Porque Gozamos Quando Punimos um Homem Negro

Muito se diz sobre filho feio não ter pai, mas por acaso pai feio tem filho? Tendo em vista os fatos recentes, gostaria eu de me assumir como filha desse pai pródigo que chamamos de supremacia branca. Claro que, dentre as filhas, eu não sou a menina dos olhos de meu pai, seja por eu insistir em me chamar de filha enquanto ele me chama de filho ou pelo fato de que, ao nascer, caí um pouquinho mais abaixo da Europa do que o seria preferível à ele. Nada disso, entretanto, me faz menos branca ou menos apta para falar sobre uma certa branquitude que me atraiu a atenção nesta última semana. 

Digo aqui “certa” porque os brancos não são hegemônicos, e muito menos os são o seu tipo de racismo. Nesta semana que se passou, prevaleceu no discurso público um racismo que não chama a atenção, um desprezo ao negro que é tão nosso, tão bonzinho e quietinho que nós até nos esquecemos de vê-lo como racismo. A situação estopim foi um tapa na cara, não metafórico mas literal, dado por Will Smith ao humorista Chris Rock. Agora que você, leitor saturado, revira os olhos por ouvir qual é o assunto da minha coluna eu devo te dizer: aqui eu não estou interessada no ator de Um Maluco no Pedaço, eu estou interessada em você, e o que faz suas calças ficarem meladas no debate público. 

Quando eu digo você eu não estou usando da segunda pessoa de maneira metafórica, não, você que está me lendo, eu sei que provavelmente nós dois nos conhecemos, a minha gama de leitores é tão minúscula que os raros são aqueles que me lêem e não me conhecem. Sendo assim, hoje, ao invés de eu me lamentar pela minha falta de fama, quero utilizar isso como meu trunfo para falar diretamente à você. 

Você que é sensível e um tanto quanto lido, que vai ao cinema não só pela diversão, que compra de livros que não estão entre os mais vendidos, que lê uma coluna de cultura em uma revista independente, você, eu, nós todos somos, direta ou indiretamente, ligados à vida intelectual brasileira, aos seus medos, suas aspirações, suas normas e, principalmente, aos seus afetos. Os afetos me preocupam mais do que as ideias que consumimos da alta inteligência do nosso país pois é possível ver as mesmas gramáticas de afeto entre as mais diferentes leituras políticas. Os queers, os acadêmicos, os liberais, os revolucionários e todas as outras variações de intelectuais se unem aqui em uma grande gramática que forma uma lei implícita em todos estes espaços. Você poderia me rebater dizendo: “Mas minhas leis e normas são construídas com base nas minhas ideias, é ridículo deixar elas de lado” e eu lhe treplico reafirmando que, aqui, o meu interesse não é saber das suas ideias, mas sim apalpar as suas bolas leitor, pois é lá, dentro destas calças, que nós podemos entender porque nós agimos e reagimos da maneira que fazemos. 

Os dois sentimentos que surgiram com o tapa dado na cerimônia dos Oscars foram de medo e gozo, um gozo muito específico que só surgiu porque antes se tinha medo, mas medo do quê? Da selvageria, de um estágio sem lei, toda vez que um homem negro se levanta quando ele não foi ordenado para se levantar nós, enquanto brancos, trememos e tememos pela selvageria. Pois é esse o local simbólico que construiu o quê é ser negro aos olhos do branco, a emoção e a violência são os afetos que fazem suas as nossas peles alvas e gozamos ao punir essa transgressão pois é com ela que nós reafirmamos os nossos valores e, em último lugar, nossa própria humanidade. 

É necessário aqui dizer que a humanidade nunca foi universal, a luta de toda minoria mas principalmente da causa negra está diretamente ligada à categoria filosófica de humano pois a criação dela também implicou ao longo da história a categoria de um não-huamano: o negro. O mundo da cultura, sendo desde sempre uma área que é considerada como o ápice do exercício do espírito humano, também implicou dentro de si uma identidade de que aqueles que fazem parte da intelectualidade são os mais sensíveis à própria humanidade. Nós, os intelectuais, somos os humanos por excelência. 

Isso, de forma alguma, nos faz elitistas. Não, de maneira alguma, nós queremos que todo mundo possa ser tão humano quanto a gente, atualmente também nos focamos em ler obras  de outras minorias, aplaudimos toda e qualquer coisa que nos façam passar pelo limite da tolerância e procuramos abranger a humanidade de uma maneira mais universal o possível, temos uma representante para as mulheres brancas, as mulheres negras, travestis, homens trans, PCDs e todas as minorias que são necessárias para que possamos ser o mais tolerantes possível. 

Para seguir este princípio humanista da diversidade e da tolerância é necessário que se mantenha uma não-violência, pois é ela que mantém seguras as nossas identidade e a nossa universalidade, adicionando à estes sistemas novos elementos, é necessário que, para mantermos tudo como sempre foi, não se pode romper qualquer aspecto da ordem de cordialidade que mantém este nosso humanismo miserável. Sendo assim é inegável que o que Will Smith cometeu foi um crime, o tapa desferido pelo ator desviou o rosto de Chris Rock e acertou no rosto de cada um dos ilustres intelectuais que o viram, dentro e fora da academia, pois o espaço que foi depredado foi o espaço simbólico que chamamos cultura. Espaço este na qual é possível entrar e sair, por isso que certas violências são mais passíveis ao julgamento do que outras. O estupro que Roman Polanski cometeu contra uma criança de 14 anos ocorreu fora do espaço da cultura, logo, este artista não tem a sua integridade colocada em risco enquanto Will Smith, ao dar um tapa em um humorista de mal gosto, cometeu uma contravenção que merece uma responsabilização maior e mais rápida em relação à sua carreira. 

Nessa comparação há também um outro ponto: Woody Allen, Polanski, Marilyn Manson e todos estes outros ilustres brancos são, desde seu nascimento, considerados como humanos, não há nenhuma contravenção que possa tirar-lhes disso, até mesmo quando responsabilizados as suas obras são poupadas pois há o direito a um justo julgamento a todos que são humanos. Esta compreensão e justiça não se cabem ao caso de Will Smith pois a sua humanidade foi algo merecido que pode facilmente ser retirado frente a qualquer ação e, ao lhe ser retirada, toda e qualquer punição é justificável pois é nesse sacrifício que nós, pessoas de cultura, democráticas e pacíficas, construímos a nossa própria humanidade. 

Os projetos cancelados, o internamento em uma clínica de reabilitação, tudo isso está acontecendo para o nosso mais puro gozo, estamos gozando ver um homem negro sendo punido pois puní-lo é aquilo que nós fazemos por essência, essa punição é aquilo que nos constrói como humanos, quando se está a margem da humanidade, a justeza das coisas que ocorrem contra você são dependentes das categorias de “culpado” ou “inocente”, se você for culpado, não importa do quê, todas as ações contra você serão consideradas justificáveis porque a punição não existe como uma reparação, mas sim como um sacrifício onde nós gozamos com o sacrifício de um mártir que vai morrer pelos seus pecados e, de tal maneira, vai nos absolver com sangue de todos os nossos pecados. Esse sangue é o que nos faz humanos pois a nossa humanidade só existe porque nós somos brancos, é com esse líquido vital daqueles que nós mesmos exilamos que nós pintamos a brancura de nossa pele, e eu gostaria que vocês, ao verem esta última polêmica, pensassem naquilo que pigmenta a sua pele, que permite com que você possa vir aqui, ver minha arte, minhas opiniões, acordar e discordar com o quê eu falo e continuar fazendo parte deste simpósio de hipocrisias que nós chamamos de cultura.



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