The Batman (Matt Reeves) estreou em 3 de março de 2022 no Brasil sombreado por extensas expectativas. O herói, narrado por vários autores em várias mídias (HQs, desenhos animados, cinema), é um dos mais relevantes da cultura popular do Ocidente. Cada versão do personagem traz consigo tanto a perspectiva de um artista, às vezes tímida, quanto atualiza questões para que elas se conformem ao tempo histórico. Logo, algumas se repetem com outra roupagem – como a corrupção e violência de Gotham –, outras de fato emergem inéditas.  

Os aspectos técnicos de The Batman são primorosos. A trilha sonora, de Michael Giacchino, aumenta fisicamente a imagem do herói privilegiando tons graves. Gotham, imersa em trevas, é chuvosa e verossímil. A atuação imponente de Robert Pattinson – que transmite amargura, introspecção – é fortalecida pelo design do traje, que carrega uma aura demoníaca. Sem tais detalhes, as aparições do morcego perderiam em intensidade. Destaque para a competência do resto do elenco, principalmente Colin Farrel, Paul Dano e Zoë Kravitz.

A fotografia do filme é mais escura em comparação aos últimos longas-metragens do herói; a iluminação provém, na maioria das cenas, de poucos objetos – das luzes piscantes de uma boate, do crepúsculo, das chamas, das balas ricochetando no traje do morcego. A luz, como apontado no review sem spoilers do canal Pipoca & Nanquim, é quase um acidente. O primeiro trailer do filme, contudo, entrega diversas das cenas mais espetaculares: o que fez, para mim, com que elas perdessem potência. Ver os quadros pela primeira vez na tela do cinema resultaria em outra experiência, possivelmente de maior impacto. De fato, assistir a prévias é opcional – é injusto, então, considerar um demérito da obra.

Greg Fraiser, diretor de fotografia de The Batman, também dirigiu a lindíssima cinematografia de Duna (Denis Villeneuve, 2021).

Sobre a trama (spoilers a seguir), como propõe Matheus Benites no vídeo Batman e Jung: um herói em busca de si mesmo, o Cavaleiro das Trevas é uma figura trágica. Tal qual o grego Sísifo, sentenciado pelos deuses a subir um monte com uma rocha pela eternidade, Bruce Wayne está condenado a ser Batman. A criminalidade de Gotham, resultado de uma profusão complexa de fatores, jamais será extinta pelos punhos vingativos de um órfão atormentado pelo passado.

O esforço do personagem é um analgésico para uma hemorragia interna; o sangue permanecerá jorrando entre as entranhas apodrecidas de Gotham. A partir de uma perspectiva psicanalítica, Batman é o sintoma construído pelo inconsciente de Bruce Wayne, com o intuito de significar o mundo, de ofertar sentido a uma realidade caótica. Enquanto que o desordeiro Charada faz-se a si próprio pelo ventre do símbolo Batman. Talvez seja o herói um agente duplo, isto é, aquele quem reproduz inconscientemente porções do caos para ser o sujeito ordenador. Reproduz caos para produzir ordem. Sem caos, inexiste cosmos para ele.

Daí se retiram algumas discussões sociais. Como mencionado antes, Charada se apropria da imagem de Batman para corrigir, por meio da morte, as distorções da cidade. Para ele, assim como para Wayne no começo, o morcego encarna a vingança, o terror relativo ao status quo de Gotham – os políticos, a polícia, o judiciário. Feito um sádico, Charada mata um por um, disseminando o horror entre as classes privilegiadas: supõe, assim, ser possível resolver as coisas. Eleva a uma potência máxima o cidadão comum, o ser humano sem-lugar dentro de uma ordem social em decadência.

Tanto representa outros que, transmitindo lives na internet, conquista um público fiel tão enraivecido quanto ele. Torna-se também um símbolo, escorre o rio de ódio em direção aos dirigentes da cidade. A raiva extravasa o ambiente virtual, afogando o mundo físico. De um discurso violento para uma práxis violenta. Para além de uma pessoa com possíveis transtornos mentais, Charada é produto direto de Gotham – lugar semelhante às metrópoles capitalistas do século XXI, com problemáticas quase gêmeas. Conclui-se daí que uma ordem social fundada em violência, permeada por desigualdades abismais, por fome, por abandono, por instituições corrompidas, produz e reproduz mais violência.

Eis uma questão: como superar uma ordem social violenta sem a própria violência? Vale relembrar que o Antigo Regime, em alguns países, como na França, caiu em conjunto da cabeça das classes dominantes. A burguesia ascende ao poder banhada de sangue da nobreza. Mantém-se no poder pela força – às vezes pelas armas, quando o discurso perde poder de contenção das ondas revolucionárias. Existirão possibilidades para uma transformação social pacífica?

The Batman, apesar de alguns defeitos, como a lentidão desnecessária do terceiro ato, é um espetáculo visual – vale a pena, portanto, assistir ao filme na tela de cinema. Se possível, evitando os trailers. A marca autoral de Matt Reeves é evidente. A obra, atualizando as questões que permeiam o herói, possibilita valiosas reflexões psicológicas e sociais em tempos tenebrosos de guerra.