Em 2018, sentada pela primeira vez em sala de aula com meu hijab, minha ex-professora, que se dizia extremamente feminista, começa a falar não tão coincidentemente sobre como mulheres são oprimidas no islã. “As mulheres fogem daqueles lugares e chegam aqui querendo liberdade,” ela diz. Cabelos pintados para não mostrar nenhum fio branco, unhas feitas, maquiagem impecável. Mas o meu véu é que se torna um sinal tão claro do patriarcado. A escolha que ela fez em se apresentar daquele jeito é perfeitamente normal, mas a minha escolha se torna uma ameaça ao feminismo dela.

Mas, hoje em dia, cobrir o rosto e o cabelo é algo que está sendo considerado aceitável, e até estiloso, graças à ascensão do uso da balaclava. Se eu voltasse àquela mesma sala de aula usando uma balaclava, seria recebida da mesma forma que eu fui com um hijab? 

A balaclava, acessório de roupa que cobre parte do rosto, foi criado na Guerra da Crimeia, no século XIX, especificamente na Batalha de Balaclava, usada pelos soldados britânicos para se proteger do frio da Crimeia. 

Ela tem gerado muito conteúdo em redes sociais como o TikTok e o Instagram. Muitas influencers tem baseado seu conteúdo em como fazer uma balaclava, como improvisar uma balaclava, como usar uma balaclava, como combinar a balaclava com outras peças de roupa. De um jeito ou de outro, se você acompanha conteúdo sobre moda, você deve ter esbarrado em um desses tutoriais. Por outro lado, temos muitas outras influencers expressando sua frustração com o uso desse acessório. Nessas redes sociais, muitas hijabis evidenciam o tratamento diferenciado que recebem pelo uso do hijab. Enquanto várias criadoras de conteúdo são elogiadas e prestigiadas pelo uso da balaclava, as hijabis são violentadas, discriminadas e julgadas pelo uso do hijab, o véu que se assemelha bastante a balaclava.

Ao mesmo tempo que mulheres que utilizam hijabis são chamadas de terroristas, oprimidas e submissas por usar o véu, o uso da balaclava tem sido enaltecido e considerado uma trend. A balaclava é objeto de fascínio e adoração pelo mesmo motivo que o hijab é objeto de repressão e ódio. Cobrir o rosto e a cabeça se torna algo avant garde, diferenciado, único, mas quando uma hijabi cobre o cabelo, de repente, a reação se torna o oposto.

Ao sair de casa usando um hijab no mundo ocidental, mulheres correm o risco de ataques, assédios verbais e físicos, às vezes até morte. A pessoa que usa a balaclava consegue desfrutar do mesmo direito de cobrir a cabeça, sem sofrer a perseguição e os ataques que hijabis comumente sofrem. Se não for atacada e acusada de ser uma terrorista, a hijabi é vista como uma ‘pobre coitada’, uma vítima do patriarcado oriental. O feminismo branco liberal do ocidente tem uma ânsia em salvar a mulher oprimida das garras do islã. A guerra ao terror pintou a hijabi ou como vítima de um sistema opressor ou como o inimigo, uma ameaça à liberdade. Não existe uma visão positiva sobre ser hijabi no mundo ocidental.

Existe uma comoção muito grande para salvar a mulher muçulmana, para arrancar o véu de sua cabeça e libertá-la do terror que é o islã. Mas nada se diz sobre a balaclava. Quando uma mulher faz a escolha de colocar uma balaclava, continua sendo uma escolha. Quando uma mulher faz a escolha de colocar um hijab, se torna uma opressão.

O hijab, por ser relacionado ao islã, é imediatamente estigmatizado e vilificado. A religião ainda é muito desconhecida e inexplorada pelo ocidente, sem contar que ainda somos bombardeados quase que diariamente com notícias sobre grupos terroristas, sobre os horrores que acontecem com as mulheres no Oriente Médio, sobre o vilão por trás de tudo isso: o islã.

Nós acabamos nos tornando a representação do islã em qualquer lugar que vamos, pois, carregamos um símbolo dele todos os dias. Para entender e conhecer a experiência de mulheres hijabi, é necessário nos escutar. O islã não se resume aos grupos terroristas e aos líderes tiranos, e nós não somos o retrato de opressão e submissão que o ocidente tenta nos forçar a ser.

Se a balaclava é um símbolo de criatividade, liberdade de expressão e personalidade, o hijab, niqab e a burqa não são tão diferentes. Mas a simbologia do véu religioso vai um pouco além. O hijab é parte de nossa identidade, nossa fé e resistência à imposição do mundo ocidental.