O lado obscuro por trás dos animes

Sem dúvidas, animes – ou animações japonesas – são a maior representação da cultura pop japonesa no Brasil. Com suas histórias únicas e divertidas, desde décadas passadas vem atraindo cada vez mais telespectadores ao redor do mundo. Apesar de parecer ser um nicho homogêneo, se nos aprofundarmos no mundo dos otakus; fãs de animações e mangás japoneses, existem gêneros distintos que os diferenciam e atraem diferentes públicos.

Uma dessas separações é percebida entre os gêneros Shonen e Shoujo, gêneros de  mangás em teoria voltado para meninos e meninas, respectivamente. No mundo dos animes e mangás, Shonen é o mais popular e mais consumido e, portanto, o mais traduzido. O gênero espelha a conhecida jornada do herói e suas histórias são sempre pautadas em muita aventura e lutas épicas. Shoujo, que se traduz para português como “menininha”, faz sucesso em séries de romance e drama. Neste ponto, muitos telespectadores estão preocupados com a forma como mulheres — e até meninas — são representadas no anime. Em ambos os gêneros, é comum ver figuras femininas usando roupas muito curtas e decotadas, às vezes até revelando sua calcinha.

Tanto o anime quanto mangá, possuem histórias convincentes que mantêm os espectadores presos na tela ou páginas. Portanto, outra prática conhecida pelos otakus de longa data, é feita no clímax do episódio, quando os produtores optam por fazer cortes e focos visuais na cena de forma um tanto quanto incoerente, quebrando a linha de raciocínio do público e o traz para um imaginário sexual, geralmente em ângulos que invadem o espaço da personagem e se tornam perturbadores. As mulheres em cenas de ação também costumam ter um foco comum na estética, caracterizadas por saltos altos, roupas justas e decotadas, cabelos arrumados, acessórios e maquiagem. Em uma comparação básica, podemos ver a diferença, pois os heróis masculinos costumam usar roupas que parecem confortáveis ​​e protegem todo o corpo. Isso porque a missão de salvar o mundo e combater o mal exige proteção.

Reprodução: Boku no Hero Academia.

Em 2014, o governo japonês promulgou uma lei que proíbe e pune a posse de fotos e vídeos abusivos de menores. Mas a relatora da ONU Maud de Boer-Buquicchio disse a repórteres em Tóquio que “essa pornografia extrema deveria ser proibida”, concluindo que ainda existem brechas que permitem a exploração de crianças, como desenhos pornográficos. Na discussão, o argumento usado por aqueles que defendem a livre circulação desses desenhos é que eles não são realmente sobre crianças, são apenas uma fantasia. Os designers ainda afirmam que este é o seu direito à liberdade de expressão. Já seu contraponto, os que discordam, lutam por representatividade, principalmente as mulheres, que passam indiscutivelmente pelo processo de coisificação. Elas alertam que muitas artes japonesas normalizam a pedofilia. O tema ainda é polêmico, mas não se pode negar que haja forte presença de sensualidade infantil nessas mídias. Algumas pessoas se recusam a interpretar personagens femininas porque não se sentem confortáveis. Por outro lado, também existem mulheres otakus que não se incomodam com a exposição do corpo feminino. “Sempre noto, mas não acho que seja um problema. Acho que as pessoas só condenam porque veem com suas próprias limitações. O Japão está longe, é uma cultura diferente. Temos que nos abrir, eles não pensem como nós”, disse Bruna Sampaio, cosplayer e vendedora de uma loja de roupas de anime.

No Brasil, o consumo de animes e mangás começou muito cedo, com a maior parte do público começando a assisti-los entre os 12 e os 18 anos. Há uma vasta preocupação sobre a imagem da mulher e como os jovens a aceitam. A objetificação e sexualização das personagens femininas na mídia reforça a masculinidade atual, tanto para garotos quanto para as meninas que estão assistindo e ainda estão se desenvolvendo. Consumir produções em que mulheres geralmente possuem um corpo exageradamente sexy em trajes curtos, pode mudar a forma como ela vê o mundo, inconscientemente tentando sempre atender a esses padrões impossíveis.

A verdade é que esse apelo sexual não é uma característica somente das animações japonesas, mas se faz presente em uma vasta quantidade delas. Com o mundo globalizado, a questão que era outrora do Japão, se torna uma questão mundial. Além da objetificação feminina, a pedofilia é um crime horrendo, e sua representação em qualquer tipo de arte deveria também ser, urgentemente, cortado em qualquer tipo de mídia.