A guerra global ao terror patrocinada pela CIA torturou Mohammed al-Qahtani 

Vinte anos após os ataques de 11 de setembro, o centro de detenção militar dos EUA na Baía de Guantánamo mergulha em um futuro incerto, assim como sua nuvem de controvérsias. Quase oitocentos prisioneiros de cerca de cinquenta países passaram por seus portões desde 2002. Embora a maioria tenha sido transferida para outros países, algumas dezenas de detidos permanecem.

Para seus apoiadores, Guantánamo é um depósito adequado para os “piores dos piores” na guerra ao terror (WOT). Alguns dizem que isso evitou que muitos dos homens mais perigosos do mundo travassem uma guerra contra os Estados Unidos, fornecendo informações essenciais de contraterrorismo e ajudando a levar criminosos de guerra à justiça, incluindo os responsáveis pelo 11 de setembro. Para seus críticos, no entanto, é um monumento assombroso às violações de direitos humanos perpetradas pelos Estados Unidos em nome da segurança nacional. 

Ao longo dos anos, muitos prisioneiros alegaram que foram detidos ilegalmente, negados o devido processo legal e submetidos a graves abusos físicos e psicológicos – até mesmo à tortura – por seus captores norte-americanos. Como resultado, Guantánamo minou a influência e a autoridade moral dos EUA em muitas partes do mundo.

Debate de tortura em segredo 

Pessoas com histórico de saúde mental debilitada vêm definhando na notória prisão que o governo de George W. Bush abriu na Baía de Guantánamo, Cuba, há 19 anos. Mohammed al-Qahtani passou mais da metade de sua vida lá. Entidades jurídicas e de direitos humanos, portanto, ainda lembram da promessa não cumprida de 2008 da chapa Obama-Biden de fechar a prisão offshore. 

Mohammed al-Qahtani é saudita e foi, nos primeiros dias de Guantánamo, considerado o vigésimo sequestrador – que pretendia roubar um dos aviões – durante os ataques de 11 de setembro, e foi submetido a um programa específico de tortura, aprovado pelo então secretário de Defesa Donald Rumsfeld, “submetendo-se a dois meses de interrogatório brutal e contínuo pelos militares dos EUA dentro de uma cabana de madeira no Campo X-Ray no final de 2002 e início de 2003”.

Os detalhes de sua tortura chocaram o mundo quando um diário de interrogatório vazou para a revista Time em 2006. Como o Times descreveu, o diário revelou como “interrogadores militares colocaram o Sr. Qahtani em confinamento solitário, o despiram, rasparam seu cabelo à força e submeteram-no em privação de sono prolongada, desidratação, exposição ao frio e várias humilhações psicológicas e sexuais, como também fazê-lo latir como um cachorro, dançar com um homem e usar roupas íntimas femininas na cabeça”. Como o Times acrescentou: “Eles (CIA) extraíram dele uma confissão, que mais tarde ele se retratou”, que incluía alegações que ele havia feito contra outros 30 prisioneiros, afirmando falsamente que eram guarda-costas de Osama bin Laden.

Guantánamo tornou-se permanentemente ligada a alegações de abusos de detidos antes e durante o seu tempo no centro de detenção. Muitos dos abusos ocorreram durante interrogatórios conduzidos pela CIA e militares dos EUA, que foram encarregados de obter informações para interromper a rede da Al-Qaeda e impedir outro ataque terrorista.

Outro aspecto que escancarou a guerra ao terror dos EUA, além de conduzirem torturas em Guantánamo, a CIA expandiu seus interrogatórios de “detentos de alto escalão” em locais chamados de black sites (prisões secretas) em países estrangeiros, incluindo Tailândia e Polônia, e depois transferiu alguns desses detidos para Guantánamo. Enquanto isso, os militares supervisionavam os interrogatórios de detidos no arquipélago de segurança máxima. Fora dos métodos de interrogatório autorizados, até 2009, alguns detidos também teriam sido submetidos a táticas de interrogatório mais duras e não aprovadas e ilegais, atravessando todo o regime de internacional de direitos humanos, bem como ações disciplinares abusivas.

Liberdade em negociação

Diante disso, é importante notar que hoje, embora o governo Biden seja elogiado pelo planejamento da repatriação iminente de al-Qahtani, não há desculpa para não prosseguir com a repatriação dos outros 18 homens já aprovados para libertação. O New York Times afirmou que a maioria deles “não podem ser mandados para casa porque vêm de países instáveis como o Iêmen e a Somália, e que, por lei, não podem receber detentos de Guantánamo” e, portanto, “o governo Biden deve encontrar outros países dispostos a recebê-los”.

A libertação deixa 38 pessoas ainda detidas na Baía de Guantánamo, com metade delas podendo ser transferidas se acordos de segurança com outros países puderem ser feitos. Outros 10 detidos estão envolvidos no processo da comissão militar e dois foram condenados nessas mesmas comissões.