Conluio do sistema judiciário britânico com a elite política dos EUA

Há quem veja a Grã-Bretanha como o lar de algumas das melhores e mais justas cortes do mundo. Séculos de jurisprudência significam que Londres sempre esteve entre as cidades mais respeitadas do ponto de vista jurídico. No entanto, o caso de Julian Assange prova o contrário. 

A elite política, com uma mão nas costas do Departamento de Justiça americano (DOJ), vem usando sistematicamente o judiciário na Inglaterra para ameaçar e intimidar jornalistas e organizações jornalísticas, abrindo precedente perigoso. O que resultará disso tudo é a injustiça, supressão da liberdade de expressão, esmagamento de uma imprensa livre e assédio jurídico. 

Fato é que o DOJ, a GCHQ (agência de inteligência britânica), o Pentágono e a CIA estão determinados em deixar que Assange apodreça na prisão por revelar crimes de guerra. O caso de Julian Assange é, excepcionalmente, sobre silenciar a dissidência em vez de fazer cumprir a lei. As acusações contra o fundador do WikiLeaks é que há quase 10 anos ele tentou ajudar Chelsea Manning, enquanto analista militar na guerra do Iraque, a decifrar uma senha do governo norte-americano. Com que frequência isso geralmente resulta em uma investigação federal de anos e um pedido de extradição, sendo estrangeiro? O governo dos EUA, primeiro sob o governo de Donald Trump e agora sob o de Joe Biden, foram os pivôs do começo do lawfare contra Assange e o WikiLeaks. 

Lawfare no pensamento ocidental

Lawfare” é a ideia de que o direito internacional existe apenas como um estratagema; que os estados apenas cumprem ou criam regras internacionais como parte de sua busca pelo poder; que o poder, não a lei ou a moralidade ou mesmo o comércio, domina as relações internacionais; e que os estados são racionais, maximizadores de poder.

Fica cada vez mais em evidência que Washington e Londres podiam contar com o conluio ativo do The Guardian, New York Times e da elite burguesa do Ocidente, que empreendeu uma campanha de difamação contra Assange. Apesar da descoberta tardia das graves implicações para a liberdade de imprensa representadas por sua acusação e extradição, eles prepararam o caminho para isso. 

Em uma audiência de apelação que durou dois dias em outubro de 2021, o Supremo Tribunal britânico ouviu evidências da equipe de defesa de Assange sobre planos da CIA para envenenar, sequestrar e atirar em Assange enquanto esteve na embaixada equatoriana desde 2010. Em nenhuma parte da decisão de 27 páginas sobre o tratamento carcerário de Assange após a extradição para os Estados Unidos, a Suprema Corte mencionou o complô da CIA para sequestrar e assassinar Assange.

Lobby no sistema judiciário britânico

A Ministra do Interior do Reino Unido, Priti Patel, que em breve decidirá se deve ou não extraditar Julian Assange para os EUA, tem sido consultora política – e financiada – de um grupo de lobby que patrocinou arduamente a difamação de Assange na mídia britânica por uma década. Depois que a Suprema Corte recusou o recurso de Julian Assange de uma decisão de apelo contra a extradição, o destino do fundador do WikiLeaks, Australiano em solitária numa prisão de segurança máxima no Reino Unido e enfrenta prisão perpétua nos EUA, está nas mãos de Patel.

Pouco depois de se tornar parlamentar em 2010, Patel foi nomeada funcionária parlamentar de outro poderoso grupo de lobby, o Conservative of Israel (CFI), o Conservative of Israel Friends, enquanto Lord Arbuthnot estava próximo como seu presidente parlamentar. O já CFI foi descrito por analistas políticos liberais como “sem dúvida o mais bem relacionado e provavelmente mais bem financiado por todos os grupos de lobby de Westminster”.

Em outubro de 2019, Patel visitou Washington para se encontrar com William Barr, o ex-procurador-geral dos EUA que estava encarregado do caso Assange como chefe do Departamento de Justiça. Juntos, eles assinaram o Cloud Act, que tornou mais fácil para departamentos jurídicos americanos e britânicos exigirem dados eletrônicos sobre alvos enquanto realizam investigações.

Em agosto de 2020, sites como Daily Mail e Declassified solicitaram informações básicas sobre a viagem de Patel em 2019 a Washington. O Ministério do Interior confirmou a informação, mas recusou-se a divulgá-la pois o departamento considerou “que a divulgação de algumas das informações prejudicaria as relações entre o Reino Unido e os Estados Unidos”. Mas recentemente o Ministério admitiu que tinha oito funcionários trabalhando na Operação Pelican, a campanha do governo do Reino Unido para retirar Assange da embaixada equatoriana em Londres. O departamento, no entanto, alegou que não sabia quais outros ministérios do governo do Reino Unido estavam envolvidos na operação.

Chris Hedges, jornalista e escritor americano, afirma que o caso de Assange é uma clara ameaça à liberdade de imprensa, uma vez que ele agiu na condição de editor da mesma forma que os meios de comunicação globais que publicaram o conteúdo divulgado pelo WikiLeaks fizeram. “Os editores do Washington Post, New York Times e outras mídias deveriam ser acusados de crime por publicar o conteúdo também?” Segundo Hedges, só pode haver uma razão para todas as administrações republicanas e democratas recentes perseguirem Assange obstinadamente: ele é uma grande ameaça aos interesses mais sinistros do establishment.