pegou e para convencer que o país está melhor é só na base da desinformação, algo que a população já não vem respondendo da mesma maneira que antes. Também tem a questão de que a desinformação é absorvida pela inteligência emocional, pela emoção, por isso é muito difícil desconstruir a desinformação porque ela está atrelada à crença da pessoa e não tem nada de racionalidade. Quando falta comida no prato do brasileiro, quando você vai ao supermercado e aquilo que você vê no WhatsApp não condiz com a conta final da compra, o brasileiro percebe, ele não é burro, ele é inteligente e isso que muito a esquerda mais fora da realidade peca em reconhecer, a população brasileira mais carente é extremamente racional, pensa, analisa e a realidade toma forma. Hoje a população já enxerga as redes sociais como espaço de desinformação e não mais só de entretenimento e lazer. É importante ressaltar que Bolsonaro pode sair, porém, o bolsonarismo vai continuar.

O dilema das Redes

A questão é que para acabar com a expansão das Fake News às redes sociais iriam comprometer o cerne do seu modelo de negócios, ou seja, seu rendimento, porque o que mais gera dinheiro, o dado digital que é a commoditie atual dessas plataformas, são os engajamentos, é o like, é o comentário, é tudo que te prende na plataforma, ou seja, capitalizar a economia da atenção que busca manter o usuário o maior tempo possível naquele espaço vendo anúncios, assim que eles ganham dinheiro. A melhor forma de prender a pessoa na tela é trazendo conteúdos que gerem comoções, e o que mais gera comoção pode ser positivo ou negativo, entretanto a negativa possui maior poder de persuasão que a positiva, então não é de se surpreender que a maioria das Fake News vem junto de um discurso de ódio, da criação de um inimigo, vem da desumanização do oponente, tudo que crie esse ódio e essa raiva. 

No fim as redes fingem que não vêem, derrubam uma conta ou outra para manter uma imagem de atuante, mas não fazem uma ação mais firme porque sabem que irá comprometer o rendimento deles. Em  um relatório do Election Integrity Partnership (EIP), um grupo que inclui da Universidade de Washington e Stanford, eles identificaram que no final das eleições americanas [de 2020] pairava uma nuvem de desinformação quanto aos resultados e explosão no discurso de fraude eleitoral, onde sete ou oito contas geravam essa desinformação. Se um pesquisador de fora consegue identificar isso, é claro que o Twitter também consegue, bastava derrubar essas poucas contas que você acaba com a fonte que dissemina essa desinformação, fazendo com que a discussão orbitasse apenas na periferia do debate público. Mas porque não o fazem? Porque gera engajamento, que gera commoditie que, por fim, gera renda. O Facebook (atual Meta) e o Twitter querem que suas plataformas sejam saudáveis? Eu acredito que sim; eles querem que acabe a desinformação? Eles querem, mas desde que não comprometa o rendimento deles. É um modelo de negócio insustentável. Shoshana Zuboff, que escreveu Capitalismo da Vigilância, apresenta uma solução conveniente: acabar com o Vale do Silício porque deu errado. Errada ela não está, mas é uma solução que não produz muito porque não irá acontecer, afinal eles se tornaram empresas extremamente poderosas; o que mais tem em Washington DC são lobistas dessas empresas.

Isso nos leva a pensar na importância de se buscar figuras políticas que estejam a par da questão tecnológica, das Fake News e das Big Techs para que a gente os eleja, o que falta é regulamentação. A minha esperança não é aqui nos Estados Unidos, porque aqui são Jogos Vorazes para essas empresas e elas não possuem vergonha de serem assim. O que me dá esperança são países que são críticos aos Estados Unidos, como países da Europa e da América Latina que possam regulamentar e que essa regulamentação local possa influenciar em uma esfera global, até porque o maior mercado deles [das Big Techs], por exemplo, do WhatsApp é o Brasil, a Índia. Hoje a política mais progressista em relação a isso é da Europa com a General Data Protection Regulation (GDPR), já no Brasil a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) é extremamente eficaz, apesar do que foi idealizado no começo se perdeu um pouco quando passou pelo congresso, mas ela é muito boa, então a gente precisa de pessoas que entendam o dinamismo que as leis vão precisar no dinamismo tecnológico que a gente vive, hoje para mim essa é uma das agendas mais importantes. É preciso entender que não existe vida virtual e vida real, é uma vida só, que existe são experiências online e experiências offline que contribuem para vida como um todo.

Qual sua opinião sobre o novo aplicativo ‘Bolsonaro TV’ desenvolvido pelo secretário do presidente? 

É um aplicativo com a possibilidade da radicalização no sentido de tornar as pessoas mais extremistas porque ele só tem um canal de difusão de informação, através de toda uma curadoria para entregar uma mensagem controlada pelo bolsonarismo, não tem nenhum espaço para o diálogo ou para o questionamento. Enfim, esses tipos de aplicativos eles tendem a estar fadados ao fracasso, não ao fracasso de fechar as portas, mas de se manter na periferia do debate público, como aconteceu com o Parler, porque você mantém uma bolha extremamente unilateral, que só possui uma visão de mundo. Para manter as pessoas engajadas é preciso daquele conteúdo odioso, da comoção, só que chega uma hora que por ser só de um lado, uma visão, as pessoas começam a perder a sensibilidade, existe um limite desse ódio, para manter essa bolha motivada – e nessa lógica você sempre precisa de algo a mais – chega um ponto em que realmente extrapola qualquer nível de normalidade, não dá certo nesse sentido. Claro, é perigoso. Como falei, tem o poder de radicalização é um aplicativo para quem está interessado em pesquisar acaba ali virando um espaço para entender todas as facetas do bolsonarismo, mas longe de ter o impacto de aplicativos como Telegram e WhatsApp, porque lá você tem o grupo da igreja, grupo da família e por acaso tem o grupo da política, as pessoas estão nesses aplicativos por diversos motivos e não exclusivamente por conta do Bolsonaro, que também é um motivo, mas não é 100% por ele, eles precisam dessas diversas bolhas se atacando, se tocando para gerar o engajamento, o aplicativo do Bolsonaro não faz isso, então está fadado a esse fracasso.  

Mesmo não tendo uma adesão imensa o aplicativo pode ser usado como um minerador de dados pessoais, frente às violações constatadas nos Termos de Uso?

É a possibilidade da perversidade do uso do aplicativo, nisso não discordo. O perigo disso é, por exemplo, em 2018 quando ocorreu aquele disparo em massa de mensagem patrocinado por empresários bolsonaristas ali realmente usaram um banco de dados – se especula que tenha sido o banco de dados da Havan – que possui milhares de números de celulares cadastrados, o que poderia acontecer com esse aplicativo. 

Como a desigualdade tecnológica, abordada no livro recentemente lançado pelo professor ‘Tecnologia do Oprimido’, trouxe sequelas para o cenário atual?

O meu livro traz a perspectiva freireana para entender o que é a opressão nessa era da informação, nessa era de plataformas digitais, como se dá essa opressão; quem é o oprimido; quem é o opressor e qual o papel das plataformas em relação a isso. Eu utilizo de uma pesquisa etnográfica que comecei lá em 2012, ou seja, completa hoje dez anos de projeto e que eu vejo toda essa transformação que é inevitável, as coisas evoluem de uma certa maneira, mas a questão da opressão parece atemporal então eu tento trazer como essa opressão é codificada no mundo digital, claro, eu mostro como que funciona a questão da separação de classes que deixou bem clara a distinção entre Facebook e Orkut e como que as classes mais baixas, quando migraram para o Facebook deram forma ao processo de ‘orkutização’ que ocorreu nas mais diversas esferas sociais como nos aviões quando as passagens ficaram mais acessíveis, assim sendo essa não aceitação do compartilhamento de espaços com as classes mais pobres. 

Conto como os oprimidos, moradores de uma das favelas de Vitória, se apropriam dessas tecnologias para achar um certo tipo de libertação, não é uma libertação completa, mas é uma libertação para sobreviver, para achar um certo entretenimento, um certo prazer, um certo descanso e uma realização pessoal nesse mundo de opressões, exponho como eles usavam o Facebook, com métodos de aprendizado dialético, para se ajudar na construção de conteúdos digitais. Relato a história de um famoso, que no livro chamo João, que engajou diversas oficinas no telecentro para aprender a fazer vídeos e conteúdos digitais, como ele se projetou e como a tecnologia o ‘empoderou’. Um dos efeitos disso foi que ele começou a organizar encontros na pracinha de Itararé até que decidiu convocar um ‘rolezinho’ no shopping Vitória, o shopping central da cidade, um espaço onde brancos e ricos circulam, chegando lá ele teve a experiência de tudo que é ser um preto e pobre em um espaço branco e rico, todo tipo de preconceito. João deu ainda mais azar porque no mesmo dia estava acontecendo um ‘rolezão’ fora do shopping que não tinha nada a ver com ele, onde a polícia foi chamada, arbitrariamente, sem nenhuma violação e criando aquele clima de tensão. Dado momento, passa uma moto com o escapamento modificado que faz sons parecidos com o de tiro, nisso as pessoas acharam que viera da polícia e correram para dentro do shopping em busca de abrigo, quando entraram a imagem de pessoas negras correndo em espaço branco foi rapidamente associada a um arrastão, começaram a fechar as lojas, a polícia entrou e literalmente separou as pessoas pretas das brancas, nisso o João e seus seis amigos, que não tinham nenhuma relação foram arrastados para o grupo das pessoas negras, ordenados que tirassem a camisa, colocassem as mãos para trás e saíssem enfileirados enquanto os brancos apenas assistiam e batiam palmas para polícia. No final o João me falou em uma ligação, nervoso e chorando ‘qual é a vantagem de estar incluído digitalmente, empoderado tecnologicamente, se quando eu vou ao shopping isso acontece comigo? Vou ser sempre o preto e pobre, nunca vou estar a par da pessoa branca.’ O que ele fala é uma conclusão perfeita. 

Abordo também os protestos de 2013 sob a lente das favelas, onde eles falam que por causa da desigualdade digital e pelos protestos terem sido organizados quase em sua maioria no Facebook a informação não chegou aos mais pobres a tempo, as redes sociais offline das classes mais altas não se cruzam com as redes offline das pessoas das classes mais baixas. Eles [das classes mais baixas] ficaram sabendo porque um dos protestos foi televisionado, ou seja, meios menos exclusivos de comunicação, no segundo protesto eles foram, só que ao  chegar lá e a agenda das demandas já estavam todas pautadas justamente pelas classes mais altas. Sobre os protestos de 2013 eu rechaço essa ideia de que foi o início do bolsonarismo, não é, inclusive faço essa clara distinção entre os movimentos de 2013 comparados aos de 2014, 2015 e 2016, são duas coisas completamente diferentes. 

Terminando esse capítulo que se chama ‘geografias da opressão’, passo para a ‘tecnologia do opressor’ onde caminho de 2013 até a ascensão de Bolsonaro, falo de como o brasileiro viu nas redes sociais uma forma de se organizar, de programar protestos e movimentos sociais e como isso foi o legado de 2013, em contrapartida  com o legado dos anos seguintes que foi a ascensão da extrema-direita, de movimentos como MBL e ‘Vem pra Rua’ e o porquê migraram para o WhatsApp e termino o livro com a efetiva ascensão do Bolsonaro. abordo o porque a extrema-direita odeia tanto Paulo Freire e a exponho a tecnologia da esperança, ou seja, a apropriação da tecnologia de opressão pelo oprimido para se libertar da opressão. Conto da ameaça de morte que sofri no Ibirapuera e que me fez sair do Brasil e me impediu de voltar para aí, mas termino com uma fala mais esperançosa.                 

O que você achou da fala do Ministro Barroso como presidente do TSE com um tom mais agressivo e os reflexos nos grupos bolsonaristas?

Foi uma posição extremamente dura, extremamente séria porque a gente vê um ministro do Supremo e presidente do TSE fazendo uma acusação que em qualquer democracia mais séria ela é investigada a fundo, pois colocasse em risco a segurança nacional, você compromete o mais importante processo democrático de uma nação que são as eleições, um ataque direto à soberania popular. O problema é que diante dessa caos, dessa ansiedade social onde a gente vive onde todo dia o Bolsonaro introduz uma crise a fala de Barroso para nós é vista como séria, mas de repente, diante de todos os absurdos que a gente já viu, a gente perde a sensibilidade e não vê com a devida seriedade, mas ela é de extrema seriedade. Para mim, é uma das falas mais fortes durante todo o governo. 

Nos grupos bolsonaristas teve todo aquele rebuliço porque o Barroso toma o posto n.º1, momentaneamente, como esse inimigo dentro do bolsonarismo e muita preocupação porque para eles foi uma fala muito forte também; claro que a narrativa geral estampa o ministro como inimigo do povo, do presidente e da nação, mas o peso da fala trouxe nesses grupos o silêncio, o silêncio quando acontece nesses espaços é porque realmente se tem essa preocupação, não se sabe ao certo como reagir e fica a espera de ordens de quem pauta esses espaços e como não veio, fica tudo disforme.

O dilema do Telegram

A situação que a gente se encontra entre TSE, STF, Ministério Público Federal e o Telegram é uma situação em que até então as soluções possíveis são ruins que são: 

  • Não fazer nada, deixa o aplicativo rodando, ou seja, deixa esse antro de desinformação onde o Telegram não tem nenhum comprometimento em conter a disseminação ou fazer qualquer tipo de moderação de conteúdo. Um estudo recente em Myanmar mostrou que de novembro a janeiro o Telegram fez absolutamente nenhuma moderação de conteúdo, isso deixa muito claro que a empresa quer deixar o jogo rodar sem qualquer interferência, é ruim porque não existe campo para se jogar que não tenha regras, principalmente quando essa regra é a Constituição. 
  • Banir o Telegram é uma solução horrível também, ninguém quer, mas entre manter a soberania da constituição e manter um aplicativo é lógico que a Constituição vai sobrepor.

Não é que quero isso, mas é a situação que a gente está, é impossível a gente ter uma ação democrática com um aplicativo, uma empresa, que não é democrática, e não digo no sentido das consequências que podem rolar, mas no sentido de que eles não querem conversar. Como que a gente vai manter uma democracia onde o espaço democrático de negociação não prevalece? Quem já cita o tom da punição é o próprio Telegram, que se recusa a qualquer tipo de debate.

O banimento ninguém quer, mas o Telegram está praticamente  pedindo por isso e há, na lei, instrumentos que viabilizem isso, temos a LGPD e o Marco Civil da Internet que em seu artigo 19 fala que com intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura, o provedor de aplicações de internet somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar as providências para, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço e dentro do prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente, ressalvadas as disposições legais em contrário. Com o prolongamento dessa recusa, dessa desobediência jurídica a punição virá e a justiça eleitoral pode declarar por meio de resolução a vedação de se realizar qualquer tipo de propaganda eleitoral nessa plataforma. O Telegram precisa se engajar nesse debate. O WhatsApp, por exemplo, continua sendo o principal espaço de disseminação, mas pelo menos há uma vontade por parte da plataforma, claro, é uma vontade superficial, não vamos nos enganar, porém, existe e já fizeram alguns esforços como limitar o número de mensagens encaminhadas; toda vez que você é adicionado em um grupo é preciso consentir, o que não acontecia antes; estão detectando disparos em massa com maior precisão, ou seja, diversos esforços que ao olhar do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é satisfatório, já no meu olhar como pesquisador está muito a quem, precisa de muito mais, mas o Telegram não faz absolutamente nada e os canais abertos não são criptografados, ou seja, eles têm acesso ao conteúdo e saber que tipo de coisa está circulando por lá diferente do WhatsApp.