Pelos

Tenho raízes muito profundas, na cabeça, pernas, virilha, nos afetos, desgostos e angústias. Tenho raízes muito mais do que profundas. Por certo tempo tentei assumir uma postura positiva e tentei vê-las como algo natural de um corpo real, de um homem real, assumo agora que não sou um homem real e meus pelos me exilam para um reino onde só consigo entender a minha realidade como a de uma mulher, não real mas sim metafísica. Minha profundidade dupla de raízes que crescem tanto para dentro quanto para fora me impedem da realidade, por conta dela eu sempre me encontro em uma procura pela mulher real que eu sou em minha pele, ou do devir feminino em meu corpo, pois a mulher que encontro encontro apenas dentro de mim, em minha alma. Ou seja: eu sou uma mulher que não existe. No mais palpável e otimista sou uma mulher imaginária.

Sendo eu em minha integridade uma mulher, esta profundidade não coloca em cheque só a luta pelo meu gênero mas sim a minha própria existência pois se sou uma mulher que não existe sou muito mais uma pessoa nula e inexistente do que um homem. Sendo assim, a mulher peluda que sou, com a alma peluda que tenho, não é apenas uma experiência de desagrado estético mas sim um desconforto essencial dentro de mim.

Não poderia ser de outro jeito, entretanto. Quando era pequena e imaginava como seria crescer eu sempre imaginava que acordaria um dia, tendo passado meu aniversário de 11 para 12 anos, e então acordaria esticada, maior que minha própria cama, com um bigode e seria então uma adolescente. De certa forma, foi isso que aconteceu, encontrei-me um dia em uma aula de natação sendo recriminada pela minha colega por ter pelos nojentos em minha axila. Para esquecer disso, fui dormir e acordei o dia seguinte com a alcunha de Tony Ramos pelos meus colegas de classe, acordei um dia e já era uma pessoa que não conseguia ser a si mesma. O meu mundo, talvez pela sua pequenez ou pela sua insustentabilidade, foi criado em períodos de 10 horas de sono infantil acordando em delírios pubertário. De súbito eu não só queria que alguém sentasse em minha cara como ao mesmo tempo gostaria de sumir, perder minha forma corpórea. Se o sentido último do erotismo é a morte, para mim essa morte se caracterizaria por pelos que nunca mais crescessem, ânsia essa que me quebrou o coração quando me foi revelado que, mesmo morto, no cadáver humano ainda crescem cabelos e unhas. Eu deveria ter adivinhado que eu era trans quando naquele momento me perguntei se não teria descanso nem após a minha morte.

Essa cosmogonia não se assume pra mim apenas como um processo biopsicológico mas também assume um caráter trágico, um resultado de minhas escolhas quando criança. Se tenho pelos que me cobrem até metade dos dedos é porque tomei uma escolha errada sobre quem deveria ser, pois quem eu era naquela mesma época já era estranho. Isso eu só entenderia uma década mais tarde quando comecei a trabalhar com crianças e percebi que um ser humano minúsculo pode ter a moralidade repressiva de um policial. A criança, pela sua experiência ainda pequena em estar viva, só entende a lei pelos olhos de seus pais e dos outros adultos na qual cria laços. Sendo assim, ela é um espelho invertido das leis sociais que cercam aqueles que as cercam e, por isso, ela assume em si também um espírito de policiar e julgar de acordo com aquilo que ela imagina que seus pais pensariam e agiriam. Se ela apenas tivesse consciência disso, isso faria do seu comportamento uma sátira mas como não percebe, isso se transforma muitas vezes em apenas crueldade barata. 

Não é necessário ser um leitor muito atento para perceber que eu não era o máximo suprassumo  de performance masculina, talvez por isso escolhi como meu melhor amigo um menino muito sensível, não só sensível como pacífico, sensível como eu era e com uma paz que eu não podia ter, que vinha de um lar que eu não fazia parte e que não poderia surgir da minha alma pois se sou sensível o sou com o meu estômago. Minha postura sutilmente desviante era percebida por meus colegas másculos em miniatura que sempre procuravam me questionar e me purgar do errado que era um menino ser menina. Lembro de casos em que abraçava com preocupação materna algum amigo que havia se machucado e, em resposta a minha ternura, recebia de meus outros galhofas típicas de crianças, ser menina era uma piada que me machucava, mas não por ser uma farsa. Todo esse tipo de provocação que, sendo realista, é comum entre a convivência infantil, me tinha um peso que me tirava a paz e me deixava perplexa, afinal, os meus colegas sabiam bem antes de mim que eu de fato era uma menininha. 

Nesse mesmo período de perplexidade um outro fenômeno também me afligia e angustiava até as pontas dos nervos. Da mesma maneira que a minha sensibilidade atraia a análise árdua de meus amigos em relação ao meu gênero, as minhas pernas, naquela época absolutamente lisas, atraíam a sede analítica de pernilongos, que me picavam com mais sede com que picavam outros meninos e meninas, me vampirizavam e deixavam com muito orgulho as mais variadas marcas e machucados em mim, talvez por ânsia em saber o segredo que o meu sangue guardava. Em resposta a esses machucados o meu corpo, sempre muito ágil, tratava de me tampar os vazamentos com casquinhas que, aos meus olhos de criança, viraram o novo substituto da minha pele. Algo me atraia, entretanto, naquilo que ficava escondido debaixo dessas camadas ásperas cor de vinho coagulado, havia algo dentro de mim muito vermelho, muito ardido, que me obcecava e me deixava perplexa. A minha sede de também me vampirizar como os mosquitos faziam me impeliam a tirar essas feridas e aquilo que antes tinha o raio equivalente a de um lápis, comigo ia gradativamente se transformando em um machucado do tamanho de meu dedão. Nada era melhor do que o momento de paz breve que se seguia quando eu arrancava a casquinha. Por um sublime momento de silêncio tudo ardia mas havia um vento que entrava em minha carne viva que me permitia sentir um toque, que não era meu mas sim de Deus, este sim o verdadeiro grande outro de minha vida. Naquela pequena porção de minha perna eu tinha contato com o cosmos de uma maneira na qual eu era uma com o todo, eu era eu com minha carne viva e o primeiro filete de sangue que saia não me era energia vital saindo de mim mas sim eu sendo tão eu que transbordava até os lençóis. Eu queria mesmo naquela época manchar todas as minhas camisetas, todos os lençóis e tudo aquilo que não fosse vermelho, morreria feliz com sete anos se fosse uma morte por sangramento, transbordando tudo ao mundo, como uma seringueira muito mais sensível que meus amigos. 

Foi aí que entendi algo, na minha pele, que me separava de quem quer que fosse, raízes que me impediam de sentir o toque do silêncio e de todos que quisessem, meu corpo era a minha gestapo que me impedia completamente de alcançar o meu esperado momento de glória em que o outro não mais me acusaria. Meus pais e outros familiares olhavam para essa compulsão à exposição como um problema e as crianças olhavam para as minhas pernas com aflição, talvez nem tanto pelas feridas crescentes ou o sangue que vez ou outra pipocava enquanto eu brincava nos recreios mas sim pela constatação vinda de minhas pernas que diziam que eu não era aquele menino agitado e encabeçador de brincadeiras mas sim algo de quieto e pacífico, minhas pernas atestavam que dentro de mim havia uma sacerdotisa quieta, rezando para sentir denovo o sopro do mundo no veludo vermelho que minha pele e meus primeiros pelos escondiam. Eu muito menos queria mostrar isso à eles, não queria mais motivos para que me chamassem de menininha, então adquiri um rancor a shorts que só se resolveram quando descobri a minha paixão por saias. 

Sendo assim, nesta interpretação mística que chamo de memória meus pelos vieram daí, eles vieram para esconder o que havia de quieto, calmo e terno dentro de mim, para que ninguém jamais me chamasse de menininha eu criei meus próprios pelos, assim como o homem criou a natureza para se separar dela. Quando eu comprei meu primeiro vestido e senti o primeiro vento vindo entre as pernas já era muito tarde, eu já havia assinado o meu pacto, e da mesma forma que, antes, eu coçava por horas a fio minhas feridas em procura do momento onde, enfim, eu não tivesse casca e só tivesse minha verdadeira pele eu agora raspo minha pele com a dedicação de eliminar a forma corpórea que eu criei para não me chamarem de menininha. Talvez assim, finalmente, eles possam cumprir o meu desejo de voltarem a me chamar de menininha. 

A cobra já fez o seu trabalho em me tentar, e muito bem feito, eu trai deus e o trabalho que a criação tentou fazer em mim. Agora também me sinto uma cobra com uma pele velha que já deve ir embora, não sei agora se é a minha eterna separação com deus que faz com que essa pele velha não vá embora ou se de tão preocupada com os ataques de pernilongos e colegas ela não quer me deixar voltar a sentir o vento do mundo, o forte cheiro do sangue vivo, meus pelos são essa pele que separa o meu corpo da realidade, que me colocam no plano da ficção e minha luta contra eles é minha tentativa para voltar a ser real.



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