De ‘mendax’ a responsável por um dos maiores vazamentos da história

Logo após escrever essas palavras no AOL Instant Messenger, Chelsea Manning foi presa no Iraque e deportada para os EUA onde foi condenada à prisão solitária. Em seguida, o presidente Barack Obama comutou sua sentença de 35 anos e libertada. Enquanto isso, Julian Assange, o ‘excêntrico australiano de cabelos brancos’, esteve em prisão domiciliar na embaixada do Equador, em Londres, por 8 anos. Até o momento desta publicação, Julian permanece em solitária, na prisão de Belmarsh, desde abril de 2019.

Vamos apenas dizer que alguém que eu conheço intimamente bem, tem hackeado nos servidores dos EUA, minerando dados… compactando, criptografando e enviando-os para um australiano de cabelos brancos excêntrico que não consegue ficar em um país por muito tempo… Só Deus sabe o que acontece agora. Espero que haja mais discussões, debates e reformas [sobre informações confidenciais] em todo o mundo. Ou talvez eu seja apenas jovem, ingênuo e estúpido.

Ativista, Whistleblower e combatente Chelsea Manning, em 2010.

No entanto, ele ainda conseguiu exasperar e humilhar o governo dos EUA e parceiros diplomáticos ao criar uma comunidade de denunciantes resilientes que revelam segredos pelo mundo. E em pouco tempo, com o WikiLeaks, Assange demonstrou como a realidade pode ser mais estranha que a ficção de Hollywood.

Mendax antes do WikiLeaks

Desde meados dos anos 90, muitos ‘cypherpunks’ pensavam na mesma linha que Mendax, apelido adotado por Julian. Cryptome, um site semelhante ao WikiLeaks, mas de uma escala menor, foi criado em 1996 e em 1999 publicou uma lista de supostos oficiais do MI6, entre outros vazamentos. De acordo com um email interno do WikiLeaks vazado para a Cryptome, Assange queria “derrubar muitas administrações que dependem de omitir a verdade – incluindo a administração dos EUA”.

Seu sonho era que, uma vez que os vazamentos fossem tão comuns que nada pudesse ser mantido em segredo, os governos se tornassem abertos, honestos e responsáveis. E o WikiLeaks seria “a agência de inteligência mais poderosa da Terra, uma agência de inteligência do povo”. Quando ainda criança, Assange brincava com a ideia de um site para whistleblowers. Em 1999 foi a época em que registrou o nome de domínio leaks.org mas não fez nada. Em 2006, aos 35 anos, Julian iniciou um blog, que durou até o ano seguinte, após o nascimento do WikiLeaks. 

A infância em um Commodore 64

Uma das casas em que Julian Assange e sua mãe moravam em Townsville, na Austrália, ficava em frente a uma loja de eletrônicos. O garoto, de cerca de 14 anos, ficou fascinado com o Commodore 64, computador primitivo desktop com o menor baixo custo da época, que tinha design de um caixote. Logo mais, foi se acostumando naturalmente com a tecnologia e a cultura underground da Internet quando ganhou seu primeiro modem. Dois anos depois, foi atraído pelo hacking.

Hackers como Julian Assange passaram seu tempo invadindo os sistemas de computadores de governos e conglomerados americanos e europeus, o locus tradicional do desprezo de democracias liberais. Mas à medida que a década de 1990 avançava, as inovações nas telecomunicações ampliaram os horizontes de ativistas em todos os lugares, assim como também as aspirações comuns dos hackers, cujos métodos eram adequados para auxiliar ativistas de direitos humanos em todo o mundo.

Esse nexo começou a atrair Assange. Para aqueles hackers que acreditam que a informação deve ser gratuita e abundante, é óbvio que sistemas de computador – portanto, os códigos em que estão escritos – também o sejam. Assange, já sob o famoso nickname ‘mendax’, foi coautor de vários programas admiráveis, incluindo um chamado Rubberhose, é um arquivo de criptografia negável contendo vários sistemas de arquivos cuja existência só pode ser verificada usando a chave criptográfica apropriada. Originalmente, Julian pretendia que o sistema fosse usado como uma ferramenta para ativistas de direitos humanos que precisavam proteger dados confidenciais em campo.

Mendax livre

Em dezembro de 2007, Assange estava profundamente conectado ao mundo digital de hackers profissionais de computadores para se encontrar na conferência anual do Chaos Computer Club, uma comunidade alemã de hackers criada em 1981, o equivalente cibernético da Idade da Pedra do hacking.

Antes de superar a adolescência, o envolvimento de Assange na subcultura hacker o envolveu em confrontos com autoridades. À certa altura de suas ações, a polícia australiana invadiu sua residência e confiscou todo aparato de hacking e seu desktop. Assange chegou a enfrentar 31 acusações de crimes relacionados a computadores. Após anos de prejulgamento, embora ele tenha se declarado culpado de 25 acusações, Julian conseguiu pagar uma pequena quantia em fiança.

Para seus admiradores mais fervorosos, mesmo que as atividades e a personalidade de Assange sejam falhas, suas realizações e brilhantismo deveriam lhe render mais tolerância e consideração. Segundo Suelette Dreyfus, autora australiana cujo livro sobre hackers Assange ajudou a pesquisar – Underground: Tales of Hacking, Madness and Obsession on the Electronic Frontier -, é necessário enxergar Julian desta forma: “É preciso um certo tipo de força e caráter para fazer o que Assange faz, e essas são qualidades bastante raras por os riscos serem muito altos.”