A validação do discurso de ódio pelo Vale do Silício é uma derrota generalizada

Desde 2016, a censura de grupos e indivíduos de extrema-direita em plataformas de redes sociais tem sido objeto de muita discussão pública. Com a implementação de leis para combater o discurso de ódio, como a Lei Alemã de Aplicação de Redes (NetzDG) e o código de conduta da União Europeia, as empresas do Vale do Silício agora são muito mais responsáveis por regular o conteúdo postado pelos usuários online. Mas nem tão responsáveis assim.

A censura de determinado conteúdo odioso pode assumir diferentes formas. Páginas ou contas inteiras – ou, em circunstâncias menos extremas, postagens individuais – podem ser removidas, uma prática conhecida como de-platforming ou no-platforming.

O Vale do Silício passou por uma série de mudanças nos últimos meses a uma velocidade vertiginosa, tornando explícito o que já deveria ser óbvio: as bigs techs rapidamente se tornaram pouco mais do que braços de propaganda dos Estados Unidos e seus aliados. Esse papel tem sido cada vez mais difícil de esconder, já que representantes políticos do ocidente e meios de comunicação corporativistas vêm provocando histeria anti-Rússia após a invasão russa da Ucrânia.

A mudança mais flagrante foi uma reviravolta brusca do Facebook em sua política sobre discurso e incitação de ódio. Os e-mails vazados para moderadores de conteúdo vistos no início do mês pela Reuters indicavam que a Meta, a empresa renomeada por trás do Facebook, Instagram e WhatsApp, permitiria ameaças de violência contra russos e incitações de morte dirigidas ao presidente russo Vladimir Putin em suas plataformas. Tais ameaças foram, de acordo com as orientações, permitidas entre usuários em grande parte da Europa e na Rússia. Mas qualquer que seja a posição oficial, a nova política do Meta provavelmente terá um impacto mais amplo, dado o quão generalizado o sentimento anti-Rússia se tornou no Ocidente.

Regras para discurso de ódio

No que foi apresentado como um “esclarecimento” na última semana do dia 15 de março, o presidente de assuntos globais do Meta, Nick Clegg, ex-líder do partido Liberal no Reino Unido, disse que os pedidos para assassinar Putin ou “violência contra os russos em geral” não seriam tolerados. Ele pareceu restringir os pedidos de violência, mais especificamente ao Estado russo e seus soldados recrutados na Ucrânia.

A política contra o discurso de ódio e incitação vem sendo diluída apenas por um grupo. Uma isenção para apelos à violência contra russos alimentará ainda mais uma atmosfera russofóbica já tangível, onde até ícones culturais renomados e mortos há muito tempo, como Tchaikovsky e Dostoyevsky, estão sendo evitados. Em uma mudança de política relacionada, igualmente dura, Meta anunciou que derrubaria uma proibição existente de discurso a favor do Batalhão Azov, o mais proeminente de vários grupos paramilitares neonazistas ucranianos absorvidos pela Guarda Nacional Ucraniana. Ultranacionalistas, os combatentes Azov, foram acusados ​​de fomentar atos de violência contra a comunidade étnica russa da Ucrânia. 

Em clima de censura

A grande hipocrisia do Vale do Silício em permitir o discurso de ódio contra a Rússia e os russos é particularmente evidente quando comparada com as proteções especiais postas em prática por suas empresas de tecnologia para bloquear críticas a Israel e israelenses. 

Se a nova política do Meta para a Ucrânia fosse aplicada imparcialmente, os palestinos teriam permissão para promover a violência contra Israel e contra os soldados israelenses que os ocupam e os cercam há décadas? Ao contrário da invasão da Ucrânia pela Rússia, que já completa um mês, Israel vem ocupando e sitiando violentamente palestinos em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém há mais de meio século. Israel também tem cometido crimes de guerra ao transferir centenas de milhares de seus cidadãos judeus para territórios pertencentes aos palestinos, em um esforço para colonizar suas terras e “purificá-las”.

Ucrânia e Rússia não se trata do bem contra o mal

No mundo todo a cobertura da guerra entre a Rússia e Ucrânia, que se iniciou com a invasão realizada pelo exército russo na quinta-feira (24) vem se mostrando um show de horrores, mas no Brasil em especial, a imprensa dá aulas de como não se faz jornalismo.

Os palestinos e seus apoiadores têm todos os motivos para condenar Israel e seus líderes, assim como os ucranianos e seus apoiadores estão denunciando Putin e a Rússia pela atual invasão. Então, por que um grupo tem o direito de incitar a violência e o ódio, enquanto o outro não? Na prática, Israel há muito é protegido por uma série de restrições para usuários de redes sociais. No que tange a situação da Palestina e palestinos, postagens arriscam serem excluídas se violarem as regras contra notícias falsas, desinformação, conteúdo ofensivo, bullying, apoio ao terrorismo (pró-palestina) e discurso de ódio.

Até aqui, vemos que gigantes da tecnologia não estão simplesmente seguindo imperativos comerciais, mas sim tomando decisões profundamente ideológicas que correspondem com os interesses do Ocidente. São monopólios de comunicação que gozam desse status justamente porque estão na cama com o aparato governamental ocidental. O Google anunciou, por exemplo, que em resposta à invasão da Ucrânia, mudaria seus algoritmos para garantir que sites críticos de ações ocidentais fossem difíceis de encontrar nas buscas.

Mas a verdade é que o Google há muito tempo manipulou seus algoritmos para favorecer o que chama fontes “autorizadas”, ou seja, mídia tradicional do tipo que raramente hospeda reportagens ou comentários que se afastam das críticas mais superficiais à política externa no que se diz respeito dos EUA e aliados. As fontes mais críticas geralmente estão tão escondidas nos rankings do Google que apenas os pesquisadores mais dedicados provavelmente as encontrarão.

Quando Putin suprimiu as críticas às suas políticas na Rússia, ele foi justamente acusado de autoritarismo. Mas o público ocidental tem sido, em grande parte, cego ao autoritarismo do Vale do Silício em nome dos EUA e OTAN. Em nossa realidade, a propagação do silenciamento da dissidência e a amplificação do ódio são patrocinadas exatamente pelas big tech ocidentais. Isso fornece um álibi quando governos como dos EUA e aliados conseguem derrubar – à distância – alguns tipos de discurso político e promovem outros tipos.

A consequência disso tudo? Jornalistas, comentaristas e especialistas críticos da própria estrutura política pelo mundo enfrentarão uma série de restrições ao falar sobre os maiores eventos que moldam nossas vidas.