Pouco menos de um ano atrás, eu lembro de acordar antes do sol nascer para o suhoor, a primeira refeição feita antes do dia de jejum durante o Ramadã, mês sagrado para os muçulmanos. Eu lembro de ter ido dormir com as notícias de que várias famílias estavam sendo expulsas de suas casas em Sheikh Jarrah, na Palestina. Foi com o coração pesado que eu continuei aquele dia, sabendo o que estava acontecendo em Sheikh Jarrah, e como vários muçulmanos, como eu, estavam observando o Ramadã temendo pelas suas vidas. 

O bairro de Sheikh Jarrah foi, historicamente, um lugar para refugiados palestinos, que desde a criação de Israel, são violentados de todas as maneiras imagináveis pelas forças armadas e por invasores israelenses.

O que aconteceu em Sheikh Jarrah?

Em abril de 2021, Israel começa a proibir a entrada de palestinos da Cisjordânia na mesquita al-Aqsa, alegando que apenas aqueles com vacinação contra COVID-19 podem entrar, mesmo tendo em conta que as autoridades palestinas tiveram imensas dificuldades em conseguir vacinação para o seu povo.

Em 6 de maio de 2021, no leste de Jerusalém, protestos aconteceram resultado da intimação de despejo de famílias palestinas da região, que ocupavam aquele lugar desde há décadas. Os protestos palestinos foram respondidos com brutalidade e violência por parte das forças israelenses.

No dia 10 de maio de 2021, numa das mais importantes mesquitas da Palestina, al-Aqsa, a polícia israelense invadiu o local. O conflito resultou em mais de 300 palestinos feridos. Enquanto os palestinos lutavam com pedras, fogos de artifício e jogavam objetos pesados na direção de seus opressores, a polícia israelense atirava balas de borracha e gás lacrimogêneo.

Al-Aqsa, uma das mesquitas mais sagradas para os muçulmanos, o terceiro lugar mais sagrado no Islã, foi palco para a política de genocídio e limpeza étnica que Israel pratica. 

Enquanto esse conflito acontecia em Jerusalém, Israel bombardeava Gaza. A IMEU (Institute for Middle East Understanding) reportou que, apenas no dia 10 de maio, 20 palestinos, incluindo 9 crianças, foram mortos nesses bombardeios, e outros 65 foram feridos. 

Esses tipos de bombardeios, que já se tornaram comuns, já mataram milhares de palestinos e centenas de crianças. Além disso, desde 2007, Israel bloqueia o acesso a Gaza, impedindo assim, acesso a tratamentos de saúde, programas de educação e a livre circulação de pessoas, serviços e bens. Muitas pessoas que moram em Gaza são sobreviventes, e seus descendentes, da Nakba, a campanha de limpeza étnica de Israel em 1948.

Um cessar-fogo foi assinado no dia 21 de maio de 2021. Israel continua realizando vários tipos de violência contra o povo palestino, mas pouco ou nada é relatado pelos canais de comunicação. 

Um povo sem qualquer preparo militar, vivendo sob ocupação, sem um Estado e sem apoio internacional, luta contra um Estado colonizador e opressor, que recebe apoio dos Estados Unidos, um dos países com maior poder bélico no mundo. Mesmo assim, as revistas, jornais e canais de comunicação que cobrem os massacres realizados por Israel colocam, no mínimo, as duas partes como iguais, ou nos piores casos, os palestinos como terroristas.

O Ramadã de 2022 começa hoje, dia 2 de abril. Isso é motivo de muita alegria para os muçulmanos ao redor do mundo, mas, também traz certo receio. É de se esperar que Israel redobre sua violência anti-religiosa, de modo a enfraquecer e abalar o espírito palestino, sendo a maioria dos palestinos muçulmana. O genocídio e o sofrimento do povo palestino continua sendo apagado e esquecido todos os dias. É até, de certa forma, normalizado. 

Vimos recentemente uma grande comoção em relação aos refugiados da Ucrânia, e um ultraje em relação às atitudes tomadas pelo governo de Putin. Onde está a repressão a Israel? Onde estão os boicotes? Onde estão as doações para as famílias palestinas? O povo palestino continua sendo morto até os dias de hoje. Não acabou com Sheikh Jarrah.

Isso não é uma tentativa de comparar esses dois acontecimentos horríveis, mas é um pedido para não naturalizar o sofrimento palestino. Que a dor dos povos palestinos, iemenitas, afegãos, e tantos outros, cause tanta repulsa aos sistemas opressores quanto a dor dos povos ucrânianos. 

    Ramadan Mubarak.

Sabiá

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