Mãezinha. Eu tinha um bacharelado e um mestrado, um cargo público, trinta anos de vida, um-e-setenta de altura, mas ainda assim quando eu tive um bebê algumas pessoas me chamavam assim – mãezinha. As minhas poucas amigas me chamavam assim, algumas tias e até uma ou outra prima, mesmo as mais novas que eu. A Taiane é uma mãezinha magrinha magrinha, elas diziam. Mas o diminutivo usava do pretexto carinhoso para esconder sua intenção real, que era de caracterizar os meus atos de incompetência. O pézinho do bebê está frio, mãezinha, põe uma meia senão fica doente, elas diziam enquanto esfregavam os pés da minha filha, como se ela precisasse ser salva de uma hipotermia iminente. O Rafael fazia uma piada disso, sua mãezinha quer fazer picolé de neném, ele falava para a nossa Helena, tantas vezes que começamos a chamá-la assim, de Helena-picolé. Sua mãezinha leu que não é frio, mas sim circulação fraca que deixa seu pé gelado, eu sussurrava para ela, rolando os olhos. Mas como tenho uma natureza secretiva, nunca retruquei ou expus o conhecimento que eu tinha, mesmo que, no fundo, o nome e as críticas me machucassem. 

Nós morávamos em um apartamento pequeno em São Paulo, no bairro Paraíso, começo da Avenida Paulista. Quando o bebê nasceu erguemos uma parede extra no pé do nosso quarto para colocar o berço e o trocador, o que restringiu ainda mais os poucos sessenta metros quadrados que possuíamos. Além dos “dois” quartos, havia um banheiro apertado, onde as pernas ficavam dentro do box do chuveiro enquanto você estava sentado na privada, e uma sala com a cozinha conjugada. O varal ficava ao lado do fogão, o que deixava nossas roupas com cheiro de alho. Sem espaço para uma mesa de jantar, fazíamos as refeições no sofá. Em todas as paredes havia estantes de livros lotadas com exemplares, o que para alguns dava um ar claustrofóbico ao apartamento, mas que para nós, era uma fonte de prazer e orgulho. 

Eu tinha um salário médio como escrivã, que dava para pagar o aluguel e as despesas básicas. Não sobrava nada para uma poupança, o que nos amedrontou um pouco depois da chegada do bebê. Mas dizíamos-nos que era o suficiente por ora. Eu fazia doutorado à noite, em história da arte, e estudava para passar em algum outro emprego que me caísse melhor. Rafael também esperava por um concurso para professor em universidade pública e por enquanto usava seu tempo livre para escrever alguns livros de engenharia, pelos quais às vezes recebia um cheque pequeno de comissão. Não era de todo o ruim. A nossa “pobreza,” se assim se pode chamar, parecia idealizada, pela qual todo intelectual deve passar e, principalmente, ou certamente, parecia provisória. 

Se essa realidade foi suficiente e até idealmente romântica para os nossos primeiros anos de casamento e primeiros meses cuidando de uma recém nascida, quando Helena fez um ano os ventos começaram a mudar. Ela exigia cada vez mais espaço, engatinhando na nossa pequena sala como um rato em uma gaiola. Seus brinquedos e roupas pareciam se multiplicar exponencialmente, não importando quantas vezes fizéssemos doações. Os livros das prateleiras próximas ao chão estavam sempre jogados no chão, conquistas de Helena, que duas vezes caiu para trás tentando se pendurar na estante, mas que nos empurrava as mãos se tentássemos segurá-la. Eu passava o dia limpando comida que ela jogava no sofá, agora que ela só comia com as próprias mãos, investigando com as sobrancelhas contraídas e, na maioria das vezes, rejeitando tudo o que eu oferecia. Toda a competência que sentíamos quando ela era menor, competência essa atribuída ao nosso pacto, como pais modernos, de dividir os cuidados dela igualmente e de buscar informação em literatura e não em tradição, agora era confrontada com uma força muito maior e indomável: a vontade própria de Helena. 

E se dentro de casa nós vivíamos o humor tempestuoso da nossa cria, que nos balançava e tombava e dominava, assim também era a vida lá fora. Eu e Rafael agora negociávamos este ou aquele pretexto que permitiria que um de nós saísse, fizesse compras, fosse ao correio, cada qual procurando respício nas ruas. 

Não brigávamos mas também não conversávamos mais. Um era o espelho do fracasso do outro. 

A realização de que não havia nada a fazer. Com que dinheiro, com que tempo, com que coragem? 


Em uma madrugada abafada, despi-me e deitei-me no chão da sala, abrindo as janelas para sentir o vento. O frio do piso e a brisa suave eram uma reza silenciosa, e fiquei ali imóvel por muito tempo, às vezes suplicando aos deuses pelo sono, às vezes agradecendo o prazer daquele breve momento de solidão. A luz fosforescente da televisão refletia imagens na minha pele e eu balançava as minhas mãos fazendo sombras pelas paredes. Em algum momento eu vi refletido nas minhas coxas um homem de feição enrugada. Sua boca mexia-se em frenesi, sua mandíbula inferior se estendendo pela minha perna. Até me permiti acreditar que aquela imagem era de um deus ou um demônio, mas não durou muito pois nunca tive muita aptidão para a superstição. Consciente, esperei que a adrenalina passasse pelo corpo. Quando a irracionalidade rescindiu, virei-me para o televisor. Lá estava o homem, com olhos de madrugada, noticiando um aviso de emergência. 

O noticiário mostrava as imagens que eu já havia visto diversas vezes, o gráfico da costa nordestina como uma mancha negra, os flashes de ambientalistas comentando o descaso do governo canalha, os mesmos clipes da aflição dos coitados erguendo nos braços uma porção de petróleo, Sísifos absurdos fadados ao fracasso. Mas isso não geraria um alerta nas notícias no meio da madrugada. O terror que eu testemunhava havia de ser outro. 

Me acometeu a lembrança de uma linha de Emily Dickinson descrevendo o mar, an everywhere of silver, um todo de prata. A tela mostrava um plástico enorme, como um toldo negro, que se balançava como se um vento forte o atacasse. O meu mar era todo preto. A primeira impressão era de prazer. Existia ali alguma beleza, no balançar do negro sob o azul claro, na suspensão pesada das duas substâncias que não queriam se misturar. 

Mas a surpresa dissonante estava no azul. Porque o azul claro que a televisão mostrava, a limpidez, o pequeno respício de vida que sobrava ao redor do petróleo, não era o mar, como eu pensei inicialmente. Na verdade não era nem água. A câmera finalmente pendeu para baixo e eu fui tomada por uma vertigem. O azul no qual o óleo flutuava era o céu. 

O homem do noticiário voltou para a tela. Ele lutava contra um fio preso em sua lapela e em sua mesa, puxando-a desesperadamente enquanto tentava se levantar. Sem compostura, ele parecia rosnar para alguém fora da imagem. De quatro, engatinhei até o aparelho e finalmente aumentei o volume. 

O óleo está em todo o lugar. 

Ele disse. Ele disse para mim. 


A primeira vez que Helena dormiu ao seu berço sozinha eu tive uma alucinação. Rafael chamara sonho, mas eu tinha uma impressão forte de que eu estava acordada. O que eu vi foi uma faísca saindo de uma tomada elétrica, parindo uma labareda azul e depois laranja, até que o tapete, o berço e o quarto todo estavam em chamas. Eu pensava nessa cena toda vez que ela dormia e diversas vezes à noite eu encostava as mãos na parede de seu quarto tentando sentir alguma quentura, algum sinal de que eu deveria socorrê-la. 

O fogo, no entanto, não era quente. O que eu senti primeiro foi a umidade, uma gota pesada caindo no meu couro cabeludo. O cheiro de gasolina já devia estar no ar faz tempo, mas eu só notei após esfregar a gota nos meus dedos. Eu abri a janela da pequena sacada onde deixávamos os brinquedos maiores de Helena. Um cavalo de plástico rosa que ela amava rodopiava freneticamente sob seu eixo, impulsionado por flamas. Nas paredes dos prédios da frente, monstruosidades modernistas de concreto e curvas côncavas, escorria petróleo como uma cachoeira indomável. Não demorou muito para que o óleo, confrontado com a tecnologia humana da cidade, explodisse em chamas. 

A luminescência. O calor do vento. A pequenez das pessoas lá embaixo. O amor que eu senti pelo mundo que se destruía, o amor pelo o que viria. 

O que fazer quando o mundo está por acabar? Andei até o fogão. Girei o botão do queimador, que com um estalo iniciou o fogo. Primeiro eu vi a explosão na minha mente. Os livros em destruição, comburentes do fim. Meu último ato foi correr até o quarto dela, involuntariamente, um último impulso de salvar alguém. 

Senti a parede quente, como tantas outras noites eu havia imaginado. Quem mais havia pressentido este fim, quem mais havia sentido este calor antes do fogo, quem mais soube o que estava por vir? 

Sabiá

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